[Leitura de luta] Como domar um Dragão, por Luke Rockhold

Há alguns anos, Lyoto Machida causava a pior indigestão técnica que qualquer um poderia enfrentar dentro do octógono. Mas como nada é eterno em um panorama tão competitivo quanto o das artes marciais mistas, a fama de grande enigma do UFC aos poucos foi diluída.

Exemplo a ser seguido no quesito artista marcial, o Dragão sempre buscou se reinventar aqui e ali para manter o alto nível de performances. Após ser embrulhado por Luke Rockhold – que diga-se de passagem, teve atuação brilhante e mérito total na vitória – no main event do UFC On Fox 15, o brasileiro computou a derrota mais sonora da carreira.

O batalhão de críticas foi instantâneo, e mais uma vez quem era ótimo ficou péssimo de uma hora para outra.

Não acompanhei de perto o camp de Lyoto Machida, então o que escrever aqui sobre causas e consequências será baseado em suposições e impressões.

Ele realmente parecia um tanto minguado fisicamente desde a pesagem, provavelmente em virtude de complicações ou sequelas do corte de peso.

O que sei é que a perda muscular excessiva neste processo tem sido um das preocupações de sua equipe desde o combate contra Chris Weidman, em julho do ano passado.

Machida ficou conhecido por dominar quesitos como velocidade e mudanças bruscas de direção em plena movimentação, fatores que compõem a coluna vertebral de seu estilo.

Na colisão contra Rockhold, um adversário longilíneo, chutador contundente e de sólidobackground na luta agarrada, o carateca estava lento, receoso demais em ser atingido e comtiming de resposta todo embaralhado.

O buraco físico pareceu infectar pra valer a parte técnica.

Confuso

BaggyDelectableDunnart-1O duelo de canhotos começou com Lyoto menos paciente do que o normal, mudando a postura de nível algumas vezes e tentando conectar socos retos característicos.

O melhor lampejo técnico veio quando acertou um direto de esquerda, angulou para a direita (escapando do cruzado em contragolpe do oponente) e colocou rápido soco de direita.

Ali, Lyoto Machida foi Lyoto Machida pela primeira e única vez no combate.

Em outras análises, comentei sobre uma das grandes armas de Rockhold em pé era a capacidade de contragolpear recuando, usando a grande envergadura e a inclinação do tronco e do passo diagonal para se desvencilhar do ataque, jogando simultaneamente um cruzado mais aberto de direita (o da frente da posição de luta) por cima do golpe adversário.

WelloffNewCuttlefishRecursos do tipo têm grande eficiência contra investidas bruscas misturadas a golpes retos (como jabs e diretos).

Contra Machida, novamente foi a marca registrada providencial do norte-americano para desenhar o monólogo da vitória.

Após ser atingido e ter de exibir vasto repertório defensivo para se defender das investidas de Rockhold no solo, o brasileiro recebeu forte cotovelada na parte de trás da cabeça (golpe polêmico?), levantou sedado e com o olhar vidrado.

O revés no segundo assalto parecia questão de tempo. O brasileiro voltou com o botão de sobrevivência ligado e nada mais, disparando chutes e socos a esmo, até ser finalizado.

Adendo (mais que) merecido

041715-12-UFC-Swanson-Holloway-OB-PI.vadapt.620.high.0Se esperávamos uma show de movimentação de Machida, quem roubou a cena neste quesito foi Max Holloway.

No combate contra Cub Swanson, o usou e abusou das trocas de bases para criar ângulos inusitados de ataque e embananar o adversário.

A ambidestria é um conjunto de habilidades que será o diferencial intenso a ser explorado pelas as novas gerações.

Foi uma daquelas atuações necessárias para maturar de verdade o estilo de um lutador.

Holloway colocou em prática boas variações de passos laterais e semi-diagonais, tanto em destro como canhoto, utilizando a envergadura superior para marcar com jabs, cruzados ou mesmo chutes giratórios em cada investida.

No momento mais bonito, encurtou mudando de base e desferiu dois hooks (ganchos) certeiros na linha de cintura.

O recurso foi tão bem utilizado que Swanson foi atingido sistematicamente e não encontrava espaço para contragolpes isolados, e acabou o combate severamente lesionado.

[Leitura de luta] A sina de Crocop sem as ‘Crocopadas’

Vingança é um prato que se come frio, certo? Nesse caso, gelado.

Quem aí curtiu a revanche entre Mirko Cro Cop e Gabriel Napão Gonzaga no UFC Polônia?

Errei meu palpite aqui no Sexto Round sobre quem venceria, mas até que me dei bem ao cravar que seria um desafio morno e fora de época.

No fim das contas, claro que o que vale é a vitória e o troco dado pelo croata após ser boçalmente nocauteado pelo brasileiro no longínquo UFC 70.

Mas dói na alma ver um ícone do K-1 e do Pride se apresentar tecnicamente tão desfigurado e confiante apenas no lastro de treino.

Mas isso pode render assunto para outro artigo. A seguir meu ponto de vista sobre fatos e feitos do main event de mais um evento em território europeu.

Ontem e hoje

PerkyIllustriousAfricanporcupineCro Cop é um lutador canhoto e pouco paciente para usar táticas mais avançadas que podem amenizar tudo que fica desajeitado quando se enfrenta um oponente destro.

Desde a época do K-1, seu jeitão de lutar é sempre direto ao ponto: mais plantado, semsetups ou malícias dinâmicas mirabolantes.

Basicamente, é calcado na filosofia do ‘one shot kill‘ (ou ‘morte com um tiro só’, em português).

Isso se traduz em sequências curtas, com menos volume e força total em cada golpe.

Na mais famosa, o ‘sniper’ croata cerca o adversário alguns instantes, planta os pés no chão e solta um chutaço alto com a perna esquerda.

São as famosas ‘Crocopadas’.

Um dos grandes problemas para atletas de estilo semelhante está na ação do tempo e tudo mais que pesa nos ombros conforme a idade avança.

Fatores como potência, velocidade e absorção de golpes são essenciais para desenvolver o pacote de habilidades completo.

Longe do auge e cada vez menos confiante nas marcas registradas clássicas, Cro Cop parece desconfortável em ação, sempre caçando o equilíbrio entre força e precisão.

ScratchyWigglyEyasMas vamos para a luta. Em pé, Napão repetiu um dos cacoetes das últimas apresentações.

Conforme fechava o cerco, postava os pés virados para dentro e angulando como se fosse arriscar um chute giratório a qualquer momento.

A intenção era apenas uma finta para disparar pesados overhands de direita.

Mesmo movendo-se de forma arriscada para a esquerda, ou seja, de encontro ao lado de onde vêm os golpes de direita (os mais poderosos de Gonzaga), Cro Cop se desvencilhou dos ataques com uma manobra usada desde os áureos tempos: ao perceber a entrada no raio de ação, ele esticou o braço direito e projetou o corpo para trás, criando distância valiosa para escapar e, se possível, criar espaço para um contragolpe imediato.

Quase sem trabalhar armadilhas para encurtar e fazer valer o grappling, Napão dominou as primeiras parciais.

Ele aproveitou a falta de mobilidade de Cro Cop para puxar ao solo sistematicamente e moldar ações a seu modo.

Montou algumas vezes e soube usar os módicos 116kg para neutralizar o croata, mas perdeu chances de executar um ground and pound mais visceral pela insistência em alternar vantagens com misturas entre montada e meia-guarda.

Aí também é interessante citar o bom trabalho e a frieza para ‘sair de baixo’ de Cro Cop, um dos grandes pesadelos de nove entre dez strikers que se aventuram nas artes marciais mistas.

Como o infight se tornou predominante com o passar do tempo, um clinch ditou o caminho para o fim.

WaterloggedForthrightGharialPressionando Cro Cop contra a grade, Napão parou um instante de ‘pesar’ – ou seja, impor pressão peito com peito, além de colar cabeça com cabeça e prender os braços do adversário, como manda a cartilha mais básica dos clinches no MMA.

O milésimo de segundo em que o brasileiro abriu espaço foi suficiente para o adversário soltar o pulso esquerdo e mandar uma forte cotovelada na têmpora. Começava aí a virada de jogo.

A cotovelada é a forma mais devastadora de criar dano em curta distância.

A mecânica do golpe exige projeção de ombro e quadril, mas a possibilidade de criar algo contundente mesmo sem estar com a base de luta estabilizada transforma golpes do tipo no recurso mais direto para amenizar sufocos quando o lutador está com o oponente bufando pesado e travando contra as grades. Foi um momento de grande tato.

Conclusão

Depois de tantos anos acompanhando combates nas mais diversas modalidades, uma coisa que me chama atenção quando analiso algum lutador recai sempre em alguns detalhes da expressão corporal.

Cro Cop faz cara de mal e se porta como manda o figurino do UFC, mas o semblante, as reações dentro do octógono e o nível de habilidades já são de ex-combatente.

Ele deveria ter pendurado as luvas quando a curva descendente da carreira começou a pesar, mas não o fez.

Voltou ao K-1 em 2012 e venceu o contemporâneo Ray Sefo em evento realizado na Croácia.

Mas também não parou. Agora, vindo de triunfo, um novo precedente está aberto. Pensa bem, Cro Cop.

[Leitura de luta] Lamas, a nova vítima de Chad ‘Porradão’ Mendes

A síntese wrestling/boxe ainda é denominador comum para muitos lutadores de MMA. Pode não colaborar para tornar o estilo mais vistoso e geralmente esbarra na mesmice, mas a eficiência dos que sabem usar o mix de modalidades com propriedade é algo inegável.

Chad Mendes é um deles. Oriundo da greco-romana, o peso pena unidimensional de outros tempos soube agregar habilidades e tem se tornado o power puncher mais devastador da atualidade entre os pesos pena do UFC. No Fight Night Fairfax, precisou de pouco mais de dois minutos para despachar o sempre bem preparado Ricardo Lamas com um calhamaço de golpes no ground and pound após desmontar o adversário com um preciso soco de encontro.

Mesmo com a luta abreviada pela via rápida, não há motivo para não analisar fatos e feitos, certo? Vamos nessa!

Trombada

LnT7RQkOs golpes de encontro sempre estão na manga dos strikers experientes.

Normalmente, o cacoete mais direto é usar a ‘trombada’ nos momentos em que acontece a retomada de distância após alguma troca de golpes mais intensa.

A potência é duplicada pela colisão e o peso todo do corpo empregado no soco, com o leve deslocamento da posição para ajudar no ângulo de ataque.

Variações são muitas. Lyoto Machida usa o guiaku tzuki clássico do caratê em linha reta com maestria.

Fora do MMA existem milhares de casos no boxe. Mas um dos exemplos clássicos que sempre me vêm à cabeça é o socão com passada que definiu o combate entre Ray Sefo e Jerome Le Banner no K-1.

Quem lembra? Um dos grandes motes que reforçam a sensação de renovação de estilo para Chad Mendes estão nos fundamentos de postura e movimentação.

O norte-americano usa passos curtos e alguns chutes isolados quando está distante dos oponentes.

3 uppercutCom postura ereta e guarda com os punhos voltados para fora (jeitão apelidado de‘mummy stance’, ou posição da múmia pelos gringos), ele controla distâncias movendo constantemente o ombro e ‘ciscando’ com o punho esquerdo (da frente da posição de luta) para criar pequenas fintas e manter o adversário sempre preocupado com alguma coisa.

De repente, se lança ao ataque de forma explosiva, criando uma barragem ofensiva de timing/contrapé bastante peculiar.

O melhor momento de Ricardo Lamas no desafio em Fairfax surgiu quando usou uma finta clássica do wrestling/boxe, semelhante à utilizada por Mendes no último combate contra Aldo.

Ele abaixou a posição e simulou um toque na coxa para imediatamente subir com um forte uppercut. A manobra bagunçou o reflexo do adversário e o acertou de raspão.

Em seguida, veio o lance que criou o começo do fim.

SafeWeeklyBergerpicard1 – Mendes fechou o cerco contra as grades, ameaçando atacar com o punho da frente.

2 – Lamas armou a defesa do golpe (que na verdade era apenas uma finta) e arriscou um cruzado de direita.

3 – Mendes fez a passada, angulou para a direita e o acertou de encontro com um mistão overhand/cruzado que explodiu entre a testa e a parte de cima do crânio. Lamas desabou.

Lamas não foi imprudente ao abaixar demais a cabeça no momento em que o soco explodiu em sua cabeça.

Nos golpes de encontro, você provavelmente perderá o adversário de vista por um milésimo de segundo, e o reflexo mais básico é tentar se encolher o máximo possível.

O problema é que uma pancada muito forte nessa região desnorteia pesado.

É semelhante a ser golpeado com força na região do ouvido, o que não ‘desliga’ como a ponta do queixo, mas danifica o senso de equilíbrio instantaneamente.

A partir daí, Lamas ligou o ‘zumbi mode’ e acabou derrotado.

[Leitura de luta] Demian e a suavidade dominante

Meus amigos, a edição mais propensa a narizes torcidos de um UFC na Cidade Maravilhosa até agora não deve ser lembrada daqui alguns meses, mas até que cumpriu tabela de forma satisfatória.

Para o contento geral da nação grappler, tivemos um festival de finalizações, além de uma lição de dominância na arte suave promovida por Demiam Maia, que faturou a vitória em cinco rounds após neutralizar e moldar Ryan LaFlare de forma monstruosa no chão.

O que vocês conferem a seguir é a minha visão livre sobre chaves, passagens de guarda, imobilizações.

Não sou propriamente o cara mais indicado a isso, mas como estamos em plena era do MMA moderno – e sou viciado em toda e qualquer ciência de luta -, é preciso ‘jogar nas onze’, certo? Vamos lá.

Na mesma dimensão

SnappyWiltedBlowfishNo MMA moderno, Demian Maia é um tipo de ‘último dos moicanos’ entre os lutadores de essência unidimensional que ainda obtém sucesso dentro das oito paredes.

Seu jiu-jitsu é tão vasto que o possibilita controlar ações usando os recursos do ground and pound de forma reduzida.

O padrão em pé de Maia é elaborado para abrir brechas para o grappling e facilitar ostakedowns. Óbvio.

Mas se entre os médios o lutador fez um esforço monumental para ser um striker mais lapidado – e muitas vezes pagou o preço disso via descaracterização técnica -, na divisão até 77kg o paulista contenta-se em ser funcional, com movimentação simples, jogo ofensivo voltado da média para a curta distância, trocas de níveis constantes, muitos jabs fintados e diretos ou cruzados de esquerda ocasionais.

Mesmo sob a visão mais simplista exigida nas adaptações para o MMA, o jiu-jitsu é uma modalidade ‘chata’ nos detalhes.

Um bom repertório calcado nas variações do básico é essencial, e as lições no mundo sem pano e das luvas de quatro onças (que modificam pegadas e encaixes) é o clichê de sempre: a pura expertize economiza esforço e cria vantagens substanciosas.

FatherlyDimpledBangeltigerExemplos disso apareciam quando o brasileiro cravava a meia-guarda e esperava a reação deslocar o quadril (ou fazia o ‘camarão’, como se diz o jargão) para reestabilizar rapidamente a posição e usar a perna esquerda do adversário como ponte para progredir até a montada.

Nos primeiros três assaltos, Maia silenciou o adversário tecnicamente com variações do recurso descrito acima.

Ele só relutou nas tentativas de finalizações, com tentativas tímidas de kimurakatagatame.

No geral, esperava mais do norte-americano. LaFlare tem como principal setup mandar um cruzadão de esquerda para em seguida atacar com single legs.

Mas com o timing totalmente embaralhado, cometeu erros que facilitaram – e muito – o trabalho de Maia de colocá-lo na horizontal.

Diversas vezes ele tentou envolver o pescoço do adversário de qualquer forma durante as investidas, desestabilizando a postura e anulando qualquer chance de criar espaço para evitar o giro de clinch do paulista, que alcançava o solo com a meia-guarda já engatilhada.

Rapidão

CircularUnripeCardinalKevin Souza precisou de pouco tempo para descolar um nocautão clássico contra o japonês Katsunori Kikuno, um misto de carateca paradão e porralouca que tem ignorado o fundamento guarda e dado muita sopa para o azar.

Com vasto handicap de envergadura, o brasileiro abusou da sagacidade.

Encurralou o oponente mudando de níveis, primeiro ciscou para a esquerda e depois soltou um diretaço de direita angulando para a esquerda.

Tão óbvio e tão eficiente.

[Leitura de luta] Quanto vale (acabar com) o show?

Não foi uma surra bíblica, mas teve um climão mais maquiavélico, se é que vocês me entendem.

Sim, temos um novo campeão dos leves! Surpreendente? Sem dúvida. E cá entre nós, meus camaradas: que lavada.

Tudo bem que Rafael dos Anjos entrou credenciado para o combate contra Anthony Pettis noUFC 185. Mas nem o sujeito mais otimista poderia prever um monólogo tático tão acentuado sobre um dos campeões mais talentoso da atualidade.

Nesta que foi a empreitada mais cascuda da carreira, o ‘conjunto movido à dedicação’ novamente foi o combustível que permitiu o brasileiro manusear completamente a dinâmica do combate durante 25 minutos.

Vamos dar uma olhada mais de perto.

Cartas na mesa

EarnestLightIsopodRafael dos Anjos não segue nenhuma fórmula fora do comum, mas seu estilo tem apresentado poucas rebarbas.

Ele é totalmente incisivo no começo dos rounds, sem fugir de qualquer troca de golpes de igual para igual. Da metade para frente – ou mesmo antes, quando fareja alguma brecha – modifica a dinâmica dos golpes e visa setups(preparações) para o grappling.

A noção de isometria é pesada, mas ao mesmo tempo parece natural.

Personalizada com o misto de instinto e funcionalidade já característico dos atletas de ponta da Kings MMA, a tática parece simplista, mas surte o efeito desejado apenas se os fundamentos e transições de striking/grappling estiverem perfeitamente balanceados.

Dos Anjos não é um lutador repleto de marcas registradas ou diferenciais. Então nada vai funcionar na prática se um dos setores estiver ‘mais ou menos’.

Famoso pela versatilidade, Pettis mais uma vez recuou quase o tempo até ficar com as costas perto da grade do octógono (como havia feito no combate contra Gilbert Melendez), aceitando a pressão e tentando contragolpear apenas com cruzados de direita.

SevereBogusAfricanrockpythonAos poucos, excesso de confiança e falta de inspiração se confundiam.

Usada em outros combates como recurso para golpes acrobáticos, as grades do octógono desta vez foram o começo do fim para o norte-americano. No final da primeira etapa, o Showtime já bufava pesado.

O pacotão de striking que o brasileiro trouxe para o desafio estava bem definido.

O primeiro passo foi o mais simples: avançar, aguardar o recuo – e a possível iniciativa do oponente – para despejar sequências de até cinco golpes.

A partir daí, aproveitar as saídas laterais do norte-americano para acertá-lo no contrapé.

Canhoto, Dos Anjos usou fortes chutes médios de esquerda como boas-vindas no começo do combate, aproveitando a movimentação insistente do adversário para a direita, ou seja, de encontro a seus golpes mais fortes.

Quando Pettis resolveu circular para o outro lado (direito), foi atingido com rápidos jabs e combos hook/cruzado de direita.

Aliás, o primeiro soco conectado pelo brasileiro foi crucial para ditar a dominância no restante da luta.

Dos Anjos mandou forte cruzado de esquerda no supercilho do norte-americano. A parte de cima do olho inchou, metade da visão periférica ficou prejudicada e a confiança de Pettis – longe do auge naquela noite – começou a minguar.

Agressão prudente

Pettis se mostra letal quando domina ações da média para a longa distância. Isso se traduz em rápidos socos e fintas seguidos de chutes potentes disparados nos mais diversos formatos.

Falha mais visível de movimentação em combates recentes, o carioca recuou bem menos desta vez.

Após a maioria dos ataques, Dos Anjos dava apenas um leve passo para trás se atacado, mas prontamente se postava e seguia o cerco ao oponente, aliviando as chances de ser atingido pelo chutes que Pettis tanto gosta de mandar quando os adversários retrocedem demais.

O norte-americano foi desleixado e ineficaz quando pressionado. E viu o caldo entornar conforme o tempo passava.

Conclusão

A lição principal que ficará por algum tempo é que qualquer estilo de luta, por mais intimidante que possa parecer, é passível de falhas a serem exploradas.

Durante 25 minutos, Dos Anjos desbancou Pettis da condição de gênio e o transformou em um lutador normal. Agora, entra para a história como o primeiro brasileiro a ser campeão em uma das divisões mais povoadas e complexas do UFC. O carioca pode não ser o detentor de cinturão mais perfeito e carismático da organização.

Mas sabe cada vez mais tirar proveito do caráter multidisciplinar da modalidade para atestar os atributos com uma mistura técnica e tática forjada a sangue, suor e treino duro.

Desta vez, valeu muito mais que confiar apenas no ‘berço’.

[Leitura de luta] Dos Anjos x Pettis será talento x dedicação

No próximo sábado, Rafael dos Anjos entra de cabeça na missão de tirar Anthony Pettis do trono dos leves no UFC 185.

Com padrões de striking ao melhor estilo talento (do campeão) x dedicação (desafiante) dentro das oito paredes, lá vão as primeiras impressões sobre estilos, detalhes e o embate técnico que tem tudo para ser prenúncio de lutão.

Talento

TemptingBrokenHadrosaurusStriker nato de estilo extravagante e de muitas marcas registradas. Aluno direto de Duke Roufus, um dos integrantes mais ativos da tradicional família de kickboxer doTio Sam.

Inventor dos Showtime Kicks (chutes ou joelhadas que usam a grade do octógono como apoio), Anthony Pettis incorpora como poucos os papeis de agressor e contragolpeador na mesma moeda.

Quase toda semana escrevo aqui sobre detalhes de movimentação e ângulos, cada vez mais providenciais de serem explorados como diferenciais em um panorama no qual perceber mesmices técnicas é inevitável.

O campeão não foge à regra.

Mais que isso, pode ser considerado um tipo de garoto-propaganda da efetividade nas variações destes fundamentos juntos, usando recursos de ‘cortar o octógono’ – aproximar-se cercando sistematicamente ao invés de apenas avançar e atacar em linha reta – como base para abreviar passos e desenhar posicionamentos que facilitam executar golpes diversificados com extrema naturalidade.

Imprevisível, o repertório de chutes de Pettis basicamente mistura a elasticidade do taekwondo com a tenacidade do muay thai/kickboxing.

lauzon 1 gifA herança na clássica arte marcial coreana, que preza velocidade e golpes consecutivos está no movimento de quadril para aplicar as pernadas, sempre é mais enxuto e ‘reto’, o que evita telegrafar os golpes.

Fintas de mãos e pés também são frequentes.

Assistir algumas técnicas do tipo elevam o status do lutador de ‘bom’ para ‘excelente’ e a variedade imensa de possibilidades ainda é explorada de forma restrita no MMA.

Assim, Pettis também usa muito o volume de socos como setups para forçar bloqueios e coberturas (com os dois antebraços na frente do rosto).

A intenção é tapear oponentes e assim colocar algum golpe de potência que possa surpreender.

Dedicação

tumblr_ngl37gvLww1u2ragso1_r1_500Rafael Dos Anjos tornou-se um striker de respeito após se tornar discípulo de Rafael Cordeiro, mentor da Kings MMA.

Cria dos tempos mais austeros da Chuteboxe, um dos destaques no trabalho do treinador tem sido transformar grapplers de origem em golpeadores de elite.

Dos Anjos, que começou a carreira no MMA como um purista no jiu-jitsu, é exemplo puro de dedicação ao trabalho.

Um funcionário-modelo da pancadaria, adepto da cartilha do mestre baseada no volume acentuado de golpes e pressão constante sobre adversários. Uma mistura densa da agressividade ‘old school’ com refinamentos do esporte moderno.

Aliás, a obediência tática do carioca de têm sido grande trunfo para atestar a boa regularidade atual.

Em duas das atuações mais sólidas da carreira, contra Donald Cerrone e Nate Diaz, Dos Anjos foi altamente meticuloso nesse sentido.

RDA-drops-CerroneO foco principal foi passar a primeira metade dos rounds destilando técnicas em pé para fechar as parciais cravando vantagens no solo, sobretudo por cima, de onde varia e estabiliza posições com ground and poundpesado.

Mesmo com técnicas menos extravagantes, Dos Anjos também mostra base sólida nos chutes como fonte ofensiva inicial.

Canhoto, inicia combos com fortes patadas médias de esquerda ou direita para forçar aberturas na guarda e seguir com sequências de socos.

Na seção ‘especiais’, chutes com saltos engatilhados com pedaladas (trocas de perna em pleno ar), com variações para frontais e joelhadas como a que demoliu Ben Henderson.

Contra Diaz, o brasileiro comprovou a solidez do jogo ao demostrar timing impecável e variação nos low kicks, promovendo a destruição gradativa das pernas do adversário.

Outro destaque que ganha espaço está no uso do punho da frente (da posição de luta), em forma de jabs, hooks (ganchos), que abrem espaço para golpes de potência, e geralmente são angulados por cima.

Conclusão

4492671_oCom tantas credenciais interessantes e treinadores de renome reunidos, fica difícil crer que não houve estudo profundo das minúcias adversárias.

Nos prós e contras, Pettis parece menos propenso à erros técnicos, mas Dos Anjos já mostrou que tem amadurecimento técnico e reflexos suficientes para capitalizar em cima de qualquer vacilo.

A exigência, mesmo que subjetiva, que o campeão carrega em ‘ser genial o tempo todo’ também pode ser um tiro no pé em algum momento (por assumir riscos às vezes desnecessários).

O brasileiro ainda carrega um cacoete perigoso em alguns momentos: o de recuar mais de dois passos em linha reta quando atacado com mais intensidade.

Isso pode ser fatal contra um kicker habilidoso quanto Pettis, que vem com alerta ligado o tempo todo para soltar instantaneamente alguma das muitas cartas na manga em ângulos e velocidade absurdas.

Fora a expectativa para um desafio de cerrar os dentes na vertical, o conjunto de habilidades nos outros setores nos dois lados também é extenso.

No solo, o norte-americano abusa da guarda ativa e saliva por finalizações. O brasileiro é um passador de guarda voraz e tem agregado ground and pound do grosso ao jogo no chão, por cima.

Em princípio, neutralizar parece o melhor negócio contra um dos strikers mais elusivos do esporte.

Mas não sei se o brasileiro vai apostar pesado nisso, já que deixa bem claro que os possíveishandicaps no grappling funcionam atualmente como um trunfo letal e colocado à prova nos momentos oportunos.

Como sempre, opiniões e análises de vocês aí embaixo, por favor!

[Leitura de luta] Holly Holm tem a kriptonita para Ronda Rousey?

Amigos, Ronda Rousey x Cat Zingano foi um main event de apenas 14 segundos.

Bombástico, com certeza, mas obviamente não fornece gordura suficiente para uma análise mais profunda aqui em nossa ‘seção dissecação’ semanal. Vamos então dar uma olhada mais espessa no co-main event, que trouxe a estreia da multicampeã mundial de boxe Holly Holm vencendo Raquel Pennington na decisão dividida.

Morno no geral, o desafio rendeu críticas à pugilista pelo fato de ter adotado estratégia mais calculista e transformar as chances de nocaute em secundárias. Foi mesmo tão ruim assim? Vejamos.

De longe

A grande sina do striker que não quer ser cravado ao solo está calcada em fundamentos como timing e isometria.

É complexo manter o equilíbrio corporal para executar golpes fortes sem abrir brechas que facilitem o trabalho de adversários que estão dispostos o tempo todo a desenhar clinches e quedas.

Em pé, golpear adequadamente é mais ou menos uma busca constante por ‘equilibrar desequilíbrios’.

Holm golpeando sem ter que ir pro infight

Mesmo técnicas mais lapidadas de socos, chutes, joelhadas e cotoveladas, executadas na distância certa, com puxadas rápidas após cada golpe e bom feeling para dinamizar a potência exigem deslocamentos do centro de gravidade e projeções de força constantes.

Com isso, mexem no centro de massa (ponto de equilíbrio) de um corpo.

Aulas de física – e outros blablablás chatos – à parte, para ser eficiente a coisa toda tem de começar com uma boa postura de luta. A adotada por Holly em sua carreira no MMA mostra a forte preocupação em evitar o grappling a qualquer custo.

Ela mantém o tronco inclinado para frente, as pernas mais arqueadas e o quadril puxado o tempo todo para trás, com intenção de antever botes no quadril ou pernas e agilizar os sprawls(defesas de queda nas quais se jogam  as duas pernas para trás simultaneamente) quando necessário.

usa-today-8413425.0Mas a postura mais arcada e tensa também pode prejudicar a fluidez de golpes característica de seu jogo.

Visivelmente confusa por encarar uma adversária canhota e tecnicamente tímida demais, a destra Raquel Pennington capitalizou pouco em cima disso.

Ela deslocava o pé da frente (da posição de luta) insistentemente para arrumar alguma forma confortável de disparar golpes.

Mas Holly sempre a deslocava diagonalmente e quase de forma espelhada ao movimento da adversária. É o que muitas escolas de striking chamam de ‘mata-ângulo’.

Os melhores momentos ofensivos de Pennington apareceram quando ela esquivou/bloqueou alguns jabs de Holly e aplicou diretos de direita em contragolpe, com auxílio de rápidos movimentos para a esquerda. Mas foram pouco contundentes.

Rápido e rasteiro

mma-ufc-184-pennington-vs-holm1Como a ordem tática principal para Holly era cadenciar, a fórmula para criar volume sem se expor demais foi circular até arrumar algum ângulo, e aí se mandar para cima com investidas curtas e sequências de três ou quatro socos retos, muitas vezes terminadas com um chute lateral com a perna da frente bem esticados (quase como o ‘coice’ à la Sanda), mais para garantir a manutenção da média para a longa distância.

As famosas pernadas circulares altas da loira, uma de suas armas diferenciais no MMA, também apareceram em alguns momentos, mas acompanharam a mesma diretriz da ‘mais dinâmica/menos potência’ do restante do jogo.

Após cada combo, a boxeadora ainda abaixava ligeiramente a guarda, esperando a queda. O cacoete fez com que bloqueasse as (poucas) investidas para clinches de Pennington, e o desafio se manteve a maior parte do tempo na vertical até o fim.

Conclusão

tumblr_mum3bnRobt1qaa8d1o2_250Foi a vitória mais espetacular do mundo? Longe disso. Mas em uma visão mais ampla, podemos dizer que foi satisfatória para uma estreia deste porte.

Na época de pugilismo, Holly não foi uma nocauteadora nata (tem 33 vitórias, e apenas nove pela via rápida). No MMA, a adição de chutes ao jogo aumentou a média de KO´s: está invicta há oito combates e nocauteou seis oponentes.

Cria de uma das escolas mais estratégicas dos esportes de combate, a Jackson/Winklejohn, claro que Holly ainda precisa ‘criar calo’ de UFC.

Holly_Holm_vs._Juliana_Werner_1Mas o mais importante, por ora: precisa de tempo hábil para concretar habilidades no wrestling e jiu-jitsu, e assim achar um senso comum para não sacrificar as habilidades mais naturais (de striking) pelo simples receio de ser levada ao solo.

Ainda mais quando a campeã da categoria detém, além da soberania monstruosa, um dos padrões de luta agarrada mais mortíferos do esporte.

Aliás, nem Holly, nem Bethe Correia, nem ninguém.

Não dá para visualizar alguém que tenha a kriptonita neessária para sufocar e superar as habilidades da detentora da cinta.

Cyborg? Talvez. Tenho lá minhas dúvidas também. Mas isso é uma outra história.