[Leitura de luta] ‘Fenômeno’ capixaba na berlinda (de novo)

O UFC Saskatoon, no Canadá, colocou seis brasileiros em ação e rendeu ótimos lances, mesmo com o main event frustrante. Abreviado por uma lesão no pescoço ainda na primeira parcial, o desafio entre Charles do Bronx e Max Holloway caminhava para um desenho interessante, com o brasileiro cercando e equiparando volume de golpes em pé até visualizar brechas para usar o sempre bem tramado jogo de chão.

Mas não houve tempo de muita coisa.

Há indícios de que foi lesão regressa, ou seja, o paulista já parecia lesionado antes de entrar no octógono e não informou a organização sobre o fato. Teimosia, displicência ou necessidade? De qualquer forma, uma pena.

Vamos então dar checar mais de perto outros destaques da vez.

De novo

Falar que Erick Silva é um cara versátil e de estilo vistoso é chover no molhado. Mas ressaltar que ainda falta um ‘norte’ que sintetize todas as habilidades até que se encontre um denominador eficiente também o é.

A derrota contra Neil Magny foi nova prova disso. Com o decorrer da luta, o brasileiro cansou, perdeu a meada estratégica e não impôs argumentos mais convincentes dentro do octógono.

Claro que do lado de fora é fácil falar, mas o grande problema talvez esbarre no meio-termo entre a falta de dinâmica e o excesso de confiança.

Tudo bem que a potência mais bruta e pontual é um caminho bem indiciado quando enfrentamos um oponente com o volume de jogo massivo quanto Magny. Foi basicamente no que Erick apostou.

Captura de Tela 2015-08-24 às 16.25.13Mas para isso surtir efeito, é preciso cuidado para ajustar as ‘pedradas’ com passadas ou criar set ups. Não adianta apenas soltar o braço. O capixaba pecou nesse sentido, se expondo demais com giros ou colocando golpes de grande amplitude no vazio.

Magny teve peito ao aceitar e treinar apenas uma semana para este combate. Ele soube lidar com a explosão característica do adversário filtrando alguns detalhes.

Logo que percebeu que ficaria suscetível aos golpes rodados e menos ortodoxos, modificou a postura de luta, colocando-se de forma mais lateral para diminuir área útil a ser atingida.

Valorizou também o maior poder de alcance de forma dinâmica e menos desgastante, usando o punho esquerdo como uma metralhadora, alongando sequências de três a quatro jabs para garantir volume.

Nos clinches, o norte-americano foi ativo na medida certa, debruçando-se com a cabeça no peito para acelerar o desgaste adversário.

A fluidez nas transições também foi destaque. No solo, Erick teve momentos conscientes para estabilizar e trabalhar a meia-guarda, mas os golpes esporádicos demais rendiam espaço para as reações e pegadas pelas costas, o que pode ser grande problema contra um cara com a complexão física de Magny.

‘Massa’ firme

CoarseEmbellishedKittenPensei realmente que Chad Laprise fosse passear tecnicamente Francisco Massaranduba. Queimei a língua. O brasileiro mostrou grande poder de evolução ao contrariar o usual e trocar instinto por tática, o que nunca é fácil.

O canadense começou mais ativo, mixando os chutes circulares altos com baixos como de costume. Massaranduba manteve movimentação soltinha, matando o ângulo das patadas, acompanhando o desenho do golpe ao invés de ir de encontro ao mesmo, mantendo a guarda bem postada e jogando diretos de esquerda fortes nos momentos de recuo do oponente, como bom canhoto que se preza.

Usando bem o handfighting (choque de punhos da mão da frente da posição de luta típica no canhoto x destro) para direcionar o combate e atrair o adversário, o brasileiro logo acertou Laprise no contrapé com um forte direita, que abriu caminho pra o posterior castigo no ground and pound que liquidou a fatura.

Clean

SUzw74LVocê gosta daqueles mata-cobras em que o camarada provoca uma rajada de vento de tanto que estica o braço?

Que pena. É muito mais classudo ver umoverhand/swing bem executado.

O veterano Patrick Cote honrou a cartilha do bom boxe contra Josh Burkman no lance que definiu a vitória.

O canadense caçou o adversário com jabs e passos diagonais leves para achar o ângulo ideal e mandar o golpe justo, aplicado debaixo para cima com torção perfeita do pulso.

Características e carências do striking no MMA

Se a evolução do striking adaptado ao MMA hoje é algo de encher os olhos e tratado até com requintes científicos, no começo do desenvolvimento do esporte era totalmente diferente, com os adeptos das modalidades em pé sendo as presas mais fáceis frente ao poderio declarado dos grapplers.

Se você colocar duas pessoas para trocar golpes, fatalmente uma delas vai buscar agarrar a outra em determinado momento. Agarrar é o instinto combativo mais direto do ser humano, e também o mais natural a ser trabalhado nas disputas de artes marciais mistas.

A necessidade constante de especialização fez a arte da pancada tomar rumos novos e ganhar importância extrema no caráter híbrido das artes marciais mistas.

> Siga o Blog no Twitter:@cascagrossablog
CURTA o Casca-Grossa no Facebook

Como vira e mexe aparecem perguntas e dúvidas sobre o assunto, separei alguns tópicos com minha visão livre sobre o que mais tem me chamado atenção nos últimos tempos. E como sempre, o lance de ‘verdade absoluta’ nesta sessão está fora de cogitação, e a troca de pontos de vista é essencial. Vamos lá!

Postura de luta: O aspecto mais básico e um dos que mais se modificam. A mecânica mais comum tem sido quadril postado para trás (para facilitar as defesas ou tentativas de queda), pernas mais flexionadas para manter o centro de gravidade baixo.

A linha de visão da guarda se concentra mais na área entre o queixo e o começo dos joelhos, com os braços mais colado ao corpo e ligeiramente mais baixos.

Ambidestria: Já bati nessa tecla muitas vezes aqui. Vamos de novo: o lutador moderno tem de saber se virar muito bem tanto como destro quanto canhoto, com fluidez de ataques e defesas em ambas as posturas.

PointlessValidArchaeopteryxSe você tem alguma noção de artes marciais, sabe que isso é tão fascinante quanto complexo, já que os lutadores que disparam golpes atuando em bases distintas criam um timing todo especial (que também tem de ser dominado), multiplicam os ângulos de ataque naturalmente e não ficam tão presos a parâmetros.

Claro que tudo tem de ser perfeitamente equilibrado para não causar erros crassos e estranhezas técnicas, e isso leva muito tempo. As divisões mais leves têm se destacado neste aspecto. TJDillashaw e Demetrious Johnson são dois exemplos com técnicas bem lapidadas nesse sentido.

Movimentação: Um dos grandes segredos do sucesso, precisa ser trabalhada da forma mais versátil possível, em sintonia total com os tópicos postura e ambidestria.

Ainda considero as adaptações de passadas e deslocamentos do boxe uma das pedidas mais diretas, mas um bom conjunto de movimentação menos ortodoxo, como Dominick Cruz eConor McGregor, por exemplo, sempre impressionam.

Sistema defensivo mais específico: Boxers ou kickboxers têm um grau de confiança maior pela possibilidade de amortecer golpes com luvas de maiores calibres postando-as sobre o rosto.

bUwwtsCMas as de quatro onças usadas no MMA mudam completamente a forma de ataque (instigam o tempo todo a usar golpes de grande amplitude, ou as famosas ‘mãozadas’) e principalmente, as defesas, já que simplesmente tentar proteger o rosto com os dois antebraços deixam brechas gigantes a serem exploradas.

Mais uma vez, isso exige repaginadas constantes na movimentação evasiva, esquivas, pêndulos e saber usar os inevitáveis desenhos de clinch como medidas preventivas.

Os bloqueios espalmados (com um dos braços esticados, (muito usado por lutadores como Jon Jones ou Renan Barão) também são eficientes para medir distância segura e deter investidas mais bruscas.

Steps, fintas, angulações: O caráter híbrido do MMA desenha e redesenha possibilidades o tempo todo em todos os setores. Há alguns anos, muitos lutadores, sobretudo os que funcionam na fórmula wrestling/boxe eram carentes neste setor, lutando ‘reto’ demais.

Lyoto_Machida_vs._Gegard_Mousasi_4De uns tempos para cá, isso tem mudado. A malícia para condicionar e enganar adversários tecnicamente é um dos pontos mais interessantes nas artes marciais.

Tudo depende de fatores como senso de antecipação, expressão corporal e o nível/estilo de habilidades específico de cada um.

Em um panorama onde o equilíbrio técnico e físico é cada vez mais intenso, a necessidade de marcas registradas se torna essencial para criar diferenciais.

Thai clinch ou wrestling clinch? Outro ponto interessante. O clinch ativo do muay thai (com as mãos travadas em volta do pescoço do adversário) segue letal quando acrescido de joelhadas.

3_mediumMas a travada básica do wrestling (underhooks, controle de pulso, etc) cadencia mais e dá maior solidez sobre as ações com desgaste menor. Há espaço de sobra para as duas técnicas.

Uma pode complementar – ou ser a contrapartida – da outra (Fabrício Werdum que o diga) mas o estilo ‘colar tailandês’ tem sido usado em menor escala.

Mas a dinâmica atual do striking no MMA tem se mostrado mais propensa a combinações rápidas e de potência mais pontual, com entradas e saídas pensadas do raio de ação.

Muay Thai ou kickboxing? Eis a questão. O muay thai tradicional sempre terá seu valor como ‘luta mais contundente’ em pé e seus golpes mais isolados ao estilo‘one shot kill’ sempre tem papel decisivo quando a coisa descamba para as trocas mais intensas.

Muitas escolas como a Nova União, Team Alpha Male e outras têm desenvolvidos sistemas parecidos com o do kickboxing holandês, um jogo que valoriza as sequências repletas de set ups (preparação) e fintas de mãos e pés de forma contínua.

Defesas de low kicks: A preocupação constante com as quedas fazem muitos lutadores praticamente ignorar este aspecto.Boa parte dos lutadores sequer esboça qualquer cacoete em bloquear chutes baixos de acordo com as circunstâncias do combate.

É algo simples para o defensor e que pode ser devastador para quem está no ataque. Nem é preciso lembrar a cena que vem à mente sobre isso nos últimos tempos, certo? Boa parte dos lutadores sequer esboça qualquer cacoete em bloquear chutes baixos de acordo com as circunstâncias do combate. É algo simples para o defensor e que pode ser devastador para quem está no ataque. Nem é preciso lembrar a cena que vem à mente sobre isso nos últimos tempos, certo?

[Leitura de luta] Glover joga o jogo, de novo

Após a derrota contundente para Jon Jones e o desleixo quase-declarado no revés contra Phil Davis, Glover Teixeira recolocou os pingos nos ‘is’ das boas atuações e venceu Ovince St.Preux no main event do UFC Nashville.

Colocando em prática uma estratégia coesa e sem rebarbas, o brasileiro soube tirar vantagem das deficiências técnicas do adversário até finalizar no terceiro assalto.

No coevento principal, Michael Johnson e Beneil Dariush travaram uma batalha de nervos e dinâmica que resultou em uma das decisões mais discutíveis do ano. Olhemos mais de perto, então.

Fora da curva

Mãozada!

Bons lutadores se acostumam a lidar com parâmetros mais fixos e dentro dos conformes e caçam perfeição técnica na mecânica de movimentos a vida toda dentro das artes marciais.

Quando se tem pela frente um adversário menos ortodoxo – no caso, caberia também ‘mais atabalhoado’ – a coisa vira do avesso e pode complicar pra valer.

Ovince St.Preux está longe de ser um cara que luta redondinho. Seu padrão de striking vem carregado de erros crassos. Mas como o MMA é um esporte feito de adaptações que redimensionam a variação de possibilidades, há lugar para todo tipo de ‘estranheza’, ou seja, qualquer atleta e qualquer tipo de técnica pode surpreender.

Glover Teixeira é um golpeador incisivo e que já declarou não ligar muito para táticas mais elaboradas.

O jogo que desenvolve pode ser decifrável, mas o poder de nocaute inerente nos punhos e o grande senso de isometria no grappling criam uma maçaroca técnica bastante sólida.

GLO

A combinação imponderável + urgência de vitória fizeram o brasileiro adotar uma fórmula simples contra a truculência declarada nos 2.03m de envergadura e o ‘poder da mãozada’ de St.Preux.

Fintar e encurtar sistematicamente com o boxe, desenhar a queda, e mandar ver no ground and pound.

Com a luta em pé e o desenho canhoto x destro estabelecido, Glover confiou em combos curtos para não dar sopa ao azar, aplicando diretos ou cruzados de direita que criassem automaticamente ângulos mais confortáveis para fechar a sequência com cruzados de esquerda.

St.Preux destacou-se como o contragolpeador da vez e obteve sucesso nos momentos em que anteviu os ataques do brasileiro, conectando bons cruzados ou uppercuts isolados enquanto recuava, uma das diretrizes técnicas mais comuns em lutadores canhotos.

Pura e desmedida

Blitz inicial do americano

Chutes médios podem ser contundentes ao extremo. Mas no MMA exigem cuidado dobrado por serem um dos golpes que mais expõem ao grappling.

O melhor momento de St.Preux aconteceu no primeiro assalto, quando acertou uma bomba que explodiu nas costelas e fez o brasileiro mudar a feição imediatamente.

Mas a falta de set ups (preparo) inerente no padrão de luta logo o tornou previsível nas novas tentativas. Recuperado do susto inicial, Glover achou o tempo certo para não ser pego mais de surpresa.

O lutador mineiro, aliás, abusou da força nas pernas e lombar para quedar o adversário várias vezes.

AZ40aN4No solo, sabia que forçar para progredir posições contra um cara tão grande quanto St.Preux poderia redobrar o desgaste.

Quando não caía montado, limitava-se mais a estabilizar e golpear para desgastar o oponente.

A intenção acabou facilitada pela postura esparramada do adversário – que conforme o previsto abriu o bico após dez minutos – facilitando posteriormente passagens de guarda e afins até descolar a finalização com um mata-leão na terceira parcial.

Aqui e acolá

Além da discutível decisão por pontos, o combate entre os canhotos Michael Johnson e Beneil Dariush prometia emoção de sobra, mas ganhou climão subjetivo por se tornar uma batalha tática, onde ambos apostaram nas entradas e saídas no raio de ação com predominância para trocas de golpes retos.

Os jabs de direita de Johnson foram as armas mais exploradas. O norte-americano conta com malícia na medida para variar a utilização isolada ou complementada por diretos pesados de esquerda.

WeekvfEle abusou do golpe fundamental do boxe em cerca de 80% das oportunidades de ataque.

Para burlar a vantagem de envergadura do adversário de forma inteligente, primeiro ajustava a posição com leve passada diagonal à direita, para disparar o soco e acertar Dariush no momento em que este ‘toreava’ para se manter dentro no raio de ação.

Dariush mais uma vez mostrou evolução ao obedecer fielmente a tática traçada pelo mentor Rafael Cordeiro, da Kings MMA. Com postura alongada e centro de gravidade mais baixo, seus jabs também detiveram as investidas do adversário com mais variações.

Ora foram aplicados consecutivamente variando o nível (altura), ora eram mirados no peito para aproveitar algum pêndulo mal executado pelo adversário. Ao contrário de Johnson, porém, perdeu boas chances de fechar as combinações com algum golpe de potência.

O iraniano mostrou-se afiado em alguns contragolpes e chegou a anular bem os socos pesados de esquerda do adversário quando achou a brecha correta para responder com chutes.

No fim, mais uma decisão descambou para a margem interpretativa, e mais uma vez terei de assistir diversas vezes a luta para chegar a um veredicto. Ossos do ofício.

[Leitura de luta] Ronda procura, Ronda destrói

Não há dúvida que o climão do Rio de Janeiro inspira os lutadores dentro do octógono. O UFC 190 contou com grandes momentos e mais uma exibição de gala de Ronda Rousey.

A campeã peso galo afastou a previsibilidade, repaginou a dinâmica visceral de jogo e nocauteou a brasileira Bethe Correia em menos de um minuto.

> Siga o Blog no Twitter:@cascagrossablog
CURTA o Casca-Grossa no Facebook

Performances e técnicas devidamente desconstruídas, pra já. Ou como se diz em terras cariocas: já é!

34s

dont-cry-2Na entrevista pós-luta, Ronda afirmou que desta vez o plano era remexer a tática, com iniciativa maior de golpes da média para a curta distância até fazer com que a adversária caçasse o clinch e caísse noinfight pesado, principal armadilha da campeã.

Ela realmente se soltou mais nos primeiros instantes, mas o instinto de prender a cabeça da oponente com o braço esquerdo – seja para fazer um headlock, seguir com o dirty boxing e consequentemente desenhar alguma queda de quadril – mais uma vez esteve presente.

Com Bethe de costas na grade, Ronda variou a altura dos socos em alta velocidade, com destaque para as bombas em formas de hook/cruzado de esquerda, até cravar o clinch na posição canhota e desferir forte joelhada no plexo da brasiliera, que estatelou os olhos, acusou o golpe e começou a sair para a esquerda.

A norte-americana então fechou o ângulo, tocando com mais cruzados de esquerda até conseguir espaço perfeito para desferir o direto de direita derradeiro.

Brutal.

Bom revival

GivingCavernousAmbushbugE não é que o prato que muitos esperavam morno veio fumegante. Maurício Shogun e Rogério Minotourotravaram batalha campal e tática de primeira. Claro que o tira-teima no Rio não superou o primeiro encontro bombástico no Pride, em 2005.

Mas a impressão de ‘nada mal’ permaneceu até o resultado final.

Da mesma forma que há uma década, o que tornou este canhoto x destro tão franco foi a opção de ambos em não ‘ganhar’ o pé da frente (posicioná-lo por fora do pé do adversário) para criar um ângulo mais adequado de ataques e defesas.

Tanto Shogun quanto Minotouro apostaram em investidas diretas no raio de ação, o que expõe muito mais os lutadores a serem atingidos e amplia a imprevisibilidade geral.

Em melhor forma física e com tempo de resposta anos-luz mais afiado do que nas últimas apresentações, Shogun tomou o centro do octógono para pressionar o adversário para colocar alguma pedrada no momento em que recuasse.

ad.jpg-00E a marca registrada mais forte foram os chutes médios de direita, usados durante os três assaltos. Por causa da posição espelhada (destro x canhoto), golpes do tipo ganham em contundência, já que uma canelada bem dada atinge a área plexo/costelas de forma inteiriça.

O choque constante das mãos da frente também anulou boa parte das tentativas de jabs e fez o combate ganhar timing especial.

Shogun tomou a maioria das iniciativas no‘hand fighting’, tocando o punho de Minotouro quase o tempo todo para deslizar algum soco de carga bruta. Destaque para os onipresentes cruzadões de esquerda.

Mesmo com o tronco parado demais nos momentos ofensivos Minotouro descontou na boa movimentação evasiva e se mostrou defensivamente mais seguro quando a coisa esquentava, dosando melhor a pressão ofensiva com os bons golpes retos característicos.

No melhor lance, saiu do raio de ação em diagonal e mandou um direto de esquerda que atingiu a têmpora do adversário e o fez sapatear pelo octógono. Acuado, Shogun mostrou contragolpes calibrados usando a malícia técnica do pendula/golpeia sucessivamente.

Curioso mesmo é ver como os camps com Rafael Cordeiro transformam o brio e a expressão corporal do lutador paranaense.

Shogun atua como se quisesse impressionar o mestre o tempo todo, injeção de ânimo pura. Alguém ainda tem dúvida de que a Kings MMA tem de ser lar fixo para o curitibano?

Outras menções

Stefan Struve: A torre holandesa deu mostras de que vai usar melhor a envergadura monstruosa daqui para frente, consequência dos treinos com Henri Hoft.

A receita simples de jabs, chutes frontais e low kicks foi suficiente para anular um Rodrigo Minotauro ainda puro coração, mas em condições técnicas/físicas totalmente discutíveis.

Claudia Gadelha: O estilo Nova União impregnou na brasileira pra valer contra Jessica Aguilar. Mãos rápidas com poder de nocaute, tempo de resposta justo, quedas nos momentos certos, chão alinhado quando preciso. O tira-teima com a campeã das palhas promete.

Demian Maia: O senso de isometria mais natural e perfeito do esporte, disparado. Uma verdadeira masterclass de arte suave adaptada ao MMA contra Neil Magny.

[Leitura de luta] O novo show de TJ Dillashaw, o mestre dos ângulos

Se na primeira luta parecia que Renan Barão havia se armado de uma faca para enfrentar umTJ Dillashaw portando um fuzil, a revanche no UFC on Fox 16 foi ligeiramente mais equiparada.

Mas a meada tática confusa do brasileiro e o desfecho bombástico no quarto assalto deixou um climão de ‘mais do mesmo’ que prorrogou por mais algum tempo a condição de melhor do mundo para o peso galo norte-americano.

> Siga o Blog no Twitter:@cascagrossablog
CURTA o Casca-Grossa no Facebook

No período pré-luta, Barão parecia mais consciente dos perigos que o oponente traria. Mas no geral, faltou provar que havia tomado nota de cada erro cometido no primeiro desafio e se esmerado em corrigi-los.

Da mesma forma que no compromisso travado há mais de um ano, o norte-americano pareceu estar sempre um ou dois passos à frente tecnicamente, esbanjando vasto repertório de fintas e inteligência de luta.

Vamos ao que interessa.

Volume no talo

tumblr_ns3f6zPNxq1uymb4eo2_400Um dos melhores caminhos para confrontar um adversário com volume de golpes e criatividade tão acentuados como Dillashaw é apostar na potência como principal medida de contenção, ou traduzindo para o jargão ‘lutadorístico’ mais direto, ‘bater pesado e mais isolado para o cara ficar intimidado sempre que tentar se soltar’.

Com isso na cabeça, Barão teve relativo sucesso ofensivo em alguns momentos, sobretudo nas duas primeiras parciais. Faltou dosar melhor a explosão dos ataques, distribuindo-os em uma tática geral mais pontual e menos desgastante.

Há muita responsabilidade sobre as costas em um combate desse porte, não é fácil manter o foco do que foi treinado no meio de tanta adrenalina. Mas querer definir logo primeira parcial contra um dos caras mais dinâmicos do esporte foi um grande tiro no pé.

No final da primeira etapa, Barão já começava acusar o cansaço pela intensidade desmedida usada logo de cara. Aí foi se frustrando conforme os assaltos passavam e viu Dillashaw ampliar vantagens a cada parcial com

TastyKaleidoscopicJapanesebeetleÉ impressionante ver como o campeão desenha e redesenha possibilidades o tempo todo com o jogo repleto de fatores elusivos, condicionando adversários ao erro com fintas, ângulos, passadas e trocas constantes de base.

A ambidestria personalizada foi igualmente essencial para confundir as ações do adversário. Desta vez, Dillashaw priorizou atuar como canhoto, mas repaginou a dinâmica de costume nesta posição com muito mais ataques do que contra-ataques.

Os jabs com a direita foram as boas-vindas que burlaram o timing de resposta e incomodaram Barão pra valer. Mas outras variações nos combos mais marcantes do norte-americano mostraram tato e perícia acima da média.

Detalhes interessantes:

1 – O campeão se aproximava de Barão com as mãos baixas, para o adversário ficar tentado a aplicar algum golpe.
2- Ao primeiro reflexo contrário, Dillashaw se antecipava, disparando um golpe reto (como um direto de esquerda ou chute baixo) que acertava o alvo e já engatilhava a sequência da ação.
3 – Ao ser atingido, Barão esticava o braço esquerdo ou tentava responder com algum soco; Dillashaw então seguia o movimento, angulando por fora (para a direita) ao mesmo tempo em que deixava um cruzado de direita por cima do ataque.
4 – (Variação) Se Barão recuasse demais ao invés de ficar parado após o primeiro golpe conectado, Dillashaw trocava a base para destro quase simultaneamente, para em seguida esquivar dentro do raio de ação e seguir com golpes retos.

Desgaste

tumblr_ns3f6zPNxq1uymb4eo5_400O jogo de isometria do campeão quando o combate descambou para as grades foi outro fator que acelerou a drenagem de energia do potiguar.

Nesse tipo de situação, o campeão posicionava a cabeça contra o peito e fazia uma alavanca com a força das pernas/lombar para se debruçar sobre Barão e forçá-lo a gastar força de tração muscular o tempo todo para não ser levado ao solo ou golpeado.

No quarto round, um Barão já exaurido teve raça para suportar castigo severo.

A definição veio com uma sequência avassaladora de mais de 30 socos (na minha contagem, pelo menos 23 acertaram). E Dillashaw segue o reinado até 61kg.

Sem piscar

Edson Barboza x Paul Felder foi outro lutão ao melhor estilo lá e cá. Em desafios parelhos entre strikers de elite como esse, a média tentativa/aproveitamento – subjetiva muitas vezes para os menos iniciados -, funciona como definidor de resultado.

O brasileiro se impôs pra valer da média para a longa distância, evitando o fogo cruzado e garantindo vantagens ao alcançar mais vezes o alvo com golpes em diferentes níveis.

O americano – descendente de irlandeses- foi páreo duro o tempo todo, mas parou mais vezes na guarda do adversário ou desperdiçou chances no vazio, além de parecer mais preocupado em impressionar – ou devolver na mesma moeda os golpes plásticos característicos do brasileiro – do que propriamente ser eficiente.

Os potentes chutes de esquerda (com a perna da frente da posição de luta) novamente foram a base de ataque mais intensa no jogo do carioca.

Ele usou pelo menos três variações do golpe, atirando médios ou altos após rápidos steps, ou o alto em contragolpe a um jab ou direto.

6ia1s0_jpgMais!

No festival de golpes giratórios que permeou a luta, Barboza tentou duas vezes acertar as pernas do adversário com ‘spinning low kicks’, golpe pouco ortodoxo, imortalizado no K-1 pelo carateca suíçoAndy Hug e raramente usado no MMA.

Pena que as patadas do carioca ou passaram longe ou quase racharam a coquilha do oponente no meio.

[Leitura de luta] Leites e os problemas da evolução

O fato de o MMA ser um esporte híbrido o coloca na condição de fascinante com frJab de Bisping entrandoequência. Um striker de origem que se destaca como grappler (e vice-versa) arruma sempre um lugarzinho na memória dos fãs casuais e especialistas.

Na prática, essa condição também caminha ao lado dos problemas causados em equilibrar a máxima reinvenção/descaracterização.

Thales Leites travou um desafio parelho contra Michael Bisping no main event doUFC Escócia. Carente de marcas registradas relevantes, o aspecto tático pendeu como principal termômetro pra definir triunfo e derrota. Famoso às do jiu-jitsu da Nova União, o brasileiro mais uma vez mostrou méritos confiáveis em pé, mas faltou, digamos, ‘amalgamar’ habilidades para quebrar o timing do britânico nos momentos certos e evitar ser engolido pela fórmula movimentação/precisão do oponente.

Li em algum lugar que essa luta pode ser ‘chamada de interessante, mas não propriamente empolgante’, e acho que é bem por aí. Vamos para mais uma leitura livre sobre fatos e destaques técnicos.

Confiável

Não é novidade que Bisping aposta pesado em estratégias longas como caminho mais viável para amenizar a falta de poder de nocaute. Além do preparo físico (mais que) em dia, não é segredo que para uma receita deste tipo surtir o resultado esperado é preciso:

1 – Impor o ritmo e desgastar o adversário inteligentemente, forçando-o a o perseguir pelo octógono.
2 – Criar gordura ofensiva com jabs e outros recursos dinâmicos, como chutes na parte interna das pernas ou frontais.
3 – Quando os dois setores acima começarem a fazer efeito, ter percepção suficiente para ser mais incisivo em momentos oportunos.

Aos poucos, esse ‘vai não foi’ causa um tipo de osmose que passa confiança ao adversário. E a meada estratégica vai por água abaixo.Uma das falhas clássicas do europeu está justamente em demorar demais para soltar algum golpe definidor durante as ações, ou seja, os disparados por braços ou pernas que vêm do lado mais forte da postura de luta (no caso, o direito).

O passo mais direto para brecar um cara dominante no volume de jogo é focar em golpes potentes e mais isolados, além de apostar na antecipação para intimidar e evitar ser ‘engolido’ pelas iniciativas contrárias.

Leites conseguiu enquadrar Bisping em diversos momentos aproveitando essas ‘panes’, mas a inabilidade em ‘ancorar’ a posição ao aplicar socos mais curtos nas blitzes facilitou as defesas e escapes laterais do britânico.
Thales não perde um dos cacoetes mais comuns dosgrapplers de origem. Ele toma o centro do octógono e o adversário na tentativa de visualizar a melhor brecha para um possível bote para agarrar e tentar levar o combate ao solo.

Nas últimas apresentações do brasileiro, foi vísivel que a maior confiança em golpear facilitou o jogo declinches.

Fora uma tentativa quase bem sucedida na primeira parcial, quando deitou o combate e pegou as costas – mas não evitou que o adversário levantasse -, contra Bisping isso ficou pelo caminho conforme os rounds passavam e também em virtude dos méritos do inglês na mudança do desenho do combate.

De acuado, passou a acuar e cercar contra as grades, atestando o volume de jogo pra valer até o final.

Ponderações

Há alguns anos e ainda como peso médio, Demian Maia se esforçou como nunca para virar um ‘trocador’ (não gosto muito dessa palavra) de primeira linha, fato que também acabou embananando seu estilo geral e o levou a revalorizar conceitos dentro do próprio conceito de origem – no caso, o mesmo jiu-jitsu – para voltar a ter atuações sólidas.

É preciso tomar cuidado com as armadilhas da evolução. Ganhar confiança em um setor não acarreta em, necessariamente, esquecer de outro. Não dá para crucificar Leites por qualquer suposta falha de estratégia.

São coisas de momento, de tato de luta e de administrar situações dentro do octógono e com os nervos à flor da pele. Mas o brasileiro deixou a sexta vitória consecutiva escapar, muito provavelmente por não apostar nos detalhes do que faz de melhor quando era o melhor caminho a ser tomado.

Fica a lição.

Encaixes de McGregor x Mendes

Adversário mudado, tipo de chumbo trocado idem. José Aldo saiu e Chad Mendes entrou pela janela na disputa principal do UFC 189 contra Conor McGregor.

Táticas específicas de acordo com cada oponente geralmente começam a ser traçadas no último mês de preparo. Focado em uma estratégia para encarar o brasileiro, o irlandês foi obrigado a modificar às pressas alguns detalhes do que pretende colocar em ação no octógono dia 11.

Com o turbilhão de possibilidades técnicas remexido, lá vai meu ponto de vista livre sobre o que espero do desafio.

Esquerda, volver!

O desenho espelhado canhoto x destro aliado às características no striking de ambos deve criar uma batalha palmo a palmo pela dominância no flanco esquerdo.

Isso se traduz basicamente nos diretos de esquerda do irlandês versus os cruzados de esquerda do norte-americano.

Como convém em situações do tipo, quem for mais astuto e conseguir ‘ganhar’ mais o pé da frente (da postura de luta) – ou seja posicioná-lo por fora do pé do adversário – ameniza a neutralização de ângulos e se mantém mais confortável para aplicar melhores ataques e escapes.

BoilingFavoriteGonolekSe levarmos em conta a mecânica dos movimentos, a teoria certamente afirmará que um golpe reto (direto) tem a capacidade de alcançar um alvo mais rápido do que um golpe com o braço curvado (ou seja, como o cruzado).

Mas o grande lance está no formato e no caminho pelo qual cada habilidade é executada. Caímos então nos bons, velhos set ups de preparação.

A versatilidade nos chutes em gancho, giratórios e com salto pode chamar mais atenção, mas o conjunto de habilidades do europeu visa quase sempre deixá-lo em condições de soltar os socos de esquerda, a marca registrada mais forte no boxe.

Ele gosta muito de usar os diretos de esquerda em contragolpe recuando ou por cima dos diretos de direita do adversário após deslocamento curto em diagonal, manobra chamada por muitos de ‘mola’ ou ‘pistão’.

Chad-Mendes-Knockdowns-Jose-Aldo-UFC-179Há alguns anos, Mendes era apenas um golpeador funcional. Mas o trabalho diferenciado de drills (combinações) e sparring do treinador Duane Ludwig na Team Alpha Male fez ‘cair a ficha’.

O norte-americano agregou habilidades ao poder de wrestling e tornou-se um striker confiante, com velocidade monstruosa de respostas e grande poder de nocaute.

Contragolpes com a mão da frente são tradicionais e sempre traiçoeiros pela simplicidade e possibilidade menor de telegrafar movimentos.

Os overhands de direita do norte-americano são os golpes de carga bruta mais perigosos, mas cruzados de esquerda têm se mostrados letais quando usados no timing certo após cobrir-se (bloqueio usando os antebraços sobre o rosto) e visualizar brechas imediatas.

Isso pode ser efetivo se usado com inteligência para pegar McGregor de encontro quando este angula e golpeia com o direto.

Caçada

Outro fato a ser levado em conta recai em aspectos óbvios. McGregor estará muito mais suscetível a ser quedado do que seria na disputa contra Aldo.

FaroffZealousChuckwallaMendes não teve tempo hábil de fazer um camp completo, assim a estratégia básica pode realmente pender para o que ‘originalmente faz de melhor’ – no caso, o wrestling – em momentos de emergência.

É algo instintivo e personalizado em cada lutador, sempre conectado à memória muscular e lastro de treino.

Mendes é um dínamo nas entradas de quedas, sobretudo nos double legs, mas também desenha bons ‘fakes’ (fintas) a partir disso.

PartialEnergeticCrustaceanA técnica mais comum é quase senso comumentre os atletas da Team Alpha Male: a mudança de nível para o infight com um leve toque na perna do adversário como finta para condicioná-lo a pensar que será agarrado, seguido de um violento soco, geralmente emuppercut.

A postura alongada de McGregor e a proximidade de uma perna com a outra no destro x canhoto também pode parecer um convite aberto aos takedowns.

Por outro lado viabiliza ao europeu baixar o centro de gravidade de forma mais instantânea, o que pode evitar arremessos indesejados ao solo se estiver com o timing defensivo em dia.

Além de uma diferença significativa de envergadura, o irlandês se movimenta de forma muito mais espontânea e repleta de passos amplos, conseguindo assim mais imprevisibilidade nas esquivas e saídas do raio de ação.

Conclusão

Claro que após tanta promoção e blablablá, mal podia esperar para ver Aldo em ação, mas McGregor x Mendes também tem potencial para grandes momentos.

O empecilho do norte-americano está no tempo escasso de preparo, o do irlandês no fato de que até agora não encarou nenhum oponente com estilo de striking/grappling tão bem amalgamado quanto o de Mendes, além de se submeter a ajustes táticos de última hora.

McGregor é um golpeador criativo e competente, mas se esforça em ser o canalha folclórico tradicional no mundo das lutas, o cara que todos amam odiar.

Alheio a qualquer clichê, sábado ele terá a grande chance para colocar todos os pingos nos ‘is’. Quem aposta?