[Leitura de luta] Demian e a suavidade dominante

Meus amigos, a edição mais propensa a narizes torcidos de um UFC na Cidade Maravilhosa até agora não deve ser lembrada daqui alguns meses, mas até que cumpriu tabela de forma satisfatória.

Para o contento geral da nação grappler, tivemos um festival de finalizações, além de uma lição de dominância na arte suave promovida por Demiam Maia, que faturou a vitória em cinco rounds após neutralizar e moldar Ryan LaFlare de forma monstruosa no chão.

O que vocês conferem a seguir é a minha visão livre sobre chaves, passagens de guarda, imobilizações.

Não sou propriamente o cara mais indicado a isso, mas como estamos em plena era do MMA moderno – e sou viciado em toda e qualquer ciência de luta -, é preciso ‘jogar nas onze’, certo? Vamos lá.

Na mesma dimensão

SnappyWiltedBlowfishNo MMA moderno, Demian Maia é um tipo de ‘último dos moicanos’ entre os lutadores de essência unidimensional que ainda obtém sucesso dentro das oito paredes.

Seu jiu-jitsu é tão vasto que o possibilita controlar ações usando os recursos do ground and pound de forma reduzida.

O padrão em pé de Maia é elaborado para abrir brechas para o grappling e facilitar ostakedowns. Óbvio.

Mas se entre os médios o lutador fez um esforço monumental para ser um striker mais lapidado – e muitas vezes pagou o preço disso via descaracterização técnica -, na divisão até 77kg o paulista contenta-se em ser funcional, com movimentação simples, jogo ofensivo voltado da média para a curta distância, trocas de níveis constantes, muitos jabs fintados e diretos ou cruzados de esquerda ocasionais.

Mesmo sob a visão mais simplista exigida nas adaptações para o MMA, o jiu-jitsu é uma modalidade ‘chata’ nos detalhes.

Um bom repertório calcado nas variações do básico é essencial, e as lições no mundo sem pano e das luvas de quatro onças (que modificam pegadas e encaixes) é o clichê de sempre: a pura expertize economiza esforço e cria vantagens substanciosas.

FatherlyDimpledBangeltigerExemplos disso apareciam quando o brasileiro cravava a meia-guarda e esperava a reação deslocar o quadril (ou fazia o ‘camarão’, como se diz o jargão) para reestabilizar rapidamente a posição e usar a perna esquerda do adversário como ponte para progredir até a montada.

Nos primeiros três assaltos, Maia silenciou o adversário tecnicamente com variações do recurso descrito acima.

Ele só relutou nas tentativas de finalizações, com tentativas tímidas de kimurakatagatame.

No geral, esperava mais do norte-americano. LaFlare tem como principal setup mandar um cruzadão de esquerda para em seguida atacar com single legs.

Mas com o timing totalmente embaralhado, cometeu erros que facilitaram – e muito – o trabalho de Maia de colocá-lo na horizontal.

Diversas vezes ele tentou envolver o pescoço do adversário de qualquer forma durante as investidas, desestabilizando a postura e anulando qualquer chance de criar espaço para evitar o giro de clinch do paulista, que alcançava o solo com a meia-guarda já engatilhada.

Rapidão

CircularUnripeCardinalKevin Souza precisou de pouco tempo para descolar um nocautão clássico contra o japonês Katsunori Kikuno, um misto de carateca paradão e porralouca que tem ignorado o fundamento guarda e dado muita sopa para o azar.

Com vasto handicap de envergadura, o brasileiro abusou da sagacidade.

Encurralou o oponente mudando de níveis, primeiro ciscou para a esquerda e depois soltou um diretaço de direita angulando para a esquerda.

Tão óbvio e tão eficiente.

[Leitura de luta] Quanto vale (acabar com) o show?

Não foi uma surra bíblica, mas teve um climão mais maquiavélico, se é que vocês me entendem.

Sim, temos um novo campeão dos leves! Surpreendente? Sem dúvida. E cá entre nós, meus camaradas: que lavada.

Tudo bem que Rafael dos Anjos entrou credenciado para o combate contra Anthony Pettis noUFC 185. Mas nem o sujeito mais otimista poderia prever um monólogo tático tão acentuado sobre um dos campeões mais talentoso da atualidade.

Nesta que foi a empreitada mais cascuda da carreira, o ‘conjunto movido à dedicação’ novamente foi o combustível que permitiu o brasileiro manusear completamente a dinâmica do combate durante 25 minutos.

Vamos dar uma olhada mais de perto.

Cartas na mesa

EarnestLightIsopodRafael dos Anjos não segue nenhuma fórmula fora do comum, mas seu estilo tem apresentado poucas rebarbas.

Ele é totalmente incisivo no começo dos rounds, sem fugir de qualquer troca de golpes de igual para igual. Da metade para frente – ou mesmo antes, quando fareja alguma brecha – modifica a dinâmica dos golpes e visa setups(preparações) para o grappling.

A noção de isometria é pesada, mas ao mesmo tempo parece natural.

Personalizada com o misto de instinto e funcionalidade já característico dos atletas de ponta da Kings MMA, a tática parece simplista, mas surte o efeito desejado apenas se os fundamentos e transições de striking/grappling estiverem perfeitamente balanceados.

Dos Anjos não é um lutador repleto de marcas registradas ou diferenciais. Então nada vai funcionar na prática se um dos setores estiver ‘mais ou menos’.

Famoso pela versatilidade, Pettis mais uma vez recuou quase o tempo até ficar com as costas perto da grade do octógono (como havia feito no combate contra Gilbert Melendez), aceitando a pressão e tentando contragolpear apenas com cruzados de direita.

SevereBogusAfricanrockpythonAos poucos, excesso de confiança e falta de inspiração se confundiam.

Usada em outros combates como recurso para golpes acrobáticos, as grades do octógono desta vez foram o começo do fim para o norte-americano. No final da primeira etapa, o Showtime já bufava pesado.

O pacotão de striking que o brasileiro trouxe para o desafio estava bem definido.

O primeiro passo foi o mais simples: avançar, aguardar o recuo – e a possível iniciativa do oponente – para despejar sequências de até cinco golpes.

A partir daí, aproveitar as saídas laterais do norte-americano para acertá-lo no contrapé.

Canhoto, Dos Anjos usou fortes chutes médios de esquerda como boas-vindas no começo do combate, aproveitando a movimentação insistente do adversário para a direita, ou seja, de encontro a seus golpes mais fortes.

Quando Pettis resolveu circular para o outro lado (direito), foi atingido com rápidos jabs e combos hook/cruzado de direita.

Aliás, o primeiro soco conectado pelo brasileiro foi crucial para ditar a dominância no restante da luta.

Dos Anjos mandou forte cruzado de esquerda no supercilho do norte-americano. A parte de cima do olho inchou, metade da visão periférica ficou prejudicada e a confiança de Pettis – longe do auge naquela noite – começou a minguar.

Agressão prudente

Pettis se mostra letal quando domina ações da média para a longa distância. Isso se traduz em rápidos socos e fintas seguidos de chutes potentes disparados nos mais diversos formatos.

Falha mais visível de movimentação em combates recentes, o carioca recuou bem menos desta vez.

Após a maioria dos ataques, Dos Anjos dava apenas um leve passo para trás se atacado, mas prontamente se postava e seguia o cerco ao oponente, aliviando as chances de ser atingido pelo chutes que Pettis tanto gosta de mandar quando os adversários retrocedem demais.

O norte-americano foi desleixado e ineficaz quando pressionado. E viu o caldo entornar conforme o tempo passava.

Conclusão

A lição principal que ficará por algum tempo é que qualquer estilo de luta, por mais intimidante que possa parecer, é passível de falhas a serem exploradas.

Durante 25 minutos, Dos Anjos desbancou Pettis da condição de gênio e o transformou em um lutador normal. Agora, entra para a história como o primeiro brasileiro a ser campeão em uma das divisões mais povoadas e complexas do UFC. O carioca pode não ser o detentor de cinturão mais perfeito e carismático da organização.

Mas sabe cada vez mais tirar proveito do caráter multidisciplinar da modalidade para atestar os atributos com uma mistura técnica e tática forjada a sangue, suor e treino duro.

Desta vez, valeu muito mais que confiar apenas no ‘berço’.

[Leitura de luta] Dos Anjos x Pettis será talento x dedicação

No próximo sábado, Rafael dos Anjos entra de cabeça na missão de tirar Anthony Pettis do trono dos leves no UFC 185.

Com padrões de striking ao melhor estilo talento (do campeão) x dedicação (desafiante) dentro das oito paredes, lá vão as primeiras impressões sobre estilos, detalhes e o embate técnico que tem tudo para ser prenúncio de lutão.

Talento

TemptingBrokenHadrosaurusStriker nato de estilo extravagante e de muitas marcas registradas. Aluno direto de Duke Roufus, um dos integrantes mais ativos da tradicional família de kickboxer doTio Sam.

Inventor dos Showtime Kicks (chutes ou joelhadas que usam a grade do octógono como apoio), Anthony Pettis incorpora como poucos os papeis de agressor e contragolpeador na mesma moeda.

Quase toda semana escrevo aqui sobre detalhes de movimentação e ângulos, cada vez mais providenciais de serem explorados como diferenciais em um panorama no qual perceber mesmices técnicas é inevitável.

O campeão não foge à regra.

Mais que isso, pode ser considerado um tipo de garoto-propaganda da efetividade nas variações destes fundamentos juntos, usando recursos de ‘cortar o octógono’ – aproximar-se cercando sistematicamente ao invés de apenas avançar e atacar em linha reta – como base para abreviar passos e desenhar posicionamentos que facilitam executar golpes diversificados com extrema naturalidade.

Imprevisível, o repertório de chutes de Pettis basicamente mistura a elasticidade do taekwondo com a tenacidade do muay thai/kickboxing.

lauzon 1 gifA herança na clássica arte marcial coreana, que preza velocidade e golpes consecutivos está no movimento de quadril para aplicar as pernadas, sempre é mais enxuto e ‘reto’, o que evita telegrafar os golpes.

Fintas de mãos e pés também são frequentes.

Assistir algumas técnicas do tipo elevam o status do lutador de ‘bom’ para ‘excelente’ e a variedade imensa de possibilidades ainda é explorada de forma restrita no MMA.

Assim, Pettis também usa muito o volume de socos como setups para forçar bloqueios e coberturas (com os dois antebraços na frente do rosto).

A intenção é tapear oponentes e assim colocar algum golpe de potência que possa surpreender.

Dedicação

tumblr_ngl37gvLww1u2ragso1_r1_500Rafael Dos Anjos tornou-se um striker de respeito após se tornar discípulo de Rafael Cordeiro, mentor da Kings MMA.

Cria dos tempos mais austeros da Chuteboxe, um dos destaques no trabalho do treinador tem sido transformar grapplers de origem em golpeadores de elite.

Dos Anjos, que começou a carreira no MMA como um purista no jiu-jitsu, é exemplo puro de dedicação ao trabalho.

Um funcionário-modelo da pancadaria, adepto da cartilha do mestre baseada no volume acentuado de golpes e pressão constante sobre adversários. Uma mistura densa da agressividade ‘old school’ com refinamentos do esporte moderno.

Aliás, a obediência tática do carioca de têm sido grande trunfo para atestar a boa regularidade atual.

Em duas das atuações mais sólidas da carreira, contra Donald Cerrone e Nate Diaz, Dos Anjos foi altamente meticuloso nesse sentido.

RDA-drops-CerroneO foco principal foi passar a primeira metade dos rounds destilando técnicas em pé para fechar as parciais cravando vantagens no solo, sobretudo por cima, de onde varia e estabiliza posições com ground and poundpesado.

Mesmo com técnicas menos extravagantes, Dos Anjos também mostra base sólida nos chutes como fonte ofensiva inicial.

Canhoto, inicia combos com fortes patadas médias de esquerda ou direita para forçar aberturas na guarda e seguir com sequências de socos.

Na seção ‘especiais’, chutes com saltos engatilhados com pedaladas (trocas de perna em pleno ar), com variações para frontais e joelhadas como a que demoliu Ben Henderson.

Contra Diaz, o brasileiro comprovou a solidez do jogo ao demostrar timing impecável e variação nos low kicks, promovendo a destruição gradativa das pernas do adversário.

Outro destaque que ganha espaço está no uso do punho da frente (da posição de luta), em forma de jabs, hooks (ganchos), que abrem espaço para golpes de potência, e geralmente são angulados por cima.

Conclusão

4492671_oCom tantas credenciais interessantes e treinadores de renome reunidos, fica difícil crer que não houve estudo profundo das minúcias adversárias.

Nos prós e contras, Pettis parece menos propenso à erros técnicos, mas Dos Anjos já mostrou que tem amadurecimento técnico e reflexos suficientes para capitalizar em cima de qualquer vacilo.

A exigência, mesmo que subjetiva, que o campeão carrega em ‘ser genial o tempo todo’ também pode ser um tiro no pé em algum momento (por assumir riscos às vezes desnecessários).

O brasileiro ainda carrega um cacoete perigoso em alguns momentos: o de recuar mais de dois passos em linha reta quando atacado com mais intensidade.

Isso pode ser fatal contra um kicker habilidoso quanto Pettis, que vem com alerta ligado o tempo todo para soltar instantaneamente alguma das muitas cartas na manga em ângulos e velocidade absurdas.

Fora a expectativa para um desafio de cerrar os dentes na vertical, o conjunto de habilidades nos outros setores nos dois lados também é extenso.

No solo, o norte-americano abusa da guarda ativa e saliva por finalizações. O brasileiro é um passador de guarda voraz e tem agregado ground and pound do grosso ao jogo no chão, por cima.

Em princípio, neutralizar parece o melhor negócio contra um dos strikers mais elusivos do esporte.

Mas não sei se o brasileiro vai apostar pesado nisso, já que deixa bem claro que os possíveishandicaps no grappling funcionam atualmente como um trunfo letal e colocado à prova nos momentos oportunos.

Como sempre, opiniões e análises de vocês aí embaixo, por favor!

[Leitura de luta] Holly Holm tem a kriptonita para Ronda Rousey?

Amigos, Ronda Rousey x Cat Zingano foi um main event de apenas 14 segundos.

Bombástico, com certeza, mas obviamente não fornece gordura suficiente para uma análise mais profunda aqui em nossa ‘seção dissecação’ semanal. Vamos então dar uma olhada mais espessa no co-main event, que trouxe a estreia da multicampeã mundial de boxe Holly Holm vencendo Raquel Pennington na decisão dividida.

Morno no geral, o desafio rendeu críticas à pugilista pelo fato de ter adotado estratégia mais calculista e transformar as chances de nocaute em secundárias. Foi mesmo tão ruim assim? Vejamos.

De longe

A grande sina do striker que não quer ser cravado ao solo está calcada em fundamentos como timing e isometria.

É complexo manter o equilíbrio corporal para executar golpes fortes sem abrir brechas que facilitem o trabalho de adversários que estão dispostos o tempo todo a desenhar clinches e quedas.

Em pé, golpear adequadamente é mais ou menos uma busca constante por ‘equilibrar desequilíbrios’.

Holm golpeando sem ter que ir pro infight

Mesmo técnicas mais lapidadas de socos, chutes, joelhadas e cotoveladas, executadas na distância certa, com puxadas rápidas após cada golpe e bom feeling para dinamizar a potência exigem deslocamentos do centro de gravidade e projeções de força constantes.

Com isso, mexem no centro de massa (ponto de equilíbrio) de um corpo.

Aulas de física – e outros blablablás chatos – à parte, para ser eficiente a coisa toda tem de começar com uma boa postura de luta. A adotada por Holly em sua carreira no MMA mostra a forte preocupação em evitar o grappling a qualquer custo.

Ela mantém o tronco inclinado para frente, as pernas mais arqueadas e o quadril puxado o tempo todo para trás, com intenção de antever botes no quadril ou pernas e agilizar os sprawls(defesas de queda nas quais se jogam  as duas pernas para trás simultaneamente) quando necessário.

usa-today-8413425.0Mas a postura mais arcada e tensa também pode prejudicar a fluidez de golpes característica de seu jogo.

Visivelmente confusa por encarar uma adversária canhota e tecnicamente tímida demais, a destra Raquel Pennington capitalizou pouco em cima disso.

Ela deslocava o pé da frente (da posição de luta) insistentemente para arrumar alguma forma confortável de disparar golpes.

Mas Holly sempre a deslocava diagonalmente e quase de forma espelhada ao movimento da adversária. É o que muitas escolas de striking chamam de ‘mata-ângulo’.

Os melhores momentos ofensivos de Pennington apareceram quando ela esquivou/bloqueou alguns jabs de Holly e aplicou diretos de direita em contragolpe, com auxílio de rápidos movimentos para a esquerda. Mas foram pouco contundentes.

Rápido e rasteiro

mma-ufc-184-pennington-vs-holm1Como a ordem tática principal para Holly era cadenciar, a fórmula para criar volume sem se expor demais foi circular até arrumar algum ângulo, e aí se mandar para cima com investidas curtas e sequências de três ou quatro socos retos, muitas vezes terminadas com um chute lateral com a perna da frente bem esticados (quase como o ‘coice’ à la Sanda), mais para garantir a manutenção da média para a longa distância.

As famosas pernadas circulares altas da loira, uma de suas armas diferenciais no MMA, também apareceram em alguns momentos, mas acompanharam a mesma diretriz da ‘mais dinâmica/menos potência’ do restante do jogo.

Após cada combo, a boxeadora ainda abaixava ligeiramente a guarda, esperando a queda. O cacoete fez com que bloqueasse as (poucas) investidas para clinches de Pennington, e o desafio se manteve a maior parte do tempo na vertical até o fim.

Conclusão

tumblr_mum3bnRobt1qaa8d1o2_250Foi a vitória mais espetacular do mundo? Longe disso. Mas em uma visão mais ampla, podemos dizer que foi satisfatória para uma estreia deste porte.

Na época de pugilismo, Holly não foi uma nocauteadora nata (tem 33 vitórias, e apenas nove pela via rápida). No MMA, a adição de chutes ao jogo aumentou a média de KO´s: está invicta há oito combates e nocauteou seis oponentes.

Cria de uma das escolas mais estratégicas dos esportes de combate, a Jackson/Winklejohn, claro que Holly ainda precisa ‘criar calo’ de UFC.

Holly_Holm_vs._Juliana_Werner_1Mas o mais importante, por ora: precisa de tempo hábil para concretar habilidades no wrestling e jiu-jitsu, e assim achar um senso comum para não sacrificar as habilidades mais naturais (de striking) pelo simples receio de ser levada ao solo.

Ainda mais quando a campeã da categoria detém, além da soberania monstruosa, um dos padrões de luta agarrada mais mortíferos do esporte.

Aliás, nem Holly, nem Bethe Correia, nem ninguém.

Não dá para visualizar alguém que tenha a kriptonita neessária para sufocar e superar as habilidades da detentora da cinta.

Cyborg? Talvez. Tenho lá minhas dúvidas também. Mas isso é uma outra história.

 

[Leitura de luta] Sem eira nem beira em Porto Alegre

O UFC Porto Alegre arrebentou negativamente a banca brasileira da vez. Fato. Morno no geral, pelo menos o primeiro evento na capital gaúcha teve momentos mais que surpreendentes.

Ao melhor estilo ‘Gigantes no Gigantinho’ (sacou?), Frank Mir e Antonio Pezão travarammain event curto e que trará mais lembranças indigestas para o brasileiro.

No coevento principal, Edson Barboza se mostrou pouco inspirado e acabou engolido taticamente por Michael Johnson. Pareceres técnicos dos dois desafios a seguir.

Papum

Frank Mir Destroys Antonio Silva UFC Fight Night 61Básico, manjado ou o que for. O jab/cruzado com o mesmo punho que garantiu o nocaute para Mir é clássico nas modalidades em pé, mas ainda pouco explorado no MMA.

Combos do tipo servem como variação para o jab/jab, ou seja, uma sequência usada para cavar espaço a algum golpe derradeiro, como um direto ou um chute com a perna de trás (da posição de luta), por exemplo.

Pezão desviou o jab de Mir com um pequeno tapa de direita (ou parry, em inglês), e se desguarneceu imediatamente para o golpe que veio em seguida.

Um detalhe técnico comum – mas imprescindível – tornou a manobra do norte-americano letal: a alavanca natural que criou pivoteando o pé da frente para ampliar a potência do cruzado, colocando dose de força extra provenientes da projeção do ombro e quadril no soco.

Pode-se dizer que a natureza da manobra é similar à mecânica ‘soco com passo angulado’ dos overhands.

Pressão e mais pressão

Johnson-EdsonEdson Barboza se moveu solto pelo octógono o tempo todo, mas não impôs jogo de volume e velocidade consistente, os trunfos que mais saltam aos olhos nas melhores atuações.

O desenho canhoto (Johnson) x destro (Barboza) foi suficiente para bagunçar o senso de golpes do carioca, sobretudo com os conhecidos low kicks, praticamente nulos durante toda luta.

Sem utilizar setups para preparar chutes ou socos, Barboza apostava quase exclusivamente em golpes isolados, tornando-se previsível com o passar do tempo.

No geral, tivemos um caso claro no qual o treinador holandês Henri Hooft e equipe estudaram pra valer as atuações passadas do brasileiro para encontrar brechas e espaços que pudessem ser explorados.

Michael Johnson pode ser nome distante em qualquer estatística sobre ‘o melhor boxe do MMA’, mas soube manter um padrão tático sólido de punhos durante 15 minutos para vencer, em pé, um striker mais completo e mais habilidoso.

Tudo na esquerda

michael-johnson-edson-barboza-mma-ufc-fight-night-barboza-vs-johnsonO sucesso do jogo começou com o trabalho de movimentação para fechar o cerco constantemente.

Quando estavam da longa para a média distância, cenário ideal onde o carioca costuma disparar as famosas marretadas em forma de chutes e socos, o norte-americano se arriscava com moderação.

No centro do octógono, colocava sequências curtas e mais dinâmicas, angulando imediatamente o pé da frente (direito) por fora do pé esquerdo de Barboza para criar espaço e forçar o brasileiro a escapar para a esquerda.

Johnson aplicou a maior parte das sequências de socos terminadas com um cruzadão de esquerda. Aí que esteve o grande trunfo técnico estudado por seu time.

Quando ‘cortava’ o octógono e encurralava o adversário, acertava diversas vezes Edson quando este saía lateralmente do raio de ação para a esquerda (ou seja, de encontro aos golpes), momento em que o carioca também tem o vício de abaixar ou relaxar mais a guarda.

[Leitura de luta] Dois pesos e a mesma medida para Bendo?

Dos duelos antológicos da família Gracie até o monstruosamente competitivo mundo do MMA moderno, medir forças com algum grandalhão sempre será considerado grande ode à inteligência técnica em qualquer reduto marcial.

Com 1,75cm, Ben Henderson estreou entre os meio-médios e teve de ser o ‘sr. estratégia’ dentro das oito paredes do octógono no main event do Fight Night 60.

Brandon Thatch (1,88cm e onze a mais de envergadura sobre o oponente) representou o novato durão e que poderia definir tudo em um piscar de olhos.

Fora da rotina dos leves e com duas derrotas seguidas carimbadas no cartel, Bendo teve peito de assumir um desafio de risco, e mostrou lampejos táticos bem maturados para alcançar a vitória por finalização no quarto assalto. Analisemos.

Parou, dançou

NaturalHappygoluckyEthiopianwolfExistem regras clássicas no striking quando você é o cara menor e tem de lidar com diferença significativa de envergadura/tamanho. A primeira é clichê: ser alvo estático é ‘morte’ certa, então mova-se o tempo todo.

Além disso, treine um ou dois golpes potentes para serem usados constantemente.

Inicialmente, potência vale mais que volume pela capacidade de incendiar o senso de confiança e agir como um tipo de equiparador no quesito ‘intimidação’, fatores sempre cruciais nos primeiros momentos.

Mesmo com tempo restrito de preparo, Henderson mostrou trabalho estratégico excelente. Circulou bastante, pendulou e movimentou cabeça e tronco o tempo com grande medida de segurança.

A grande percepção neste sentido foi esperar as constantes trocas de base de Thatch para girar para o lado correto (oposto ao lado forte).

Como base ofensiva, o cabeludo atirou diversos hooks (ganchos) pesados no plexo com a direita quando fechava o raio de ação, ora aplicados após setups com jabs, ora de forma direta e com grande projeção do corpo todo para potencializar o golpe.

Acuado contra as grades, disparava chutes frontais para bloquear investidas mais severas e escapar do infight.

De forma simples mas bem pensada, frustrava gradativamente o perigoso ímpeto inicial de Thatch.

Chumbo trocado

PolishedCreativeIberianbarbelOs melhores momentos de Brandon Thatch vieram quando este previu as investidas de Bendo e abalou com combos de golpes retos da média para a longa distância.

Ele também foi astuto em dois clinches e arremessou o adversário ao solo com rasteiras (ashi barai) típicas do caratê que deixariam Lyoto Machida orgulhoso.

Mas ao perder o ônus esperado de resolver pela via rápida nos primeiros dez minutos e desambientado a atuações mais extensas, começou a ser engolido.

Bendo, que até então deixava claro que a tônica de seu jogo estaria nas trocas curtas, esquivas e escapes rápidos laterais, habilmente confundiu a cabeça do oponente capitalizando vantagens para colocar a luta horizontal e definir.

Na primeira vez em que foi ao solo, Thatch deteu a vantagem posicional do oponente atado às costas ao segurar os pulsos e evitar o estrangulamento.

Na segunda (quarto round), Bendo forçou caminho até a meia-guarda e mais uma vez pegou as costas. Ambos ainda brigaram pela posição, mas o exaurido Thatch cedeu espaço e foi pego em um mata-leão.

Conclusão

Dois rounds a mais podem fazer muita diferença com o nível cada vez mais exigente de atleticismo exigido no esporte mais extremo do mundo.

Thatch é um cara talentoso e colocou Bendo em perigo em diversos momentos, mas faltou um jogo mais trabalhado e focado na contra-estratégia em longo prazo.

Bobeou, dançou.

O combate foi grande provação técnica e psicológica para o ex-campeão dos leves.

A categoria até 77kg é mais condizente com seu peso natural (por volta dos 82kg) do que a de 70, mas a diferença de estatura deve ser um problema a ser levado em conta com frequência.

De forma resumida, Bendo ajustou o jogo durante a ação e soube usar o que precisava para vencer.

Bagagem não lhe falta para isso. Ele sempre foi um cara tático e criticado diversas vezes nos leves por ‘cozinhar’ demais alguns combates.

Será que as coisas podem mudar de figura para o cabeludo se ele optar em permanecer entre os meio-médios? Será que um ambiente novo era o que ele precisava para revigorar a carreira?

Por enquanto boto fé, e vocês?

[Leitura de luta] Nova dinâmica para o velho Spider?

Não foi bem o show que os mais afoitos esperavam. Mas Anderson Silva finalmente retornou ao octógono e venceu Nick Diaz por decisão unânime no combate principal do UFC 183.

No auge da carreira, o Spider sempre se mostrou pouco à vontade com lutas que se prolongavam muito e bastante avesso a padrões estratégicos detalhados demais.

Pelas circunstâncias atuais (quase quarentão e vindo uma das lesões mais devastadoras da história do esporte), teve a capacidade de modificar pontos cruciais na espontaneidade de seu estilo e apresentou dinâmica renovada.

Espremendo causas e consequências, lá vai minha visão sobre o desafio.

Iniciativa frente ao volume

BeneficialDirtyAmoebaContragolpeador frio e milimétrico na maioria das atuações pelo UFC, Anderson mudou o instinto a tomou mais vezes a iniciativa contra Diaz.

Se houve algum cuidado estratégico desenvolvido para isso nos treinamentos, foi para evitar que o brasileiro acabasse engolido pelo conhecido volume de golpes do norte-americano.

Enxuto nas combinações, Anderson adotou a simplicidade como estrutura geral de luta. Também sobrou espaço para demonstrar elementos da versatilidade ímpar que o tornou famoso, mesmo sem ter as intenções letais comuns nas outras apresentações.

Sem lutar desde 2013, Nick Diaz bateu de frente com o brasileiro, mas visivelmente estava com o punch descalibrado.

Cheio de marra, muitos de seus golpes pareciam cutucões. Ele levou perigo mais real na curta distância, quando previa o primeiro ataque de Anderson e respondia com sequências iniciadas pelos hooks (ganchos no tronco), uma das marcas registradas mas frequentes.

Pra lá, pra cá

tumblr_nj3gupuqCk1u2ragso1_250O norte-americano mudou algumas vezes de base, mas o desenho canhoto x canhoto foi predominante nos cinco assaltos.

A movimentação circular livre e evasiva do brasileiro foi a usual para casos do tipo: ‘cortar’ o octógono para a esquerda constantemente para evitar ser pego por alguma surpresa disparada do lado forte adversário (o esquerdo).

Em boa parte das ações ofensivas, o Spider mudava a passada, deslizava e angulava rapidamente para a direita enquanto atacava. Auxiliado pela envergadura superior, jabear sistematicamente foi a medida de segurança mais frequente para Anderson garantir vantagens.

Toda a ciência estratégica e sagacidade que envolve o movimento mais básico do boxe – e que muitas vezes é renegado no MMA – novamente foi diferencial.

Os jabs abriam espaço para diretos (claro!), foram misturados com cruzados do mesmo punho e criavam fintas para cotoveladas, chutes e joelhadas. Mais plantado na lona, Diaz tomou o centro do octógono e usou o ‘padrão reto’ de costume: avançava para atacar, recuava para se defender.

tumblr_nj3gupuqCk1u2ragso3_250Assim, facilitou para os golpes provenientes das entradas e saídas em diagonal do brasileiro atingissem o alvo. E os chutes?

Claro que a cautela com a nova/velha canela era a grande expectativa da noite. Anderson disparou pelo menos três low kicks com a perna esquerda, além de pisões. Nesse sentido, foi interessante ver o trabalho mais apurado com a perna direita, que acertou em cheio as costelas de Diaz.

A maioria dos demais chutes foram precedidos de rápidos setups de um ou dois socos para confundir o senso de defesa do adversário e facilitara execução mais limpa.

Nesse sentido, o mais peculiar foi um combo cotovelada reversa (igual a que nocauteou Tony Fryklund no Cage Rage) seguido low kick, bem tirado da manga pelo Spider.

Conclusão

Disse no meu palpite antes da luta que o grande lance dessa empreitada seria perceber se Anderson ainda tinha condições de seguir competitivo.

Minha resposta é sim… mas colocaria ainda o adendo do ‘até certo ponto’. Para o brasileiro, o tom de provação pessoal era o que realmente importava contra Diaz.

O combate certamente não vai concorrer a qualquer prêmio de melhor do ano, mas recebe o carimbo de ‘grande’ por tudo que representava nas entrelinhas.

Tecnicamente, Diaz lutou dentro do esperado: plantado, provocativo, traiçoeiro em gestos e ações. Mas a falta de ritmo pesou. Anderson colocou pra jogo um estilo de paciência, acumulativo de vantagens, com pitadas aqui e ali de boxe olímpico e muay thai, sem se expor em demasia.

Faltou um nocaute clássico à la Spider. Sobrou sentimentalismo. Não achei que seria tão diferente disso. E vocês?