[Leitura de luta] Sem eira nem beira em Porto Alegre

O UFC Porto Alegre arrebentou negativamente a banca brasileira da vez. Fato. Morno no geral, pelo menos o primeiro evento na capital gaúcha teve momentos mais que surpreendentes.

Ao melhor estilo ‘Gigantes no Gigantinho’ (sacou?), Frank Mir e Antonio Pezão travarammain event curto e que trará mais lembranças indigestas para o brasileiro.

No coevento principal, Edson Barboza se mostrou pouco inspirado e acabou engolido taticamente por Michael Johnson. Pareceres técnicos dos dois desafios a seguir.

Papum

Frank Mir Destroys Antonio Silva UFC Fight Night 61Básico, manjado ou o que for. O jab/cruzado com o mesmo punho que garantiu o nocaute para Mir é clássico nas modalidades em pé, mas ainda pouco explorado no MMA.

Combos do tipo servem como variação para o jab/jab, ou seja, uma sequência usada para cavar espaço a algum golpe derradeiro, como um direto ou um chute com a perna de trás (da posição de luta), por exemplo.

Pezão desviou o jab de Mir com um pequeno tapa de direita (ou parry, em inglês), e se desguarneceu imediatamente para o golpe que veio em seguida.

Um detalhe técnico comum – mas imprescindível – tornou a manobra do norte-americano letal: a alavanca natural que criou pivoteando o pé da frente para ampliar a potência do cruzado, colocando dose de força extra provenientes da projeção do ombro e quadril no soco.

Pode-se dizer que a natureza da manobra é similar à mecânica ‘soco com passo angulado’ dos overhands.

Pressão e mais pressão

Johnson-EdsonEdson Barboza se moveu solto pelo octógono o tempo todo, mas não impôs jogo de volume e velocidade consistente, os trunfos que mais saltam aos olhos nas melhores atuações.

O desenho canhoto (Johnson) x destro (Barboza) foi suficiente para bagunçar o senso de golpes do carioca, sobretudo com os conhecidos low kicks, praticamente nulos durante toda luta.

Sem utilizar setups para preparar chutes ou socos, Barboza apostava quase exclusivamente em golpes isolados, tornando-se previsível com o passar do tempo.

No geral, tivemos um caso claro no qual o treinador holandês Henri Hooft e equipe estudaram pra valer as atuações passadas do brasileiro para encontrar brechas e espaços que pudessem ser explorados.

Michael Johnson pode ser nome distante em qualquer estatística sobre ‘o melhor boxe do MMA’, mas soube manter um padrão tático sólido de punhos durante 15 minutos para vencer, em pé, um striker mais completo e mais habilidoso.

Tudo na esquerda

michael-johnson-edson-barboza-mma-ufc-fight-night-barboza-vs-johnsonO sucesso do jogo começou com o trabalho de movimentação para fechar o cerco constantemente.

Quando estavam da longa para a média distância, cenário ideal onde o carioca costuma disparar as famosas marretadas em forma de chutes e socos, o norte-americano se arriscava com moderação.

No centro do octógono, colocava sequências curtas e mais dinâmicas, angulando imediatamente o pé da frente (direito) por fora do pé esquerdo de Barboza para criar espaço e forçar o brasileiro a escapar para a esquerda.

Johnson aplicou a maior parte das sequências de socos terminadas com um cruzadão de esquerda. Aí que esteve o grande trunfo técnico estudado por seu time.

Quando ‘cortava’ o octógono e encurralava o adversário, acertava diversas vezes Edson quando este saía lateralmente do raio de ação para a esquerda (ou seja, de encontro aos golpes), momento em que o carioca também tem o vício de abaixar ou relaxar mais a guarda.

[Leitura de luta] Dois pesos e a mesma medida para Bendo?

Dos duelos antológicos da família Gracie até o monstruosamente competitivo mundo do MMA moderno, medir forças com algum grandalhão sempre será considerado grande ode à inteligência técnica em qualquer reduto marcial.

Com 1,75cm, Ben Henderson estreou entre os meio-médios e teve de ser o ‘sr. estratégia’ dentro das oito paredes do octógono no main event do Fight Night 60.

Brandon Thatch (1,88cm e onze a mais de envergadura sobre o oponente) representou o novato durão e que poderia definir tudo em um piscar de olhos.

Fora da rotina dos leves e com duas derrotas seguidas carimbadas no cartel, Bendo teve peito de assumir um desafio de risco, e mostrou lampejos táticos bem maturados para alcançar a vitória por finalização no quarto assalto. Analisemos.

Parou, dançou

NaturalHappygoluckyEthiopianwolfExistem regras clássicas no striking quando você é o cara menor e tem de lidar com diferença significativa de envergadura/tamanho. A primeira é clichê: ser alvo estático é ‘morte’ certa, então mova-se o tempo todo.

Além disso, treine um ou dois golpes potentes para serem usados constantemente.

Inicialmente, potência vale mais que volume pela capacidade de incendiar o senso de confiança e agir como um tipo de equiparador no quesito ‘intimidação’, fatores sempre cruciais nos primeiros momentos.

Mesmo com tempo restrito de preparo, Henderson mostrou trabalho estratégico excelente. Circulou bastante, pendulou e movimentou cabeça e tronco o tempo com grande medida de segurança.

A grande percepção neste sentido foi esperar as constantes trocas de base de Thatch para girar para o lado correto (oposto ao lado forte).

Como base ofensiva, o cabeludo atirou diversos hooks (ganchos) pesados no plexo com a direita quando fechava o raio de ação, ora aplicados após setups com jabs, ora de forma direta e com grande projeção do corpo todo para potencializar o golpe.

Acuado contra as grades, disparava chutes frontais para bloquear investidas mais severas e escapar do infight.

De forma simples mas bem pensada, frustrava gradativamente o perigoso ímpeto inicial de Thatch.

Chumbo trocado

PolishedCreativeIberianbarbelOs melhores momentos de Brandon Thatch vieram quando este previu as investidas de Bendo e abalou com combos de golpes retos da média para a longa distância.

Ele também foi astuto em dois clinches e arremessou o adversário ao solo com rasteiras (ashi barai) típicas do caratê que deixariam Lyoto Machida orgulhoso.

Mas ao perder o ônus esperado de resolver pela via rápida nos primeiros dez minutos e desambientado a atuações mais extensas, começou a ser engolido.

Bendo, que até então deixava claro que a tônica de seu jogo estaria nas trocas curtas, esquivas e escapes rápidos laterais, habilmente confundiu a cabeça do oponente capitalizando vantagens para colocar a luta horizontal e definir.

Na primeira vez em que foi ao solo, Thatch deteu a vantagem posicional do oponente atado às costas ao segurar os pulsos e evitar o estrangulamento.

Na segunda (quarto round), Bendo forçou caminho até a meia-guarda e mais uma vez pegou as costas. Ambos ainda brigaram pela posição, mas o exaurido Thatch cedeu espaço e foi pego em um mata-leão.

Conclusão

Dois rounds a mais podem fazer muita diferença com o nível cada vez mais exigente de atleticismo exigido no esporte mais extremo do mundo.

Thatch é um cara talentoso e colocou Bendo em perigo em diversos momentos, mas faltou um jogo mais trabalhado e focado na contra-estratégia em longo prazo.

Bobeou, dançou.

O combate foi grande provação técnica e psicológica para o ex-campeão dos leves.

A categoria até 77kg é mais condizente com seu peso natural (por volta dos 82kg) do que a de 70, mas a diferença de estatura deve ser um problema a ser levado em conta com frequência.

De forma resumida, Bendo ajustou o jogo durante a ação e soube usar o que precisava para vencer.

Bagagem não lhe falta para isso. Ele sempre foi um cara tático e criticado diversas vezes nos leves por ‘cozinhar’ demais alguns combates.

Será que as coisas podem mudar de figura para o cabeludo se ele optar em permanecer entre os meio-médios? Será que um ambiente novo era o que ele precisava para revigorar a carreira?

Por enquanto boto fé, e vocês?

[Leitura de luta] Nova dinâmica para o velho Spider?

Não foi bem o show que os mais afoitos esperavam. Mas Anderson Silva finalmente retornou ao octógono e venceu Nick Diaz por decisão unânime no combate principal do UFC 183.

No auge da carreira, o Spider sempre se mostrou pouco à vontade com lutas que se prolongavam muito e bastante avesso a padrões estratégicos detalhados demais.

Pelas circunstâncias atuais (quase quarentão e vindo uma das lesões mais devastadoras da história do esporte), teve a capacidade de modificar pontos cruciais na espontaneidade de seu estilo e apresentou dinâmica renovada.

Espremendo causas e consequências, lá vai minha visão sobre o desafio.

Iniciativa frente ao volume

BeneficialDirtyAmoebaContragolpeador frio e milimétrico na maioria das atuações pelo UFC, Anderson mudou o instinto a tomou mais vezes a iniciativa contra Diaz.

Se houve algum cuidado estratégico desenvolvido para isso nos treinamentos, foi para evitar que o brasileiro acabasse engolido pelo conhecido volume de golpes do norte-americano.

Enxuto nas combinações, Anderson adotou a simplicidade como estrutura geral de luta. Também sobrou espaço para demonstrar elementos da versatilidade ímpar que o tornou famoso, mesmo sem ter as intenções letais comuns nas outras apresentações.

Sem lutar desde 2013, Nick Diaz bateu de frente com o brasileiro, mas visivelmente estava com o punch descalibrado.

Cheio de marra, muitos de seus golpes pareciam cutucões. Ele levou perigo mais real na curta distância, quando previa o primeiro ataque de Anderson e respondia com sequências iniciadas pelos hooks (ganchos no tronco), uma das marcas registradas mas frequentes.

Pra lá, pra cá

tumblr_nj3gupuqCk1u2ragso1_250O norte-americano mudou algumas vezes de base, mas o desenho canhoto x canhoto foi predominante nos cinco assaltos.

A movimentação circular livre e evasiva do brasileiro foi a usual para casos do tipo: ‘cortar’ o octógono para a esquerda constantemente para evitar ser pego por alguma surpresa disparada do lado forte adversário (o esquerdo).

Em boa parte das ações ofensivas, o Spider mudava a passada, deslizava e angulava rapidamente para a direita enquanto atacava. Auxiliado pela envergadura superior, jabear sistematicamente foi a medida de segurança mais frequente para Anderson garantir vantagens.

Toda a ciência estratégica e sagacidade que envolve o movimento mais básico do boxe – e que muitas vezes é renegado no MMA – novamente foi diferencial.

Os jabs abriam espaço para diretos (claro!), foram misturados com cruzados do mesmo punho e criavam fintas para cotoveladas, chutes e joelhadas. Mais plantado na lona, Diaz tomou o centro do octógono e usou o ‘padrão reto’ de costume: avançava para atacar, recuava para se defender.

tumblr_nj3gupuqCk1u2ragso3_250Assim, facilitou para os golpes provenientes das entradas e saídas em diagonal do brasileiro atingissem o alvo. E os chutes?

Claro que a cautela com a nova/velha canela era a grande expectativa da noite. Anderson disparou pelo menos três low kicks com a perna esquerda, além de pisões. Nesse sentido, foi interessante ver o trabalho mais apurado com a perna direita, que acertou em cheio as costelas de Diaz.

A maioria dos demais chutes foram precedidos de rápidos setups de um ou dois socos para confundir o senso de defesa do adversário e facilitara execução mais limpa.

Nesse sentido, o mais peculiar foi um combo cotovelada reversa (igual a que nocauteou Tony Fryklund no Cage Rage) seguido low kick, bem tirado da manga pelo Spider.

Conclusão

Disse no meu palpite antes da luta que o grande lance dessa empreitada seria perceber se Anderson ainda tinha condições de seguir competitivo.

Minha resposta é sim… mas colocaria ainda o adendo do ‘até certo ponto’. Para o brasileiro, o tom de provação pessoal era o que realmente importava contra Diaz.

O combate certamente não vai concorrer a qualquer prêmio de melhor do ano, mas recebe o carimbo de ‘grande’ por tudo que representava nas entrelinhas.

Tecnicamente, Diaz lutou dentro do esperado: plantado, provocativo, traiçoeiro em gestos e ações. Mas a falta de ritmo pesou. Anderson colocou pra jogo um estilo de paciência, acumulativo de vantagens, com pitadas aqui e ali de boxe olímpico e muay thai, sem se expor em demasia.

Faltou um nocaute clássico à la Spider. Sobrou sentimentalismo. Não achei que seria tão diferente disso. E vocês?

[Leitura de luta] Rumble e o poder do ‘supetão’

Por mais que o favoritismo pendesse contra, o poder de punch de Anthony Johnson era a pulga atrás da orelha de muita gente no combate contra Alexander Gustafsson, no UFC Estocolmo.

E quem achou que seria mais propenso o grandalhão sueco embrulhar tecnicamente o norte-americano (como era minha aposta) se deu mal, muito mal.

Readaptado ao Ultimate como meio-pesado, Johnson tem lapidado habilidades com o treinador Henri Hooft, mestre no estilo holandês de kickboxing, um conceito dentro do conceito baseado em fintas e rápidas combinações de mãos e pés.

Claro que todo treino faz efeito de alguma forma, mas o nocaute na Suécia foi calcado nos mais primais instinto de luta. Puro cheiro de carniça.

De repente

Anthony Johnson Knocks Down Alexander Gustafsson UFC on Fox 14 StockholmSempre que existe um encontro clássico técnica x força, os representantes do primeiro quesito têm de redobrar cuidados com um dos aspectos mais traiçoeiros nos esportes de luta: o tal do ímpeto.

Entrar em marcha lenta ou com intenção de ‘se aquecer’ mais durante os primeiros instantes é uma faca de dois gumes quando se tem pela frente um atleta de carga bruta como Jonhson.

Pense rápido em alguns lutadores que estão na ativa que se destacam pela movimentação apurada. Lyoto Machida, Conor McGregor e o próprio Alexander Gustafsson.

Todos são experts em deslocar-se lateralmente, seja para escapar de enrascadas ou desenhar ângulos de ataques e contra-ataques. Para que tudo isso funcione, porém, é preciso usar boas doses de paciência dentro do turbilhão psicológico que envolve uma luta.

Na prática, Gustafsson começou o combate dentro do script esperado: angulando e disparando jabs. Mas curiosamente o sueco – conhecido por ser um atleta metódico – estava afoito demais, e acabou rapidamente destruído por técnicas rudimentares de Johnson.

Muitos fatores podem ter colaborado para isso. Talvez a responsabilidade excessiva em ser a estrela principal de um megaevento, ou mesmo a imposição da popularidade o desconcentrou.

Gustafsson estava passional demais. Tanto que caiu no choro ainda no octógono.

Lampejos

NearPlasticAiredaleO cacoete técnico mais frequente do norte-americano são os chutes altos com a perna esquerda, a da frente (da posição de luta).

Ele os usa como a maneira mais direta para fazer o oponente movimentar a guarda (para se defender).

Em seguida, dispara uma avalanche de socos. Certamente é a herança mais explícita da época em que praticava o sanda (boxe chinês).

Contra um adversário que obviamente buscaria circular o tempo todo, o norte-americano teve grande tato para aproveitar os momentos que definiram a fatura.

Após receber um chute frontal alto, Johnson se projetou à frente com um overhand e ainda atingiu o sueco com uma cabeçada (não intencional). Logo em seguida, veio um monólogo de pancadas:

1 – Jonhson avança e solta um chute de esquerda alto, interrompendo a ida de Gustafsson para a direita.
2 – O golpe explode na guarda. O sueco então muda a direção e vai para a esquerda, onde começa a ser atingido por socos.
3 – O norte-americano segue o castigo brutal, usando a mão esquerda para controlar os pêndulos desesperados do adversário e guiar os golpes de direita, em um festival de overhands e uppercuts consecutivos.

Conclusão

Para desgosto de muitos, há momentos em que a força também vence a técnica.

Se pensarmos sobre fundamentos clássicos da arte do striking, a maçaroca de golpes que Anthony Johnson desferiu para alcançar a vitória foi feia e repleta de erros crassos.

Mas como falamos de MMA e todo rol de adaptações necessárias em todos os aspectos do combate, qualquer visão mais purista pode parecer indevida. Vale o resultado, claro.

Gustafsson é um lutador inteligente e provavelmente se recuperará da derrota.

Johnson agora encara um Jon Jones pós-polêmica, mas que dentro do octógono tem exigido dos adversários bem mais que ímpeto e vontade.

Como vocês vislumbrariam o desfecho desta empreitada?

[Leitura de luta] A dinâmica maliciosa do bobo da corte

Lá vou eu escrever novamente sobre Conor McGregor, o cara mais hypado do momento noUFC. O polêmico ‘bobo da corte’ dos penas venceu Dennis Siver em Boston, e até agora traduziu em pancada tudo que prometeu com palavra.

Em breve, dará o passo mais importante da carreira: tentará destronar José Aldo, um dos campeões mais dominantes da história da organização. Mesmo com a luta abreviada no segundo assalto pelo nocaute técnico, o irlandês mostrou amadurecimento e grande senso de distância, itens fundamentais para garantir o braço levantado em pouco mais de sete minutos em ação.

Ao ponto

PartialEnergeticCrustaceanTodo lutador dinâmico de alto nível sabe bem como lidar com adversários sem tanta mobilidade e que apostam basicamente na força bruta para se impor tecnicamente.

Siver é corajoso e tem virtudes interessantes, mas suas habilidades são mais limitadas e o estilo ‘robozinho’ o coloca à mercê das armadilhas da previsibilidade, pontos explorados com sucesso pelo oponente.

Canhoto, o jogo de pernas do irlandês novamente foi diferencial para criar ‘gordura’ ofensiva contra um destro.

Com a postura de luta ‘carateca/esgrimista’ peculiar, ele encurralou gradativamente o alemão no octógono e aguardou os momentos em que este tentava sair do raio de ação circulando para a esquerda – manobra evasiva mais básica esperada de um destro neste caso -, para atacar pesado em linha reta, direto ao ponto.

Conor McGregor Knockdowns Dennis Siver UFC Fight Night 59 BostonMcGregor confundia o ângulo de escape com chutes, ou marcava com jabs ou cruzados de direita, para em seguida disparar diretos de esquerda – o golpe de carga mais frequente -, com Siver ainda em pleno movimento e mais suscetível de ser atingido.

Após aplicar um ou dois golpes certeiros, McGregor recuava por um momento como medida de segurança, e imediatamente cortava a distância se projetando com um uppercut ou outro soco de direita, marca registrada dinâmica.

Acuado, Siver conseguiu alguns lampejos de reação até a metade do primeiro assalto.

Com envergadura menor, o alemão precisava do infight para fazer valer seu jogo de potência e disparar combinações pesadas, mas o irlandês o brecava sempre na média para a longa distância, evitando os momentos golpe a golpe mais severos.

Em pouco tempo, o alemão limitava-se a ficar com as costas contra as grades e o rosto coberto com as luvas, engolindo golpes e procurando aberturas para contragolpear com cruzados de esquerda seguidos de chutes, sem tanto sucesso.

Show e efetividade

WildIckyAmericanratsnakeEm poucos minutos, McGregor exibiu um conjunto extenso de golpes de efeito. Giratórios, chutes em todas as alturas, joelhadas com salto.

Sua postura com as pernas mais afastadas e flexionadas e seu caminhar solto facilita a aplicação de técnicas do tipo sem telegrafar demais cada movimento.

O irlandês usou e usou e abusou dos recursos, muitas vezes em momentos em que seria mais viável usar algum ataque mais simples.

Técnicas do tipo impressionam e têm de ser usadas com bom senso, pelo grau mais elevado de desgaste (e exposição) para serem executadas.

Seus chutes seguem estilosos, bem mais ao estilo caratê tradicional/taekowndo, com puxadas rápidas e ‘chicotadas’ com os pés, do que propriamente as pedradas do kickboxing/muay thai.

Mesmo nos golpes mais complicados, o irlandês volta não perde o equilíbrio e imediatamente retorna à posição de luta sem problemas, o que é mais comum entre os artistas marciais mais tradicionais.

Conclusão

Ao que tudo indica, Aldo x McGregor será mesmo um divisor de águas para as divisões mais leves do UFC. Guerra intensa de bastidores e um clássico ‘pegador x estilista’ inundarão a mente dos mais fanáticos.

Ainda é cedo para pensar em algum desenho mais apurado do desafio, mas dá para ter os primeiros flashes.

A postura aberta do irlandês pode ser um prato cheio para os low kicks demolidores do brasileiro, mas é preciso saber como Aldo vai lidar com os ângulos do canhoto McGregor para aplicar essas técnicas corretamente.

O queixo ainda alto demais do europeu também tem de ser levado em conta como alvo perfeito para o boxe na curta distância do manauara, que também mostrou algumas defasagens defensivas no último combate contra Chad Mendes, sobretudo nos uppercuts.

É, acho que vai pegar fogo. O que vocês acham?

[Leitura de luta] Conor McGregor é tudo isso mesmo?

Claro que o título deste artigo é sugestivo e vai despertar discussões. Conor McGregor é o marqueteiro da vez no mundo do UFC e sabe muito bem como bagunçar a cabeça dos fãs por mexer e remexer a linha peculiar entre a promessa e prática.

Bairrista, falastrão e repleto de marcas registradas, o irlandês é o típico cara que muitos amam odiar… e a maioria quer ver perder. Como aqui o que vale são técnicas e táticas, vou gastar o português nas próximas linhas com a especialidade da casa, o striking, para analisar as principais habilidades do europeu.

Suave

O estilo híbrido do irlandês é uma mescla interessante de artes marciais clássicas com boxe basicão e de forte apelo nos contra-ataques.

Para atiçar adversários, McGregor muitas vezes emula o tradicional ‘Fighting Irish’, uma postura de boxe das antigas, com o tronco inclinado para trás e os punhos com os nós dos dedos voltados para frente.

A pose vintage no estilo valentão faz contraponto interessante com o jeitão moderno que o lutador desenvolve.

Canhoto, a postura de McGregor com as pernas abertas e mais flexionadas semelhante à dos estilos tradicionais de caratê lhe proporciona um quê acentuado de esgrimista.

Manter o centro de gravidade baixo é uma tendência para deter investidas de quedas, otimizar as trocas de níveis (alturas) e variar ataques. Além disso, otimiza a potência dos golpes retos, como diretos e chutes frontais, sempre presentes na caixa de ferramentas do irlandês.

4_mediumDetalhes na movimentação também são pontos-chave, e todos buscam a filosofia do ‘atingir sem ser atingido’.

Destros geralmente se preparam para enfrentar canhotos tendo em mente que estes tentarão escapar o tempo todo dos golpes de podem vir do lado forte (o direito). É a mêcanica mais natural.

McGregor não busca circular apenas para se esquivar dos golpes mais fortes. Ele geralmente usa os dois lados, e eventualmente recua, atiçando e indo de encontro também à direita, para condicionar oponentes a soltar algum direto ou cruzado, e assim capitalizar contragolpes em cima disso.

São técnicas evasivas muito semelhantes às usadas por Lyoto Machida.

BBBO irlandês tira proveito constante do ‘mão com mão’ para controlar a distância e confundir ações.

Neste tipo de técnica, aproveita-se o choque constante dos punhos da mão da frente (da postura de luta) para fechar ângulos , desestabilizar a mão da guarda e deslizar algum soco.

Há ainda outra técnica que aproveita deslocamentos seguidos de projeção do corpo, como se fosse uma ‘mola’. McGregor corta a distância pendulando e se lança em direção ao adversário, angulando para a direita.

Ele então se lança ao ataque com um uppercut com a mão da frente (direita), por baixo do braço da frente do adversário.

Com isso, cria um fator-surpresa para completar o combo com algum soco de esquerda.

Pernadas

mcgregorfrontkickComo dito acima, os chutes frontais e laterais são parte integrante do arsenal do irlandês, que valoriza muito o aspecto defensivo/ofensivo de golpes do tipo, seja para bloquear investidas ou atacar pra valer a cabeça, tronco e pernas.

Seu estilo de chutar é baseado na velocidade ao melhor estilo ‘chicotada’, puxando rapidamente a perna após os golpes. Por isso o trabalho com a penra da frente (da postura de luta) é constante.

Outro golpe frequente tem sido o chute gancho (ura-mawashi, no caratê). Aplicado com o calcanhar ou sola do pé, é muito usado no taekwondo e nas modalidades de marcação de pontos (semi-contato).

McGregor também se diz praticante de capoeira e já arriscou diversos tipos de chutes reversos.

Conclusão

McGregor potencializa golpes com palavras, mas vai além disso. É uma mescla de dinâmica, técnica e malícia em pura expansão. Sabe muito bem como se impor como personagem contundente – e sempre necessário- nos esportes de luta. Reforça, assim, o paredão psicológico cada vez mais importante na alta performance.

Como todo contragolpeador nato, tem instinto aguçado para prever e antecipar ações. Mas ainda precisa passar sufoco mais brabo no octógono para mostrar como desenvolve as virtudes sob adversidades. Será que Denis Siver, adversário do UFC Fight Night 49 do próximo domingo, é o cara ideal para peitar tanta confiança neste fim de semana?

Tenho lá minhas dúvidas. E vocês?

[Leitura de luta] Jones e a neutralização de Cormier

A atração principal do UFC 182 foi tensa e intensa. Daniel Cormier incorporou pra valer a alcunha de ‘Black Fedor’ e entregou o que havia prometido para Jon Jones: um combate rústico, passional e competitivo.

Mais instintivo do que técnico em termos gerais, o desafio foi um festival de ‘lá e cá’ no qual alguns detalhes fizeram a diferença para que o campeão meio-pesado faturasse mais uma vitória e mantivesse a condição de lutador mais mortífero do MMA. Vamos lá:

Níveis

Jon Jones Trip Take Downs Daniel Cormier UFC 182Se muitos (inclusive eu) esperavam o desafiante mais calculista, destilando um conjunto apurado de fintas/golpes/movimentação lateral para furar o alcance do campeão e confundi-lo momentanemente com entradas e saídas do raio de ação e – quando possível apostasse nas quedas -, Cormier deixou fintas e dinâmica em segundo plano para se mandar ao ataque quase sempre diretamente.

Tornou-se mais previsível, mas não menos perigoso, sobretudo nos três primeiros assaltos. A ambidestria de Jones mais uma vez foi marcante.

Ele adotou basicamente a postura de canhoto no ataque, mudando esporadicamente para destro quando percebia alguma iniciativa do oponente.

Pelo tipo de complexão física e origem no wrestling, Cormier é um lutador de gravidade baixa e que se torna perigoso em trocas mais francas quando usa cruzados, uppercuts e joelhadas para desenhar clinches.

Jones foi astuto ao variar diversas vezes de nível, ou seja, mudar a altura da postura de luta para desenhar fintas.

É preciso sempre boas doses de expressão corporal e malícia para induzir o adversário ao erro desta forma.

Três técnicas do campeão foram marcantes (devidamente potencializadas pela ambidestria descrita acima).

1 – A clássica: Jones abaixou e tocou uma das pernas do adversário para em seguida aplicar algum golpe no rosto (quase todas as cotoveladas giratórias do campeão são aplicadas a partir desta manobra).

2 – Levantou rapidamente o olhar como se esboçasse um golpe alto, mas acertou diretamente o corpo com socos ou chutes. Foram mais de 20 pauladas do tipo no tronco de Cormier.

3 – Moveu rapidamente o pescoço para o lado como se fosse aplicar algum golpe giratório, mas aplicava um direto ou chute.

Pulso firme

GenerousInexperiencedGallowaycowEra esperado que Jones cadenciasse mais o combate como de costume, com chutes variados, o campeão meio-pesado demonstrou mais uma faceta de sua fusão de habilidades.

Saiu de qualquer provável zona de conforto e peitou o trabalho pesado de Cormier no infight.

‘Encurtar’ se tornou palavra de ordem tática no combate. Com tanta vontade mútua em golpes e pegadas, alguns detalhes fizeram a diferença para que Jones exercesse domínio e garantisse vantagens importantes.

Uma das técnicas mais frequentes no grappling do campeão tem sido o controle de pulso.

Clinchado e com o adversário contra as grades, Jones enlaça um dos braços na altura do tríceps e agarra o outro pelo pulso, mantendo-o para baixo ou cruzado sobre o abdômen, enquanto se debruça sobre o oponente para deslizar alguma cotovelada, joelhada ou mesmo (as famigeradas) ombradas.

Obviamente, este tipo de artifício visa criar um clinch ativo e aproveitar a envergadura avantajada do campeão, além de desfocar o senso de isometria adversário, que tem de manter a postura ereta e quase na ponta dos pés para se manter estável e não ser ‘embrulhado’.

O desgaste acaba dobrado e Daniel Cormier, já exaurido nos dois últimos assaltos, acabou passivo demais e teve de se conformar com um sonoro atraso.

Conclusão

Jones domina cada vez mais os fatores que compõem grandes segredos do sucesso no MMA moderno, como ambidestria, transições e diversas marcas registradas.

O combate contra Cormier não foi um primor técnico, mas o campeão moldou-se ao oponente com muita competência para faturar uma vitória madura.

Como gosta de comentar o camarada Alexandre Matos, Jon Jones vence explorando pontos fortes alheios.

Quem mais consegue?