[Leitura de luta] O caratê está de volta com o Wonderboy!

Stephen Thompson mais uma vez encheu de orgulho os strikers tradicionais com a vitória por nocaute sobre o ex-campeão meio-médio Johny Hendricks, no evento principal do UFC Fight Night 82, em Las Vegas. O Wonderboy quebrou o favoritismo do adversário despejando marcas registradas do estilo peculiar e deu o passo mais importante rumo às cabeças da divisão.

Captura de Tela 2016-02-08 às 12.57.11Faixa-preta 5º dan em tetsushin ryu kempo e cobra-criada nas competições de caratê/kickboxing de full e semi-contact, a atual jornada de Thompson no Ultimate conta com o ‘quê’ de provação constante e traduzida na capacidade de desbancar oponentes cascudos com padrão de luta ‘exótico’ aos menos iniciados.

Obviamente, o fato lembra a saga e o ápice de Lyoto Machida, o carateca mais famoso da história do MMA.

Se as comparações parecem inevitáveis, na prática há diferenças técnicas entre as adaptações do estilo tradicional de caratê do Dragão e o desenvolvido por Thompson. Mas isso pode ser assunto para outro papo. Por ora, o foco será a atuação bombástica da vez. Vamos nessa.

Enfático

No material promocional da luta, Hendricks disse que sabia todos os caminhos para evitar os chutes e o senso apurado de distância do adversário.

Ele poderia recuar meio passo e se desvencilhar, ou rapidamente encurtar para alcançar o infighte fazer valer a potência característica dos socos e o jogo de abafa.

O barbudo teve relativo sucesso em clinchar e neutralizar contra as grades nos primeiros momentos. Mas quando você é o cara menor em questão e tem pela frente um atleta longilíneo e pouco ortodoxo, essas entradas no raio de ação exigem cuidados dobrados, criados a partir desetups (fintas), pêndulos e corte de ângulos.

PD_GOKA falta de recursos de Hendricks nesse sentido foi gritante. O ex-campeão limitava-se a avançar de forma atabalhoada, abaixando a cabeça e tentando tocar o oponente de qualquer forma.

Bastou o Wonderboy acertar o primeiro chute alto – com a perna da frente da postura de luta e sem o step (passo), outra peculiaridade do caratê – para o Big Riggentrar em ‘velocidade de cruzeiro’.

A postura com as pernas bem abertas, o tronco colocado lateralmente e as mãos baixas de Thompson funcionam como ímãs para aguçar os oponentes a partirem para cima e caírem em armadilhas.

Como o striking de Hendricks é menos dinâmico e focado na força bruta, desta vez a falta de recursos de passadas e ajustes na distância obrigou a colocar peso corporal em excesso nos golpes fora da postura adequada, descalibrando socos e chutes.

Perito na arte de golpear ou contragolpear enquanto recua, Wonderboy foi metódico ao usar as duas opções clássicas de seu estilo para frustrar o adversário.

ezgif-20639347831- Recuou junto aos avanços/golpes do adversário. Quando este passavam no vazio, trocou de base e aplicou o contragolpe ao mesmo tempo, com a postura angulada diagonalmente ao adversário.
2 – Previu o ataque e recuou o suficiente para escapar da investida, projetando-se de imediato com combos de socos retos simultâneos à passadas (trocas de base), com objetivo de ancorar os golpes e confundir o senso de reflexo/defesa contrário.

*Em ambos os casos, se o adversário afastar demais, Thompson fecha a sequência com algum chute alto ou giratório.

No começo do lance derradeiro, Thompson acertou dois fortes socos de direita em contra-ataques.

Hendricks acusou e o castigo seguiu com um chute giratório no peito e mais socos contra as grades que obrigaram o árbitro interromper o combate aos 1m27s.

Conclusão: caratê é engraçado.

Mais

Captura de Tela 2016-02-08 às 13.10.24Por falar nisso, Justin Scoggins foi outro adepto da arte das mãos vazias que fez bonito no octógono. O peso-mosca proporcionou um passeio de agressividade e imposição de ritmo contra o ranqueado Ray Borg.

Este fez frente no primeiro assalto, mas parou de ver a cor da bola conforme o tempo passava.

Oriundo do kempo, Scoggins demonstrou transições seguras, com ótimos combos e muitos chutes de habilidade.

Destaque para os circulares altos misturados com giratórios com a mesma perna. Técnicas do tipo são efetivas quando o adversário está encurralado e visa acertar de encontro as tentativas de escapar após primeiro golpe acertar.

Viva, Chile!

3Id7euDiego Rivas merece o ‘vale GIF’ desta edição. Cravado ao solo e sem muito cacoete para inverter posições ou sair de baixo no primeiro assalto, o chileno – que treina há algum tempo na Kings MMA – levou tremendo atraso do israelense Noad Lahat.

Na segunda parcial, abusou da ousadia e disparou uma joelhada voadora fatal no queixo do adversário, faturando o bônus por melhor KO da noite.

E se credenciando automaticamente a um dos nocautes mais fantásticos do ano.

[Leitura de luta] Ryan ‘Quase’ Bader ataca novamente

O UFC on Fox 18 trouxe combates decentes, boas surpresas e fez valer as expectativas de um card coeso. Na disputa principal, Ryan Bader foi acometido por mais um ‘branco técnico’ que vira e mexe o assombra, e novamente na pior hora possível: contra Anthony Johnson e na aba da possibilidade de disputar o título dos meio-pesados em caso de vitória.

Entre os destaques, tivemos também um dinâmico Tarec Saffiedine retornando ao octógono após longo hiato e a primeira derrota de Sage Northcutt. Olho vivo nas análises a seguir.

Precipitação

FixedNiceKangarooUm combate de 25 minutos contra um dos caras mais conhecidos da categoria por causa do poder de nocaute e ímpeto monstruosos nos primeiros minutos.

Você não precisa ser mestre ou grande treinador para entender que partir para cima logo no começo seria a mesma coisa que caminhar vendado em direção a um penhasco, certo? Pois é.

Bader esperou poucos segundos para dar o bote às pernas em single leg. Distante demais do adversário, teve de abaixar muito a cabeça e distorceu a mecânica da manobra, facilitando osprawl (defesa na qual se projeta ambas as pernas e o quadril para trás) do oponente.

Johnson tem assinaturas semelhantes às de Vitor Belfort no sentido de melhorar conforme as trocas de golpes ganham contornos de pura brutalidade. Acostumado a usar as mãos para laçar o pescoço, segurar ou deter investidas, apenas acompanhou o movimento e empurrou a cabeça de Bader para baixo para deixá-lo todo torto no momento em que atingisse a lona do octógono.

‘Darth’ Bader ainda ensaiou uma kimura no puro reflexo, mas Johnson aproveitou a vantagem por cima para reestabilizar e galgar a posição até montar e definir a luta no ground and pound.

Renovado

ChubbyRigidCoquiSem lutar desde 2014, Tarec Saffiedine descontou o tempo de inatividade com bom grau de obediência tática – bem ao jeitão da Tristar Gym, equipe da qual faz parte desde o ano passado – como diferencial no equilibrado desafio contra Jake Ellenberger.

Não é de hoje que o ‘Juggernaut’ mostra falta de repertório e de setups (golpes e manobras preparatórias) para entrar no raio de ação e executar o padrão de luta pressurizante característico, muitas vezes limitando-se a avançar de forma passiva e ‘retilínea’ demais. Isso o torna cada vez mais previsível.

A receita do belga foi deixar o adversário tomar o centro do octógono e a partir daí frustrá-lo com sequências curtas de dois ou três socos aliada à chutes altos pontuais mais isolados.

Saffiedine usou bem os jabs e veio preparado para a tendência de Ellenberger se transformar em um ‘touro bravo’ e partir para cima toda vez que é tocado. Então criou diversas ‘iscas’ na intenção de atrair o adversário, com muitas trocas de base para criar novas camadas de ataque e confundir o senso de distância de forma inteligente.

De bobeira?

GreenFakeAchillestangSage Northcutt tentou impor o padrão explosivo característico contra Bryan Barberena. Mandou algumas blitzes de socos retos com passadas e em seguida levava a luta sistematicamente para o clinch.

Barbarena pareceu sentir o ritmo forte no começo, mas manteve o sangue frio até perceber o momento ideal de começar a impor seu jogo explorando os buracos defensivos demonstrados por Northcutt, tanto com a luta em pé quanto no solo.

JaggedAffectionateApisdorsatalaboriosaCanhoto, no fim do primeiro assalto começou a conectar fortes golpes de direita, sempre por cima das tentativas de jabs e golpes mais potentes de direita, a maioria telegrafados e fora de postura, vindas do outro lado.

Na segunda parcial, Northcutt perdeu a meada de vez. Ele tentou emendar um chute com rolamento (kaiten do gueri, no caratê) após errar um cruzado e acabou no solo.

Por cima, Barbarena ganhou a meia-guarda e aproveitou a passividade e os erros de posicionamento do adversário – costas ‘coladas’ demais na lona, braços esticados e sem ‘espetar’ quadril e joelhos para esboçar alguma forma de escapar – para estabilizar a posição até desenhar um katagatame que obrigou Northcutt a bater em desistência com o oponente ainda em meia-guarda.

Plástico

tumblr_o1tuac1WnZ1u2ragso1_500Alex Caceres travou bom combate contra Masio Fullen, e a vitória pode dar novo ânimo para o Bruce Leroyinterromper o perde/ganha inerente da carreira no UFC.

No combate da vez, Caceres disparou o chute mais bonito do evento. Aquele que sempre vale o GIF.

 

[Leitura de luta] Primeiras impressões de Vitor Belfort x Ronaldo Jacaré

E lá vem a primeira grande luta do UFC entre brasileiros neste ano 16 do século 21, meus amigos. Ronaldo Jacaré e Vitor Belfort medirão forças dia 14 de maio em território nacional (cidade e local ainda não foram divulgados pela organização). O confronto credenciará o vencedor como um dos desafiantes diretos ao título dos pesos médios, em posse atual de Luke Rockhold.

A seguir, a primeira olhada livre em algumas equivalências e diferenças técnicas que poderão fazer a diferença dentro das oito paredes.

Beabá da porrada

10000822Grosso modo, teremos mais um canhoto x destro em ação. Potência será algo inerente, mas desenvolvida de forma peculiar nos dois lados.

Um dos remanescentes da velha escola que abrangeu a transição vale-tudo/MMA, aos 39 anos Vitor Belfort possivelmente dará a cartada derradeira em busca de mais um cinturão antes de pendurar as luvas.

Canhoto, a fama de golpeador visceral do Fenômeno foi diluída com dinâmica e a incorporação de novas habilidades (como os chutes, por exemplo) com o passar dos anos.

Mas o fundamental do jogo ainda está calcado nas blitzes, ou seja, pressionar adversários e tirar proveito do forte ímpeto que o credencia como um dos caras mais perigosos em primeiros rounds da história do esporte.

Mesmo que atualmente desenvolva um padrão mais consciente e ‘elegante’, ele se torna letal quando a coisa descamba para a pura brutalidade, momentos em que usa explosão e velocidade cruas para se manter no ataque com muito volume, enquanto os adversários tentam algum recurso defensivo para travá-lo, empurrá-lo ou acabar com o sufoco.

Em contrapartida, isso o expõe a ser embrulhado e levado ao solo com mais facilidade.

tumblr_msnw4vjPnd1qaa8d1o1_500Não será segredo para ninguém que a estratégia primária de Ronaldo Jacaré será colocar o oponente para baixo em algum momento e trabalhar o rol de finalizações que o caracteriza como um dos grapplers mais perigosos do mundo.

No striking, o atleta da X-Gym ainda pode ser considerado um golpeador funcional. Ele ‘anda para frente’ praticamente o tempo todo e prioriza potência sobre velocidade.

As combinações de golpes são enxutas e cadenciadas, com passadas que geralmente vêm misturadas ao cacoete de executar esquivas e pêndulos antes e depois dos ataques. Recursos do tipo serão importantes para amenizar o poder do amontoado de socos retos que pode explodir a qualquer momento vindos do outro lado.

tumblr_m8zttzSZkP1rrwwgco1_500Os overhands de direita são a manobra de maior confiança. Jacaré costuma usá-los em contragolpes básicos, por cima dos jabs ou diretos dos adversários.

Mas também aplica uma malícia técnica interessante para tirar proveito da cautela alheia em querer evitar o grappling: ao fechar o cerco, o reflexo imediato de muitos é se encolher ou fugir um pouco na tentativa de antever alguma investida às pernas, cintura ou clinch.

Jacaré então abaixa um pouco a posição para condicionar o oponente e dispara o forte soco em cima, tirando o golpe do raio de visão.

Inevitável?

Com o instinto de Belfort cair dentro no infight aliado à busca frenética de Jacaré pelo grappling, não precisa ser nenhum gênio pra perceber que a zona de clinch deve configurar a grande batalha territorial neste desafio.

SoulfulRadiantGypsymothDaí, será quase inevitável pensar nos momentos com a luta na horizontal.

O jiu-jitsu adaptado ao MMA de Jacaré tem foco no jogo por cima, com isometria monstruosa para controlar oponentes e assim viabilizar as variações de passagens de guarda para seguir ativo e ofensivo.

Em manobras do tipo, há um vazio momentâneo perigoso entre as transições de uma posição para outra, que pode favorecer tanto ataques quanto facilitar defesas.

Jacaré trabalha como poucos essas ‘brechas’. Ele aproveitar o ‘gap’ e as reações do adversário, sempre pesando o quadril para prolongar a ação no solo, estabilizando posições e buscando a melhor maneira de finalizar.

Parece um detalhe básico, mas muitos lutadores de elite ainda penam para dominar tais aspectos.

Ainda adepto da cada vez mais ultrapassada ‘puxada para a guarda’ no MMA, Belfort deve ter sérios problemas se mantiver essa postura contra Jacaré.

Jones_Belfort_1_egmdw2w6_lrsqstgmUm dos faixas-pretas mais conhecidos deCarlson Gracie, mesmo com algumas submissões importantes na carreira o Fenômeno manteve o jiu-jitsu como um critério secundário e de caráter mais defensivo na estratégia geral de combate.

O lampejo mais recente veio no combate contra Jon Jones (UFC152), no qual encaixou a ‘quase chave de braço’, que por pouco não acaba com o reinado de Bones nos meio-pesados.

Na atuação mais recente, foi criticado pela passividade e por não esboçar qualquer tipo de reposição de guarda quando estava com as costas no solo e era golpeado severamente pelo então campeão dos médios Chris Weidman.

Conclusão

1b968cbff32d8ecea96c64a6ad9f29b5_large1Se apostar no simples e eficiente em pé e no solo, Jacaré desponta como favorito.

Desta vez (ou mais uma vez), Belfort têm chances mais concretas se tentar definir logo nos primeiros cinco minutos. Estender a luta não será o melhor negócio para o Fenômeno aqui.

Outra grande expectativa será saber também se Belfort será mais enxuto nos chutes, o grande diferencial das últimas atuações, pelo fato de poder se tornar vulnerável e acabar indo ao solo contra um cara com tantas credenciais neste sentido como Jacaré.

E vocês? Em quem apostarão?

[Leitura de luta] Dominick Cruz: o retorno do bailarino da porrada

Como dizia o finado Bowie: Let’s dance! Dominick Cruz e TJ Dillashaw fizeram jus à alcunha de ‘mestres da movimentação’ e detonaram 25 minutos de pura expertise técnica no fundamento durante o main event do UFC Fight Night 81.

No fim das contas, a vitória por decisão dividida favorável a Cruz iniciou nova fase para o velho campeão dos galos e cravou final feliz em uma das maiores histórias de superação e obstinação dos últimos anos no esporte.

Destaques do lutão devidamente desconstruídos a seguir.

Igual, mas diferente

AstonishingAdmiredBirdO grande atrativo nos dois lutadores é a obsessão em buscar pontos neutros, para jamais tornarem-se alvo fixo. Esse tipo de padrão exige alta demanda tática, física e técnica em conjunto, mas sempre são muito interessantes de assistir.

Olhando de perto os padrões de footwork/ambidestria/golpes de ambos, há características distintas.

Dillashaw ‘cisca’ e finta o tempo todo para criar ângulos que facilitem ataques na diagonal, muitos deles feitos a partir de passos semi-diagonais ou utilizados na sequência de algum golpe reto básico (um direto, por exemplo).

Em miúdos, ele tateia rapidamente ambos os lados ajustando passadas e esperando alguma reação contrária antes de jogar o próximo soco ou chute, geralmente aplicados quando está com a base plantada na lona do octógono.

VainHatefulCanadagooseSe o primeiro golpe atinge o alvo, ele segue agressivo para atestar volume, mesmo ampliando a margem de ser atingido.

Cruz mantém postura ereta, com pêndulos de ombro e quadril amplos para minimizar as chances de ser encurralado. As combinações são enxutas e se baseiam no ‘bate e se mexe’.

Em princípio, parece um padrão torto e que fere os fundamentos mais clássicos do striking, cruzando as pernas, levantando demais os calcanhares e golpeando pouco ancorado ao solo.

Mas os grandes motes que o caracterizam como ‘fora da curva’ estão justamente aí.

Marcas

Com tantas credenciais em evasão, esquivas e passadas juntas, a média tentativa/acerto tornou-se algo essencial para definir vitória e derrota no combate.

A tática de Dillashaw foi desenhada para pressionar contra a grade e abusar da versatilidade para anular os escapes de Cruz.

Ele postou-se no centro do octógono para tomar iniciativas com algum golpe mais leve apenas para tocar o oponente, e a partir daí fechar o combo com algum golpe mais potente.

Os chutes médios – mais difíceis de serem evitados pelos movimentos evasivos do adversário – foram executados inteligentemente como o complemento ideal para não desperdiçar momentos de ataques.

SkeletalHandsomeIndigobuntingOs chutes altos emendados após socos retos (técnica de finta na qual o braço esticado faz uma ponte para que a perna seja usada quase simultaneamente) surpreenderam o adversário algumas vezes, da mesma forma que alguns low kicks precisos abalaram a confiança de Cruz e tiveram papel fundamental para a reação de Dillashaw nas últimas parciais.

Dominick Cruz fez o de costume: jogou o ombro e inclinou a cabeça para frente, chamando o oponente a acerta-lo constantemente.

Quando isso acontecia, aproveitava o embalo do movimento para se reposicionar e executar algum contragolpe, postando-se lateralmente ao adversário, e repetir o padrão em seguida, caso a troca de golpes se estendesse.

BitterWetGreatdaneÉ uma fórmula metódica que foi providencial para frustrar a agressividade de Dillashaw gradativamente.

Outra assinatura de Cruz para deter o ímpeto de adversário foram os cruzados com passo para trás e desenhados após um ou dois pêndulos, utilizados para responder às investidas de adversários incisivos.

Nesse tipo de técnica é preciso estar com a condição tempo/espaço sempre em dia, pois trata-se de um movimento bastante amplo e arriscado.

Conclusão: obrigado por voltar ao esporte, Dominick Cruz!

Mais

f6MqfqFrancisco Massaranduba também merece méritos na noite de pancadaria em Boston. O atleta piauiense mostrou novamente grande evolução no QI de luta e faturou vitória acachapante sobre Ross Pearson.

Massaranduba manteve excelente controle de distância durante os 15 minutos, quebrando a agressividade e a tendência de buscar o infight do inglês com passos laterais, thai clinches e chutes altos pontuais.

Posição, precisão e potência – como diz aquele falastrão irlandês – colocados em prática com muita competência. O resultado não podia ser outro.

 

Primeiras impressões sobre Rafael Dos Anjos x Conor McGregor

Michael Corleone justificou certa vez: “Não é nada pessoal, são apenas negócios”.

Conor McGregor pode até discordar, em partes, da citação clássica de ‘O Poderoso Chefão’quando põe em prática a empáfia megalomaníaca de autopromoção e parte para as ofensas sem limites. Mas pouco tempo depois de arrancar o cinturão dos penas de José Aldo, o irlandês reforçou a veia de ‘ardiloso mafioso’ para movimentar a máquina do Ultimate e conseguir nova chance de fazer história.

Ele subirá de peso e cairá diretamente em mais uma disputa de título, agora o dos leves, contra o campeão Rafael Dos Anjos, no UFC 197, em 5 de março.

É redundante afirmar que Dos Anjos evoluiu quilos nos últimos anos, condensando um estilo de personalidade técnica potente e um ‘quê’ cerebral denso que o torna seguro em boa parte das ações de ataque ou defesa.Fora as discussões sobre merecimento ou marra, nada mal para os fãs, que logo terão oportunidade de ver uma superluta logo no começo da temporada.

Esse grau reforçado de confiança é credencial intensa em grapplers de origem que conseguem se tornar strikers habilidosos e passam adotar a parte em pé como carro-chefe.

O nocaute em 13 segundos contra Aldo – mérito puro de McGregor – não deu tanta margem para análises mais completas sobre as atuais condições de seu jogo. Mas a precisão e poder de nocaute com o punho esquerdo, o senso de dinâmica e a confiança inabalável seguem como quesitos diferenciados do europeu nesta fase de ouro da carreira.

Colocando as primeiras impressões do desafio na balança, destaco alguns tópicos que podem fazer a diferença.

Esquerda x esquerda

É preciso saber até que ponto o desenho com dois canhotos ajudará ou atrapalhará o desenrolar da luta.

Sim, canhotos não ‘confundem’ apenas destros, mas isso também pode acontecer quando têm de se enfrentar, já que atuam majoritariamente contra destros durante boa parte da vida útil como competidores.

dos anjos cagecraftDesta forma, amenizar ou rearranjar ângulos e possibilidades da posição ‘espelhada’ às vezes é muito mais natural do que ter de lutar contra alguém com a mesma postura.

O ‘hand fighting’ (choque constante dos punhos da frente da posição de luta) desaparece e os jabs voltam a ter papel tático importante. Estranho, não é? Pois ocorre em muitos casos.

Uma das atuações mais recentes de Rafael dos Anjos contra um canhoto foi frente a Ben Henderson. O brasileiro manteve a base de movimentação ativa, cercando, variando níveis (alturas) de ataques e angulando para o lado direito (para fora do lado forte de Bendo) até se aproximar das grades e disparar as rápidas sequências características.

A fatura foi liquidada ainda no primeiro assalto, ao conectar joelhada voadora seguida de mais golpes que decretaram o nocaute técnico.

mcgregor-knockoutMcGregor se deparou com um da mesma espécie pela última vez na estreia pelo UFC, há três anos, contra Marcus Brimage.

O europeu, que também venceu pela via rápida no primeiro assalto, manteve o trabalho deinfight mais extenso, com destaque para a utilização de diversos uppercuts.

Manteve o combate sob controle com propriedade, mas foi mais comedido que o de costume nas investidas, muito mais ‘retas’ do que os avanços constantes em diagonal tanto para a esquerda quanto a direita, marcas registradas inerentes que desenvolve ao encarar destros.

Handicaps técnicos lá e cá

GreatHonoredAntelopegroundsquirrelRafael Dos Anjos aposta na pressão calculada, ou seja, agressividade plena aliada à capacidade de se defender e evadir enquanto se movimenta, uma das evoluções mais vistosas dessa fase da carreira e que colaboram para torná-lo sólido em pé.

O irlandês é competente nos contragolpes, mas se recuar, esperar ou se aproximar demais das grades pode ser presa fácil para outra característica do brasileiro: a de saber mesclar muito bem o striking com o grappling.

No solo, o europeu carrega bons recursos defensivos, mas parece pouco confiável nas defesas de queda.

Com a luta na horizontal, a vantagem pende muito para o brasileiro.

Conor McGregor vs Diego Brandão (3)McGregor carrega recursos que caem como luvas frente a adversários agressivos, como o atual campeão dos leves.

Sequências de chutes altos que variam entre circulares, gancho ou giratórios surpreendem pela variação ofensiva e criam timing no ‘contrapé’ da movimentação dos oponentes.

Outro fator interessante nesse sentido é o estilo peculiar ao contragolpear, bastante condicionado às características presentes no canhoto x destro.

Ele usa a dinâmica de passadas e movimentos evasivos para permitir que o adversário ganhe espaço e confiança gradativa ao golpeá-lo, para executar as contrapartidas nos momentos oportunos.

Guerra de nervos

O melhor exemplo aconteceu quando enfrentou Nate Diaz.O tempo restrito de promoção desta luta pode aliviar o monte de polêmicas e provocações que o irlandês costuma fazer. Rafael Dos Anjos é um cara bem menos expansivo, mas já provou que não arreda o pé e mantém a cabeça no lugar quando se depara com falastrões.

Famoso pela intimidação, o norte-americano como sempre se esforçou para entrar na mente do brasileiro, mas este transformou ofensa em motivação e atuou, literalmente, com dentes cerrados, faturando grande vitória.

Vamos ver se frente ao QI de luta egocêntrico ao extremo de McGregor a postura será a mesma. O que vocês acham?

[Leitura de luta] Condit, Lawler, céu e inferno no UFC 195

UFC 195. Robbie Lawler x Carlos Condit. Vinte e cinco minutos de cerrar os dentes definidos, mais uma vez, pelo amontoado de contradições e convicções das margens interpretativas dos árbitros. É, meus amigos. A temporada 2016 começou com pancadaria ensandecida, controvérsias e tudo mais que pode (des)temperar o MMA.

O combate principal garante potencial direto para estar em qualquer lista de ‘melhores do ano’ que serão feitas daqui doze meses. Claro que ainda há toda lenha do mundo para queimar nesse sentido.

Por enquanto, vamos iniciar a batelada de análises do ano com este lutão e outros bons lampejos do card.

Fio da navalha

É curioso perceber como os lutadores da equipe Jackson/Winkeljohn mantêm alguns padrões técnicos similares, quase sempre focados na movimentação customizada de acordo com as características de cada oponente, além da utilização frequente de golpes de contenção/bloqueio, como jabs, chutes oblíquos nos joelhos e frontais ou laterais no plexo.

Manobras do tipo reforçam margens de segurança pela mecânica natural de cada movimento constar elementos de ataque e defesa simultaneamente.

tumblr_o0e4ngx5sx1u2ragso3_250Com munição em dia nesse sentido, Condit apostou no poder da envergadura, das fintas e do volume de golpes como táticas principais para peitar a truculência do campeão.

As rápidas blitzes características privilegiavam setups dentro das sequências de socos para forçar o oponente recuar e daí jogar algum chute ou joelhada como complemento.

Como novidades neste sentido, variou bastante o primeiro ataque, misturando uppercuts trocas de base esuperman punches para surpreender.

A estratégia geral só não encaixou de forma mais convincente por causa de erros comuns em destros quando enfrentam canhotos: o de entrar ‘reto’ demais no raio de ação, ficando à mercê de ser atingido imediatamente por diretos de esquerda, artifício usado religiosamente pelos ‘esquerdinhas’ com parte mais fiel do arsenal de golpes.

O jogo instintivo de porrada forte/resiliência de Lawler pode não ser mais segredo para ninguém.

tumblr_o0e4ngx5sx1u2ragso7_250Mas o campeão confia tanto no que tem de melhor que sempre acha espaço para surpreender com algum detalhe.

O padrão de movimentação foi claramente treinado para ‘matar’ a longa distância de Condit, ciscando e pressionando constantemente para aproximá-lo das grades e atacar de forma sólida quando tal situação estivesse visível.

Dono do combo ‘um/dois’ mais poderoso da categoria, Lawler em diversos momentos percebeu que vencer o poder de alcance de Condit não seria tarefa fácil.

Então começou a trabalhar os cruzados de direita (os do punho da frente da posição de luta) esticando bastante o braço, para cortar a distância mais rapidamente, tocar o adversário e abrir espaço para as bombas seguintes de esquerda.

Após ser surpreendido algumas vezes nas investidas com a avalanche de golpes descrita acima, Lawler logo percebeu que recuar demais seria mau negócio.

tumblr_o0e4ngx5sx1u2ragso2_250Ele então tratou de cravar mais os pés do tablado do octógono quando atacado, e procurou responder de forma mais austera, aproveitando os cacoetes de Condit, que se inclina demais e perde o controle da postura momentaneamente quando percebe que pode ser atingido.

Foi assim que o campeão conseguiu o knockdown no segundo round, com um soco de direita. E o resultado? Mais uma vez a decisão dos árbitros foi contestada por muitos.

Enquanto alguns dizem que a Comissão Atlética de Nevada segue mutilando o MMA pela falta de perícia e conhecimento mais específico no esporte, outros preferem se abrigar no fato de que as decisões de imediato que têm de ser tomadas sempre são propícias controvérsias.

Na minha visão, Carlos Condit foi o vencedor. Mas também, quem garante que estou totalmente certo?

Intenso

tumblr_o0d0y7klL71rofocqo1_r1_500A fase embalada de Andrei Arlovski foi interrompida por Stipe Miocic em apenas 54 segundos.

Como de costume, a aposta do bielorusso foi em combos mais extensos de socos, com algumas mudanças de níveis (altura), indo de encontro ao raio de ação do oponente (em direção ao centro do tronco) com auxílio pequenos pêndulos e esquivas.

São técnicas que exigem alto grau de perícia e confiança, já que expõem demais a contragolpes mais severos.

Miocic rapidamente capitalizou em cima de uma dessas entradas para pegar Arlovski com a guarda baixa em um cruzado mascado (curto) de direita, que acertou entre o ouvido e a têmpora, dernorteando totalmente o adversário para depois nocauteá-lo em seguida. Fatal.

‘Andy Hug style’

DangerousPointlessGannetLorenz Larkin e Albert Tumenov protagonizaram outro ‘pega pra capar’ de alto nível. Preciso e com golpes calibrados, o russo impôs seu jogo e faturou a vitória no final.

Larkin apostou na tática de minar as pernas do adversário praticamente o tempo todo, o que não surtiu efeito desejado por telegrafar demais em determinados momentos, além de deixar a desejar na potência quando preciso.

6ia1s0_jpgMas o que realmente chamou atenção nesse sentido foram os (bem) pouco ortodoxos giratórios na coxa, que imediatamente rememoraram – salvo as devidas proporções – o mestre Andy Hug nos tempos áureos de K-1.

Esse tipo de habilidade é típica nos estilos de caratê de contato (guedan ushiromawashi). Trata-se de uma variação dos low kicks – que também pode ser usada como rasteira – raramente usada, por expor demais a contragolpes.

 

[Leitura de luta] Alguém ainda duvida de Rafael dos Anjos?

A temporada 2015 do Ultimate acabou e o último campeão na berlinda se recusou a fazer parte da estatística de “troca de posto” que tanto assombrou os detentores de cinturão durante o ano.

Rafael dos Anjos precisou de 66 segundos para nocautear Donald Cerrone e atestar outra atuação de gala que reforça o nome como um dos lutadores mais respeitáveis e competentes do esporte. Pena que muita gente ainda não se deu conta disso.

Com a primeira defesa de título bem sucedida, o brasileiro garante o lugar ao lado de Holly Holm,Robbie Lawler, Conor McGregor e Luke Rockhold no rol de campeões canhotos da organização.

Tendência ou coincidência, o precedente para mais choques estilísticos de peso para o ano que vem é explícito. Por enquanto, analisemos alguns destaques do UFC on FOX 17, que aconteceu em Orlando(EUA).

À vera

No primeiro encontro entre Rafael dos Anjos e Donald Cerrone (em 2013, vencido pelo brasileiro nos pontos), o Cowboy teve problemas em lidar com as entradas anguladas pela direita realizadas pelo carioca. Desta vez, no entanto, o norte-americano viu a chance de ouro escapar de forma devastadora. E dolorosa.

Dos Anjos tomou a iniciativa com chutes pontuais e liquidou a fatura logo na primeira vez em que partiu para os ataques mais francos, com foco no tronco do adversário.

tumblr_nzn0nckaXU1upwz95o1_400Os golpes médios ganham amplitude e contundência em desafios canhotos x destros.

Isso acontece em virtude de a posição ‘espelhada’ da situação aumentar a área útil do tórax que pode ser atingida, seja com chutes, joelhadas ou socos executados pelo lado mais forte dos atletas.

Obviamente, lado direito para os destros, mas esquerdo para os canhotos. Além disso, acertam direto no fígado. Primeiro, o campeão mandou joelhada de esquerda dentro de um clinch, que amoleceu Cerrone na hora.

Em seguida veio um chute médio (uma de suas recentes marcas registradas) no mesmo ponto para entortar de vez o desafiante e abrir espaço para a barragem de socos, que seguiu intensa até decretar a via rápida pouco depois.

Precisão extrema.

Toma lá…

Johnson DiazNate Diaz x Michael Johnson foi puro chumbo trocado entre canhotos durante 15 minutos.

Como levava vantagem de 8 cm na envergadura, Diaz modificou a postura, postando a base mais aberta e o tronco inclinado à frente para ‘chamar’ o adversário aos ataques.

Johnson é um lutador de volume, com técnicas simples e ótimo aproveitamento na média tentativa/acerto.

Porém, encontrou dificuldades em se impor pela falta de recursos em ajustar passadas para cortar melhor os ângulos e se aproximar de forma mais coesa frente aos braços longos do adversário.

tumblr_nzmwu6jVEh1rofocqo1_500Por apostar demais em investidas retas, perdeu a meada ofensiva e facilitou o trabalho do oponente em frustrá-lo gradativamente.

Diaz encontrou timing confortável da média para a longa distância a partir do segundo round e passou a dominar ações com contragolpes e intimidações.

Os cruzados de direita (punho da frente da postura de luta) foram os fiéis da balança nesse sentido. Ora usados como golpe inicial para seguir com outros socos retos, ora usados para aproveitar a guarda baixa de Johnson nos momentos de saída do raio de ação, atingindo-o no contrapé de forma sucessiva.

Zebra?

Captura de Tela 2015-12-21 às 16.44.48Desde que começou a treinar com a equipe Jackson/Winkeljohn, é inegável que Alistair Overeem tem se esforçado ao máximo para ser um produto melhorado.

Com isso, pode parecer desajeitado, passivo e fora de prumo em diversos momentos, mas merece mérito por ter modificado, na prática, os instintos mais básicos de luta, e com isso ter agregado boa dose de senso estratégico ao estilo dentro da divisão menos propícia a tais afeições táticas mais elaboradas.

Sem os traços soltos de mobilidade que o diferenciou como pesado há alguns anos – talvez pela falta de ritmo ou sequelas das lesões/cirurgias no joelho que teve de se submeter recentemente – Cigano perdeu-se na distância praticamente o tempo todo.

Postado mais lateralmente e confiando na longa distância, o holandês trocou várias vezes de base e manteve o braço da frente (da postura de luta) esticado.

Assim criou uma margem de segurança entre ele e o adversário e confundir o ímpeto nas fechadas de cerco características do catarinense.

Captura de Tela 2015-12-21 às 16.44.29Com socos e chutes mais isolados e menos potentes que o de costume, Overeem manteve-se pontuando durante todo primeiro round sem se expor demais.

Na segunda parcial, o europeu esperou um jab de Cigano para cair dentro do ataque com um passo à frente/esquiva jogado com um cruzado de esquerda simultaneamente, que acertou o rosto do brasileiro de encontro e o mandou aknockdown.

Um movimento amplo e com o braço quase esticado, que fere a maioria dos fundamentos de golpes no striking mais tradicional.

Mas quando falamos das adaptações da modalidade sempre temos de levar em conta que tudo o que pareça atrocidade nos estilos mais ortodoxos têm lugar válido no MMA.

E pode fazer a diferença.

Mais

Charles Oliveira mostrou-se consciente no striking e reforçou a fama de contar com as finalizações mais confiáveis do esporte.

Contra Myles Jury – que estreava na divisão dos penas – desenhou o clinch e alcançou a posição para estrangular de forma natural, aproveitando a passividade do oponente nas transições a que foi forçado.

A frieza com que o brasileiro colocou a segunda mão para fechar a guilhotina foi a prova de que tinha as ações da luta completamente visualizadas na cabeça.

Que venha 2016!