[Leitura de luta] Dragão novamente abatido

Sem pujança nem capacidade de definir o combate com um ou dois golpes precisos, Lyoto Machida novamente esteve distante do lutador diferenciado que fez história quando entrou no octógono para encarar Yoel Romero no main event do UFC em Orlando.

Com uma cirurgia recente no punho esquerdo sem tempo hábil de recuperação como agravante, o brasileiro foi ousado para aceitar um desafio de risco apenas dois meses após ser finalizado por Luke Rockhold.

Mas a lição de superação que muitos esperavam logo se transformou em outra noite a ser esquecida pelo carateca, que acabou nocauteado no terceiro assalto e agora forçado a ficar um bom tempo no estaleiro por causa das sequelas adquiridas com a cara amassada por socos e cotoveladas. Vamos aos fatos:

Pouca roupagem

Machida_Ortiz_kneeMachida começou ciscando e apostando em fintas seguidas de esboços de movimentação lateral. Semelhante ao que apresentou contra Rockhold, mais uma vez pareceu ‘retilíneo’ demais.

O grande sucesso nas (muitas) atuações contra wrestlers em outros tempos foi a utilização brilhante de variações adaptadas do tai sabaki, um estilo de movimentação de origem no caratê, que consiste em golpear em pleno deslocamento e terminar os ataques sem deixar o quadril paralelo ao dos adversários, diminuindo assim as chances de ser agarrado e levado ao solo.

Outros dois fatores também colaboraram indiretamente para limar os famosos handicapsevasivos do carateca: o octógono ser 40% menor (o UFC tem mudado as dimensões do cage de acordo com o tamanho das arenas), além de Romero ser canhoto.

Isso mesmo. Canhotos provavelmente treinam e enfrentam 70% de destros e 30% de ‘esquerdinhas’ durante a carreira. No fim das contas, é muito mais desconfortável – e falo isso por experiência própria – um canhoto ter pela frente outro com a mesma postura.

Machida é conhecido pela movimentação solta e multilateral. Mas desta vez penou para criar bons ângulos de ataque. O desenho de bases encaixadas eliminou o choque constante dos punhos da frente entre os oponentes (como acontece no desenho canhoto x destro).

Romero aterrissando o punho esquerdo

Já que ‘cutucar’ o punho do adversário frequentemente não surtia bom efeito para visualizar brechas ou facilitar escapes quando preciso, ele inicialmente apostou em chutes soltos com a perna direita (a da frente da posição de luta) para controlar melhor as distâncias.

Há alguns bons lampejos, mas ainda considero trabalho com a perna da frente subutilizado no MMA. Imprescindível na tática de strikers versáteis e clássicos, esse tipo de técnica funciona basicamente como fator-surpresa repleto de dinâmica.

O problema é que a tendência dessas habilidades é tornar o atleta previsível no decorrer do combate se não forem seguidas de algum golpe de carga em momentos oportunos.

Ou seja, pode ser usada uma ou duas vezes para atrair atenção e condicionar a defesa adversária, mas na terceira, por exemplo, é indicado um complemento forte para tornar o ataque mais intimidador e restartar o timing.

Machida hesitou demais nesse sentido, talvez por causa das consequências da cirurgia no punho, e nas poucas boas chances que conseguiu, limitando-se a usar o recurso de forma isolada.

Quedou, ferrou

QuarrelsomeNeedyCrayfishMesmo um tanto distante de ser exemplo de mostrar estratégias polidas, Yoel Romero foi sábio em cadenciar os momentos de explosão a luta toda.

Ele aproveitou o espaço reduzido para cercar o carateca e postou-se como um boneco na frente de Machida para obrigá-lo a sair do elemento confortável dos contragolpes e assim forçá-lo a tomar iniciativas.

Ao contrário do Dragão, que se embananou um pouco para angular e atacar, o Soldier of God não teve tanto problema em desenvolver o jogo mais incisivo e direto ao ponto, acertando bons golpes retos no oponente.

No primeiro takedown que conseguiu, o cubano mandou o brasileiro ao solo com uma mistura de varredura e arremesso nocauteando-o instantaneamente com uma avalanche de socos e cotoveladas na meia-guarda.

Outras menções

tumblr_nqnuumM9x11u2ragso1_500Tiago Marreta usou o manjado – mas sempre eficiente – ‘olha aqui, chuta ali’ para despachar Steve Bosse rapidinho.

O brasileiro mandou primeiro uma patada na costela, depois olhou novamente para o tronco e soltou a perna na altura da cabeça. Fintas do tipo dependem de expressão corporal pura e por isso sempre legais de serem vistas.

Lorenz Larkin teve culhão contra Santiago Ponzinibbio. O norte-americano plantou uma tática ousada quando se tem pela frente um golpeador visceral como o argentino.

Além de moer as pernas do hermano com low kicks precisos e pontuais, deixou-se encurralar nas grades esperando o golpe de carga mais previsível do adversário – no caso os swingões de direita -, para trabalhar os contragolpes em cima disso e dos recuos acentuados que Ponzinibbio geralmente faz depois das ofensivas, até conseguir a vitória na via rápida.

[Leitura de luta] Peso palha, chumbo grosso

Você também achou que duas lutadoras de 52kg dentro do octógono não seria propriamente algo que seguraria um main event digno de UFC, certo? Errado, meu amigo.

Joanna Jedrzejczyk incorporou o papel de ‘carniceira’ e ministrou, na prática, um verdadeiroworkshop de contundência contra Jessica Penne no Fight Night Berlim.

Com a vitória e o cinturão garantidos após o ‘piau’ que durou pouco mais de três rounds, a polonesa deu novos indícios de que pode ser mais uma campeã dominante em uma divisão feminina da organização.

Analisemos, pois.

Dominância

2nuhph0Muitas características do kickboxing holandês pontuam o jogo de Joanna: velocidade de resposta absurda e traduzida nos típicos ‘dutch rushes’(combos dinâmicos de socos e chutes), além da capacidade transformar a luta em um ‘toma lá, dá cá’ de primeira.

Ela carrega também um dos cacoetes mais nobres dos strikers experientes: a de mixar ataques eficientes em alturas diversas, o que torna o conjunto de habilidades muito mais traiçoeiro.

O primeiro assalto foi a única parcial distinta do que viria pela frente. A polonesa cadenciou a luta, caçando a melhor distância para desenvolver o jogo de striking.

2j5gfugJessica mostrou boa movimentação nas entradas e saídas do raio de ação e tentou a todo custo colocar o combate na horizontal. Conseguiu os melhores momentos nos clinches, de onde aplicou dura queda de quadril a poucos segundos do intervalo.

Na metade do segundo assalto caiu a ficha da campeã, que passou a dominar o ritmo da média para a longa distância e colocar pressão constante. Uma forte cotovelada no nariz da oponente foi o início de uma receita dolorosa.

Os socos retos constantes no plexo tiveram papel tático importante para brecar ímpetos e cansar a oponente. Joanna também soltou mais low kicks, uma arma essencial nos tempos como kickboxer lapidada nos anos de treino com o mítico ex-campeão do K-1 Ernesto Hoost(#inveja), mas até então usada de forma mais tímida em suas atuações no MMA.

12161blTécnicas adaptadas do ‘hand fighting’ também foram desenvolvidas com maestria pela campeã.

Quando percebia alguma investida mais direta ou telegrafada de Jessica, ao invés de se encolher e aceitar o possível clinch, a campeã o antevia, deslizando rapidamente para trás com os braços esticados para deter os bíceps ou empurrar a cabeça (caso abaixasse demais para tentar a queda) da adversária.

Aqui adaptadas para o MMA, técnicas de ‘brecar braços’ são comuns na cartilha do infight no muay thai tradicional.

Quando Joanna frustrava o timing adversário na ação, imediatamente caía dentro com socos curtos, combos velozes ou cotoveladas.

Conclusão

Juro que não é preconceito. Confesso que torcia um pouco o nariz sempre que olhava os cards que tinham algum desafio previsto nesta categoria.

Mas Joanna conquistou minha atenção após o ‘passeio’ de pés, punhos joelhos e cotovelos em solo alemão, onde tirou uma ex-campeã do Invicta pra nada.

A polonesa mostrou ser uma ‘badass’ de primeira linha, com atitude e estilo de campeã ímpares. Seu jogo de striking é daqueles que fazem você pagar (pra valer) se cometer algum descuido ou vacilo.

Ainda é preciso dar aquela amalgamada com a parte de grappling, óbvio, mas se continuar nessa toada, vai ser difícil perder o trono tão cedo em uma divisão ainda em construção no Ultimate.

Pode apostar.

[Leitura de luta] Mayweather, Pacquiao e todo pano pra manga

Com tanto bafafá e blábláblá envolvidos, é claro que o combate entre Floyd Mayweather Jr. eManny Pacquiao rende quilos e mais quilos de polêmica que não vão parar tão cedo.

Os requintes megalomaníacos que alimentaram o evento se traduziram em um resultado contestado por muitos.

Tudo bem que houve momentos mornos e abaixo do esperado, mas foi curioso ver que muita gente, mesmo supostamente abalizada, não captou qualquer insight de um duelo todo traçado no basicão do ataque e contra-ataque.

Como aqui a intenção é mais focada em destrinchar técnicas interessantes, segue meu ponto de vista sobre a tal ‘luta do século’.

Retroceder nunca?

RealisticWavyIriomotecatNão houve lá mudanças tão bruscas no estilo de ambos. Mas o desenho ‘espelhado’ – e invevitavelmente desajeitado – destro x canhoto dentro das características de ambos exigiu bons ajustes táticos e técnicos.

Mesmo lapidado por anos de treinos, Pacquiao ainda carrega nos punhos uma crueza natural instigante e que enche os olhos de forma mais direta.

Mayweather carrega a sina da vantagem subjetiva, via de regra entre os melhores contragolpeadores do esporte.

Muito se colocou em xeque o fato de o norte-americano ‘andar para trás’. Mas é a marca registrada mais forte de seu jeito de lutar.

Mesmo estando à mercê de margens interpretativas nem sempre confiáveis, nos esportes de combate existem diferenças entre fugir e recuar.

Se o primeiro termo configura puro antijogo, o segundo escancara o precedente de que é possível manter-se ativo e criar eficiência durante os recuos.

A receita defensiva de Mayweather é baseada no ‘shoulder roll’ ou ‘philly shell’, jeitão de lutar que demanda personalização intensa de fatores como reflexo e tempo de resposta.

É uma postura técnica em que o braço da frente (da postura de luta) é colocado sobre as costelas e cria-se um ‘escudo’ ao redor do queixo com a outra luva e o ombro.

O posicionamento lateral do tronco e as pernas mais abertas facilitam pêndulos, esquivas e respostas imediatas. O rosto relativamente descoberto funciona como isca.

Além dos pesados, precisos e multiangulados diretos de esquerda como fonte direta mais confiável (um senso comum entre canhotos), o que chama atenção em Pacquiao é o tempo preciso com que costura ataques usando o jogo de pernas.

Como manda o figurino contra destros, o que vale é posicionar o pé da frente (da postura de luta) por fora do pé da frente do oponente para que os ataques sejam melhores angulados.

OrnateFastAmericankestrelApós alcançar essa posição, ele solta uma sequência na qual o último golpe já é colocado acrescido de uma curta movimentação lateral, preparando naturalmente o corpo para o próximo combo, e assim sucessivamente até que resolva parar de atacar.

Contra Mayweather, ficou claro que quebrar o timing dos ‘shoulder rolls’ era um ponto-chave.

Assim que encurralava o adversário contra as cordas, Pacquiao esperava o adversário pendular para soltar uma saraivada de socos que geralmente começavam na média altura na tentativa de acertá-lo desguarnecido em plena manobra defensiva.

tumblr_nnrbyixlC81qzaoamo1_400Ao passar alguns momentos de sufoco com isso, Mayweather limitou-se algumas vezes a lacrar as luvas na frente do rosto para bloquear a investida e não dar sopa ao azar.

Em outras, usou rápidos ziguezagues para descalibrar o início dos ataques do filipino, respondendo com rápidos cruzados de esquerda e escapando lateralmente com grande habilidade.

Mas o melhor momento de Pacquiao veio no quarto assalto, quando defendeu um jab com a mão direita e explodiu em contragolpe com ótimo direto de esquerda.

Se o filipino aos poucos ia desperdiçando ataques importantes, que ora atingiam a guarda, ora eram evitados com esquivas, grande parte da gordura ofensiva do norte-americano – imprescindível para tecer o resultado final – começou a ser garantida com longos e potentes com jabs angulados debaixo para cima (chamados de up jabs), que variavam entre o rosto e o plexo do adversário, e surtiram efeito nas vezes em que o filipino ignorou ângulos entrou no raio de ação em linha reta, com jabs ou cruzados de direita, outra característica marcante em seu estilo.

Conclusões

Boxe não é uma ciência exata e como muitos esportes baseia-se em médias e denominadores da equação tentativa/acerto/eficiência.

A vitória de Mayweather foi clara, mesmo que a tal margem interpretativa de muita gente tenha beirado a alienação de torcer pelo mocinho ou pelo bandido.

Boxe não se resume a nocautes. Abra a cabeça. Sempre vai haver muita coisa interessante guardada em um duelo estilístico de alto calibre.

[Leitura de luta] O novo baile do Rei dos Moscas

Você pode ser um dos muitos que torcem o nariz quando veem pesos moscas em ação por diversos motivos, é questão de gosto pessoal.

Mas negar que Demetrious Johnson é um dos lutadores mais próximos da perfeição no (mais que) complexo conceito híbrido do MMA beira a heresia.

O campeão até 56kg do UFC despeja uma caixa de ferramentas técnicas em cada atuação em todas as áreas da luta.

Contra o japonês Kyoji Horuguchi, a receita ‘fio desencapado’ de striking e transições novamente foi colocada para jogo e mais um desafiante acabou engolido pelo volume boçal de golpes do Mighty Mouse.

Meu ponto de vista sobre essa e outros destaques do card a seguir.

Cerco constante

Já devo ter escrito em outros artigos que uma das características mais inerentes ao MMA moderno é a da ambidestria, ou seja a capacidade de ser eficiente equilibrando a base de luta entre destro ou canhoto.

Mesmo que isso acarrete sacrificar momentos valiosos em que ser mais direto ao ponto seria mais indicado, Demetrious Johnson é um dos caras mais habilidosos em mudar de base alucinadamente e manter a fluidez do jogo quase inalterada.

Postura serve para facilitar o corpo a disparar golpes.

Trocar muito de base pode bagunçar o centro de gravidade e eventualmente causar buracos e desequilíbrios perigosos que podem ser aproveitados por oponentes atentos.

CourteousScrawnyConureDesde o começo, Johnson virou destro e canhoto sucessivamente, sempre seguido de mudanças de nível e golpes dinâmicos.

A intenção foi deter ou confundir as investidas explosivas acompanhadas de uma rápida saraivada de golpes do desafiante, uma das referências mais claras do background como carateca.

Desta vez, Johnson mostrou evolução no trabalho de abreviar (cortar) espaços, criando e recriando ângulos de acordo com as reações do adversário.

A principal preocupação foi, sobretudo, evitar recuar demais em linha reta – uma das falhas mais costumeiras em seu estilo -, fato que seria fatal em algum momento frente ao pesado ímpeto do nipônico descrito no parágrafo acima.

Como diriam os treinadores mais old school: ‘recuar um passo para trás até que é aceitável. Recuar dois ou mais é morte na certa’.

ArcticAliveAmberpenshellComo não adianta apenas ficar ciscando na frente do oponente, o norte-americano mandou chutes pontuais e soltos para marcar ataques em boa parte das ações.

Quando Horiguchi ficava acuado e tentava circular, era pego com combos que geralmente começavam com cruzados de direita.

Essa foi a base de ataque mais direta do campeão, que em muitas vezes culminou em abafar o nipônico contra as grades.

Nos momentos de clinch, Johnson executou outra especialidade: as potentes joelhadas nas costelas ou plexo solar, que minaram gradativamente a resistência do oponente.

Com o nipônico já exaurido no solo na última parcial e o combate no solo, Johnson trabalhou a posição dominante até alcançar um crucifixo, passando por cima em seguida e fechando espaço sobre o braço de Horiguchi para pressurizar ao máximo a chave que lhe garantiria mais uma vitória com sobras.

Morno

471169444Fábio Maldonado passou três meses no Tio Sam para entender melhor o ‘mixed’ do termo MMA com a renomada equipe ATT.

Mas agregar e colocar habilidades novas em prática ainda requer tempo e a luta contra Rampage Jackson foi prova disso. Não é fácil mudar a personalidade marcial de um lutador de essência tão instintiva quanto o boxer paulista.

No geral, ambos se propuseram a trocar pancada franca e houve bons lances, mas a ação no geral foi morna.

Claro que por conta do lastro de experiência mútuo, vimos esquivas e ângulos interessantes de ataque e defesa.

Rampage disfarçou a falta de ritmo travando Maldonado contra as grades, e este não conseguiu capitalizar vantagens ou ataques em cima disso.

O curioso foi ver Maldonado passivo demais nos momentos de curta distância, um fato raro.

Quando pressionado nos clinches, além de travar os braços do oponente, o norte-americano virava o corpo de lado como se quisesse evitar ou amenizar potência dos famosos hooks(ganchos) na linha de cintura do brasileiro.

Pode não ser a tática mais indicada nesse caso, mas surtiu resultado.

Movendo bem o tronco e quadril para evitar golpes circulares (como cruzados e uppers), Maldonado pecou mais na média distância, onde engoliu muitos golpes retos (jabs, diretos).

Aplicou uma boa queda/varredura, mas não conseguiu achar um meio consistente para vencer.

Mais menções

InfatuatedIllustriousGilamonsterEm CB Dollaway x Michael Bisping, o desafio decretou outro exemplo claro de perda de meada tática.

O norte-americano começou melhor, aproveitando brechas defensivas clássicas do britânico: a de soltar combos curtos e depois recuar dois ou três passos displicente com a guarda.

Dollaway conectou bom cruzado de esquerda na hora em que o inglês começava a ‘andar para trás’.

Mas parou por aí. Em seguida, cansou demais, e quando acuado passou a tentar responder ataques com cruzados de esquerda em contragolpe, que em pouco tempo se transformaram em insistentes e telegrafados demais.

Bisping reverteu a desvantagem da primeira etapa, e se tivesse mais punch o combate não teria passado da metade do segundo assalto.

Thomas Almeida: técnica, calma e ‘calo’ em dia mais uma vez. Versátil e com grandes opções de quebra de ritmo do oponente nas trocas mais francas, onde executa boa variação de golpes em cima de contragolpes com ótimo timing.Nos  bastidores, Thominhas parece um cara de personalidade mais instrospectiva, o que geralmente é benéfico para lutadores ficarem ligados com os perigos do hype excessivo de momento.

Chad Laprise tem combos de socos e chutes justinhos e muito bem calibrados.

Ainda se abre demais em alguns contragolpes, como os com cruzados de esquerda, mas nada que não possa ser corrigido com repetições e mais repetições.

Chutes circulares com uso do quadril explodindo no final de cada patada, com base nítida nos estilos de caratê de contato, referência clara em muitos lutadores canadenses desde a era GSP.

[Leitura de luta] Como domar um Dragão, por Luke Rockhold

Há alguns anos, Lyoto Machida causava a pior indigestão técnica que qualquer um poderia enfrentar dentro do octógono. Mas como nada é eterno em um panorama tão competitivo quanto o das artes marciais mistas, a fama de grande enigma do UFC aos poucos foi diluída.

Exemplo a ser seguido no quesito artista marcial, o Dragão sempre buscou se reinventar aqui e ali para manter o alto nível de performances. Após ser embrulhado por Luke Rockhold – que diga-se de passagem, teve atuação brilhante e mérito total na vitória – no main event do UFC On Fox 15, o brasileiro computou a derrota mais sonora da carreira.

O batalhão de críticas foi instantâneo, e mais uma vez quem era ótimo ficou péssimo de uma hora para outra.

Não acompanhei de perto o camp de Lyoto Machida, então o que escrever aqui sobre causas e consequências será baseado em suposições e impressões.

Ele realmente parecia um tanto minguado fisicamente desde a pesagem, provavelmente em virtude de complicações ou sequelas do corte de peso.

O que sei é que a perda muscular excessiva neste processo tem sido um das preocupações de sua equipe desde o combate contra Chris Weidman, em julho do ano passado.

Machida ficou conhecido por dominar quesitos como velocidade e mudanças bruscas de direção em plena movimentação, fatores que compõem a coluna vertebral de seu estilo.

Na colisão contra Rockhold, um adversário longilíneo, chutador contundente e de sólidobackground na luta agarrada, o carateca estava lento, receoso demais em ser atingido e comtiming de resposta todo embaralhado.

O buraco físico pareceu infectar pra valer a parte técnica.

Confuso

BaggyDelectableDunnart-1O duelo de canhotos começou com Lyoto menos paciente do que o normal, mudando a postura de nível algumas vezes e tentando conectar socos retos característicos.

O melhor lampejo técnico veio quando acertou um direto de esquerda, angulou para a direita (escapando do cruzado em contragolpe do oponente) e colocou rápido soco de direita.

Ali, Lyoto Machida foi Lyoto Machida pela primeira e única vez no combate.

Em outras análises, comentei sobre uma das grandes armas de Rockhold em pé era a capacidade de contragolpear recuando, usando a grande envergadura e a inclinação do tronco e do passo diagonal para se desvencilhar do ataque, jogando simultaneamente um cruzado mais aberto de direita (o da frente da posição de luta) por cima do golpe adversário.

WelloffNewCuttlefishRecursos do tipo têm grande eficiência contra investidas bruscas misturadas a golpes retos (como jabs e diretos).

Contra Machida, novamente foi a marca registrada providencial do norte-americano para desenhar o monólogo da vitória.

Após ser atingido e ter de exibir vasto repertório defensivo para se defender das investidas de Rockhold no solo, o brasileiro recebeu forte cotovelada na parte de trás da cabeça (golpe polêmico?), levantou sedado e com o olhar vidrado.

O revés no segundo assalto parecia questão de tempo. O brasileiro voltou com o botão de sobrevivência ligado e nada mais, disparando chutes e socos a esmo, até ser finalizado.

Adendo (mais que) merecido

041715-12-UFC-Swanson-Holloway-OB-PI.vadapt.620.high.0Se esperávamos uma show de movimentação de Machida, quem roubou a cena neste quesito foi Max Holloway.

No combate contra Cub Swanson, o usou e abusou das trocas de bases para criar ângulos inusitados de ataque e embananar o adversário.

A ambidestria é um conjunto de habilidades que será o diferencial intenso a ser explorado pelas as novas gerações.

Foi uma daquelas atuações necessárias para maturar de verdade o estilo de um lutador.

Holloway colocou em prática boas variações de passos laterais e semi-diagonais, tanto em destro como canhoto, utilizando a envergadura superior para marcar com jabs, cruzados ou mesmo chutes giratórios em cada investida.

No momento mais bonito, encurtou mudando de base e desferiu dois hooks (ganchos) certeiros na linha de cintura.

O recurso foi tão bem utilizado que Swanson foi atingido sistematicamente e não encontrava espaço para contragolpes isolados, e acabou o combate severamente lesionado.

[Leitura de luta] A sina de Crocop sem as ‘Crocopadas’

Vingança é um prato que se come frio, certo? Nesse caso, gelado.

Quem aí curtiu a revanche entre Mirko Cro Cop e Gabriel Napão Gonzaga no UFC Polônia?

Errei meu palpite aqui no Sexto Round sobre quem venceria, mas até que me dei bem ao cravar que seria um desafio morno e fora de época.

No fim das contas, claro que o que vale é a vitória e o troco dado pelo croata após ser boçalmente nocauteado pelo brasileiro no longínquo UFC 70.

Mas dói na alma ver um ícone do K-1 e do Pride se apresentar tecnicamente tão desfigurado e confiante apenas no lastro de treino.

Mas isso pode render assunto para outro artigo. A seguir meu ponto de vista sobre fatos e feitos do main event de mais um evento em território europeu.

Ontem e hoje

PerkyIllustriousAfricanporcupineCro Cop é um lutador canhoto e pouco paciente para usar táticas mais avançadas que podem amenizar tudo que fica desajeitado quando se enfrenta um oponente destro.

Desde a época do K-1, seu jeitão de lutar é sempre direto ao ponto: mais plantado, semsetups ou malícias dinâmicas mirabolantes.

Basicamente, é calcado na filosofia do ‘one shot kill‘ (ou ‘morte com um tiro só’, em português).

Isso se traduz em sequências curtas, com menos volume e força total em cada golpe.

Na mais famosa, o ‘sniper’ croata cerca o adversário alguns instantes, planta os pés no chão e solta um chutaço alto com a perna esquerda.

São as famosas ‘Crocopadas’.

Um dos grandes problemas para atletas de estilo semelhante está na ação do tempo e tudo mais que pesa nos ombros conforme a idade avança.

Fatores como potência, velocidade e absorção de golpes são essenciais para desenvolver o pacote de habilidades completo.

Longe do auge e cada vez menos confiante nas marcas registradas clássicas, Cro Cop parece desconfortável em ação, sempre caçando o equilíbrio entre força e precisão.

ScratchyWigglyEyasMas vamos para a luta. Em pé, Napão repetiu um dos cacoetes das últimas apresentações.

Conforme fechava o cerco, postava os pés virados para dentro e angulando como se fosse arriscar um chute giratório a qualquer momento.

A intenção era apenas uma finta para disparar pesados overhands de direita.

Mesmo movendo-se de forma arriscada para a esquerda, ou seja, de encontro ao lado de onde vêm os golpes de direita (os mais poderosos de Gonzaga), Cro Cop se desvencilhou dos ataques com uma manobra usada desde os áureos tempos: ao perceber a entrada no raio de ação, ele esticou o braço direito e projetou o corpo para trás, criando distância valiosa para escapar e, se possível, criar espaço para um contragolpe imediato.

Quase sem trabalhar armadilhas para encurtar e fazer valer o grappling, Napão dominou as primeiras parciais.

Ele aproveitou a falta de mobilidade de Cro Cop para puxar ao solo sistematicamente e moldar ações a seu modo.

Montou algumas vezes e soube usar os módicos 116kg para neutralizar o croata, mas perdeu chances de executar um ground and pound mais visceral pela insistência em alternar vantagens com misturas entre montada e meia-guarda.

Aí também é interessante citar o bom trabalho e a frieza para ‘sair de baixo’ de Cro Cop, um dos grandes pesadelos de nove entre dez strikers que se aventuram nas artes marciais mistas.

Como o infight se tornou predominante com o passar do tempo, um clinch ditou o caminho para o fim.

WaterloggedForthrightGharialPressionando Cro Cop contra a grade, Napão parou um instante de ‘pesar’ – ou seja, impor pressão peito com peito, além de colar cabeça com cabeça e prender os braços do adversário, como manda a cartilha mais básica dos clinches no MMA.

O milésimo de segundo em que o brasileiro abriu espaço foi suficiente para o adversário soltar o pulso esquerdo e mandar uma forte cotovelada na têmpora. Começava aí a virada de jogo.

A cotovelada é a forma mais devastadora de criar dano em curta distância.

A mecânica do golpe exige projeção de ombro e quadril, mas a possibilidade de criar algo contundente mesmo sem estar com a base de luta estabilizada transforma golpes do tipo no recurso mais direto para amenizar sufocos quando o lutador está com o oponente bufando pesado e travando contra as grades. Foi um momento de grande tato.

Conclusão

Depois de tantos anos acompanhando combates nas mais diversas modalidades, uma coisa que me chama atenção quando analiso algum lutador recai sempre em alguns detalhes da expressão corporal.

Cro Cop faz cara de mal e se porta como manda o figurino do UFC, mas o semblante, as reações dentro do octógono e o nível de habilidades já são de ex-combatente.

Ele deveria ter pendurado as luvas quando a curva descendente da carreira começou a pesar, mas não o fez.

Voltou ao K-1 em 2012 e venceu o contemporâneo Ray Sefo em evento realizado na Croácia.

Mas também não parou. Agora, vindo de triunfo, um novo precedente está aberto. Pensa bem, Cro Cop.

[Leitura de luta] Lamas, a nova vítima de Chad ‘Porradão’ Mendes

A síntese wrestling/boxe ainda é denominador comum para muitos lutadores de MMA. Pode não colaborar para tornar o estilo mais vistoso e geralmente esbarra na mesmice, mas a eficiência dos que sabem usar o mix de modalidades com propriedade é algo inegável.

Chad Mendes é um deles. Oriundo da greco-romana, o peso pena unidimensional de outros tempos soube agregar habilidades e tem se tornado o power puncher mais devastador da atualidade entre os pesos pena do UFC. No Fight Night Fairfax, precisou de pouco mais de dois minutos para despachar o sempre bem preparado Ricardo Lamas com um calhamaço de golpes no ground and pound após desmontar o adversário com um preciso soco de encontro.

Mesmo com a luta abreviada pela via rápida, não há motivo para não analisar fatos e feitos, certo? Vamos nessa!

Trombada

LnT7RQkOs golpes de encontro sempre estão na manga dos strikers experientes.

Normalmente, o cacoete mais direto é usar a ‘trombada’ nos momentos em que acontece a retomada de distância após alguma troca de golpes mais intensa.

A potência é duplicada pela colisão e o peso todo do corpo empregado no soco, com o leve deslocamento da posição para ajudar no ângulo de ataque.

Variações são muitas. Lyoto Machida usa o guiaku tzuki clássico do caratê em linha reta com maestria.

Fora do MMA existem milhares de casos no boxe. Mas um dos exemplos clássicos que sempre me vêm à cabeça é o socão com passada que definiu o combate entre Ray Sefo e Jerome Le Banner no K-1.

Quem lembra? Um dos grandes motes que reforçam a sensação de renovação de estilo para Chad Mendes estão nos fundamentos de postura e movimentação.

O norte-americano usa passos curtos e alguns chutes isolados quando está distante dos oponentes.

3 uppercutCom postura ereta e guarda com os punhos voltados para fora (jeitão apelidado de‘mummy stance’, ou posição da múmia pelos gringos), ele controla distâncias movendo constantemente o ombro e ‘ciscando’ com o punho esquerdo (da frente da posição de luta) para criar pequenas fintas e manter o adversário sempre preocupado com alguma coisa.

De repente, se lança ao ataque de forma explosiva, criando uma barragem ofensiva de timing/contrapé bastante peculiar.

O melhor momento de Ricardo Lamas no desafio em Fairfax surgiu quando usou uma finta clássica do wrestling/boxe, semelhante à utilizada por Mendes no último combate contra Aldo.

Ele abaixou a posição e simulou um toque na coxa para imediatamente subir com um forte uppercut. A manobra bagunçou o reflexo do adversário e o acertou de raspão.

Em seguida, veio o lance que criou o começo do fim.

SafeWeeklyBergerpicard1 – Mendes fechou o cerco contra as grades, ameaçando atacar com o punho da frente.

2 – Lamas armou a defesa do golpe (que na verdade era apenas uma finta) e arriscou um cruzado de direita.

3 – Mendes fez a passada, angulou para a direita e o acertou de encontro com um mistão overhand/cruzado que explodiu entre a testa e a parte de cima do crânio. Lamas desabou.

Lamas não foi imprudente ao abaixar demais a cabeça no momento em que o soco explodiu em sua cabeça.

Nos golpes de encontro, você provavelmente perderá o adversário de vista por um milésimo de segundo, e o reflexo mais básico é tentar se encolher o máximo possível.

O problema é que uma pancada muito forte nessa região desnorteia pesado.

É semelhante a ser golpeado com força na região do ouvido, o que não ‘desliga’ como a ponta do queixo, mas danifica o senso de equilíbrio instantaneamente.

A partir daí, Lamas ligou o ‘zumbi mode’ e acabou derrotado.