[Leitura de luta] Mayweather, Pacquiao e todo pano pra manga

Com tanto bafafá e blábláblá envolvidos, é claro que o combate entre Floyd Mayweather Jr. eManny Pacquiao rende quilos e mais quilos de polêmica que não vão parar tão cedo.

Os requintes megalomaníacos que alimentaram o evento se traduziram em um resultado contestado por muitos.

Tudo bem que houve momentos mornos e abaixo do esperado, mas foi curioso ver que muita gente, mesmo supostamente abalizada, não captou qualquer insight de um duelo todo traçado no basicão do ataque e contra-ataque.

Como aqui a intenção é mais focada em destrinchar técnicas interessantes, segue meu ponto de vista sobre a tal ‘luta do século’.

Retroceder nunca?

RealisticWavyIriomotecatNão houve lá mudanças tão bruscas no estilo de ambos. Mas o desenho ‘espelhado’ – e invevitavelmente desajeitado – destro x canhoto dentro das características de ambos exigiu bons ajustes táticos e técnicos.

Mesmo lapidado por anos de treinos, Pacquiao ainda carrega nos punhos uma crueza natural instigante e que enche os olhos de forma mais direta.

Mayweather carrega a sina da vantagem subjetiva, via de regra entre os melhores contragolpeadores do esporte.

Muito se colocou em xeque o fato de o norte-americano ‘andar para trás’. Mas é a marca registrada mais forte de seu jeito de lutar.

Mesmo estando à mercê de margens interpretativas nem sempre confiáveis, nos esportes de combate existem diferenças entre fugir e recuar.

Se o primeiro termo configura puro antijogo, o segundo escancara o precedente de que é possível manter-se ativo e criar eficiência durante os recuos.

A receita defensiva de Mayweather é baseada no ‘shoulder roll’ ou ‘philly shell’, jeitão de lutar que demanda personalização intensa de fatores como reflexo e tempo de resposta.

É uma postura técnica em que o braço da frente (da postura de luta) é colocado sobre as costelas e cria-se um ‘escudo’ ao redor do queixo com a outra luva e o ombro.

O posicionamento lateral do tronco e as pernas mais abertas facilitam pêndulos, esquivas e respostas imediatas. O rosto relativamente descoberto funciona como isca.

Além dos pesados, precisos e multiangulados diretos de esquerda como fonte direta mais confiável (um senso comum entre canhotos), o que chama atenção em Pacquiao é o tempo preciso com que costura ataques usando o jogo de pernas.

Como manda o figurino contra destros, o que vale é posicionar o pé da frente (da postura de luta) por fora do pé da frente do oponente para que os ataques sejam melhores angulados.

OrnateFastAmericankestrelApós alcançar essa posição, ele solta uma sequência na qual o último golpe já é colocado acrescido de uma curta movimentação lateral, preparando naturalmente o corpo para o próximo combo, e assim sucessivamente até que resolva parar de atacar.

Contra Mayweather, ficou claro que quebrar o timing dos ‘shoulder rolls’ era um ponto-chave.

Assim que encurralava o adversário contra as cordas, Pacquiao esperava o adversário pendular para soltar uma saraivada de socos que geralmente começavam na média altura na tentativa de acertá-lo desguarnecido em plena manobra defensiva.

tumblr_nnrbyixlC81qzaoamo1_400Ao passar alguns momentos de sufoco com isso, Mayweather limitou-se algumas vezes a lacrar as luvas na frente do rosto para bloquear a investida e não dar sopa ao azar.

Em outras, usou rápidos ziguezagues para descalibrar o início dos ataques do filipino, respondendo com rápidos cruzados de esquerda e escapando lateralmente com grande habilidade.

Mas o melhor momento de Pacquiao veio no quarto assalto, quando defendeu um jab com a mão direita e explodiu em contragolpe com ótimo direto de esquerda.

Se o filipino aos poucos ia desperdiçando ataques importantes, que ora atingiam a guarda, ora eram evitados com esquivas, grande parte da gordura ofensiva do norte-americano – imprescindível para tecer o resultado final – começou a ser garantida com longos e potentes com jabs angulados debaixo para cima (chamados de up jabs), que variavam entre o rosto e o plexo do adversário, e surtiram efeito nas vezes em que o filipino ignorou ângulos entrou no raio de ação em linha reta, com jabs ou cruzados de direita, outra característica marcante em seu estilo.

Conclusões

Boxe não é uma ciência exata e como muitos esportes baseia-se em médias e denominadores da equação tentativa/acerto/eficiência.

A vitória de Mayweather foi clara, mesmo que a tal margem interpretativa de muita gente tenha beirado a alienação de torcer pelo mocinho ou pelo bandido.

Boxe não se resume a nocautes. Abra a cabeça. Sempre vai haver muita coisa interessante guardada em um duelo estilístico de alto calibre.

[Leitura de luta] O novo baile do Rei dos Moscas

Você pode ser um dos muitos que torcem o nariz quando veem pesos moscas em ação por diversos motivos, é questão de gosto pessoal.

Mas negar que Demetrious Johnson é um dos lutadores mais próximos da perfeição no (mais que) complexo conceito híbrido do MMA beira a heresia.

O campeão até 56kg do UFC despeja uma caixa de ferramentas técnicas em cada atuação em todas as áreas da luta.

Contra o japonês Kyoji Horuguchi, a receita ‘fio desencapado’ de striking e transições novamente foi colocada para jogo e mais um desafiante acabou engolido pelo volume boçal de golpes do Mighty Mouse.

Meu ponto de vista sobre essa e outros destaques do card a seguir.

Cerco constante

Já devo ter escrito em outros artigos que uma das características mais inerentes ao MMA moderno é a da ambidestria, ou seja a capacidade de ser eficiente equilibrando a base de luta entre destro ou canhoto.

Mesmo que isso acarrete sacrificar momentos valiosos em que ser mais direto ao ponto seria mais indicado, Demetrious Johnson é um dos caras mais habilidosos em mudar de base alucinadamente e manter a fluidez do jogo quase inalterada.

Postura serve para facilitar o corpo a disparar golpes.

Trocar muito de base pode bagunçar o centro de gravidade e eventualmente causar buracos e desequilíbrios perigosos que podem ser aproveitados por oponentes atentos.

CourteousScrawnyConureDesde o começo, Johnson virou destro e canhoto sucessivamente, sempre seguido de mudanças de nível e golpes dinâmicos.

A intenção foi deter ou confundir as investidas explosivas acompanhadas de uma rápida saraivada de golpes do desafiante, uma das referências mais claras do background como carateca.

Desta vez, Johnson mostrou evolução no trabalho de abreviar (cortar) espaços, criando e recriando ângulos de acordo com as reações do adversário.

A principal preocupação foi, sobretudo, evitar recuar demais em linha reta – uma das falhas mais costumeiras em seu estilo -, fato que seria fatal em algum momento frente ao pesado ímpeto do nipônico descrito no parágrafo acima.

Como diriam os treinadores mais old school: ‘recuar um passo para trás até que é aceitável. Recuar dois ou mais é morte na certa’.

ArcticAliveAmberpenshellComo não adianta apenas ficar ciscando na frente do oponente, o norte-americano mandou chutes pontuais e soltos para marcar ataques em boa parte das ações.

Quando Horiguchi ficava acuado e tentava circular, era pego com combos que geralmente começavam com cruzados de direita.

Essa foi a base de ataque mais direta do campeão, que em muitas vezes culminou em abafar o nipônico contra as grades.

Nos momentos de clinch, Johnson executou outra especialidade: as potentes joelhadas nas costelas ou plexo solar, que minaram gradativamente a resistência do oponente.

Com o nipônico já exaurido no solo na última parcial e o combate no solo, Johnson trabalhou a posição dominante até alcançar um crucifixo, passando por cima em seguida e fechando espaço sobre o braço de Horiguchi para pressurizar ao máximo a chave que lhe garantiria mais uma vitória com sobras.

Morno

471169444Fábio Maldonado passou três meses no Tio Sam para entender melhor o ‘mixed’ do termo MMA com a renomada equipe ATT.

Mas agregar e colocar habilidades novas em prática ainda requer tempo e a luta contra Rampage Jackson foi prova disso. Não é fácil mudar a personalidade marcial de um lutador de essência tão instintiva quanto o boxer paulista.

No geral, ambos se propuseram a trocar pancada franca e houve bons lances, mas a ação no geral foi morna.

Claro que por conta do lastro de experiência mútuo, vimos esquivas e ângulos interessantes de ataque e defesa.

Rampage disfarçou a falta de ritmo travando Maldonado contra as grades, e este não conseguiu capitalizar vantagens ou ataques em cima disso.

O curioso foi ver Maldonado passivo demais nos momentos de curta distância, um fato raro.

Quando pressionado nos clinches, além de travar os braços do oponente, o norte-americano virava o corpo de lado como se quisesse evitar ou amenizar potência dos famosos hooks(ganchos) na linha de cintura do brasileiro.

Pode não ser a tática mais indicada nesse caso, mas surtiu resultado.

Movendo bem o tronco e quadril para evitar golpes circulares (como cruzados e uppers), Maldonado pecou mais na média distância, onde engoliu muitos golpes retos (jabs, diretos).

Aplicou uma boa queda/varredura, mas não conseguiu achar um meio consistente para vencer.

Mais menções

InfatuatedIllustriousGilamonsterEm CB Dollaway x Michael Bisping, o desafio decretou outro exemplo claro de perda de meada tática.

O norte-americano começou melhor, aproveitando brechas defensivas clássicas do britânico: a de soltar combos curtos e depois recuar dois ou três passos displicente com a guarda.

Dollaway conectou bom cruzado de esquerda na hora em que o inglês começava a ‘andar para trás’.

Mas parou por aí. Em seguida, cansou demais, e quando acuado passou a tentar responder ataques com cruzados de esquerda em contragolpe, que em pouco tempo se transformaram em insistentes e telegrafados demais.

Bisping reverteu a desvantagem da primeira etapa, e se tivesse mais punch o combate não teria passado da metade do segundo assalto.

Thomas Almeida: técnica, calma e ‘calo’ em dia mais uma vez. Versátil e com grandes opções de quebra de ritmo do oponente nas trocas mais francas, onde executa boa variação de golpes em cima de contragolpes com ótimo timing.Nos  bastidores, Thominhas parece um cara de personalidade mais instrospectiva, o que geralmente é benéfico para lutadores ficarem ligados com os perigos do hype excessivo de momento.

Chad Laprise tem combos de socos e chutes justinhos e muito bem calibrados.

Ainda se abre demais em alguns contragolpes, como os com cruzados de esquerda, mas nada que não possa ser corrigido com repetições e mais repetições.

Chutes circulares com uso do quadril explodindo no final de cada patada, com base nítida nos estilos de caratê de contato, referência clara em muitos lutadores canadenses desde a era GSP.

[Leitura de luta] Como domar um Dragão, por Luke Rockhold

Há alguns anos, Lyoto Machida causava a pior indigestão técnica que qualquer um poderia enfrentar dentro do octógono. Mas como nada é eterno em um panorama tão competitivo quanto o das artes marciais mistas, a fama de grande enigma do UFC aos poucos foi diluída.

Exemplo a ser seguido no quesito artista marcial, o Dragão sempre buscou se reinventar aqui e ali para manter o alto nível de performances. Após ser embrulhado por Luke Rockhold – que diga-se de passagem, teve atuação brilhante e mérito total na vitória – no main event do UFC On Fox 15, o brasileiro computou a derrota mais sonora da carreira.

O batalhão de críticas foi instantâneo, e mais uma vez quem era ótimo ficou péssimo de uma hora para outra.

Não acompanhei de perto o camp de Lyoto Machida, então o que escrever aqui sobre causas e consequências será baseado em suposições e impressões.

Ele realmente parecia um tanto minguado fisicamente desde a pesagem, provavelmente em virtude de complicações ou sequelas do corte de peso.

O que sei é que a perda muscular excessiva neste processo tem sido um das preocupações de sua equipe desde o combate contra Chris Weidman, em julho do ano passado.

Machida ficou conhecido por dominar quesitos como velocidade e mudanças bruscas de direção em plena movimentação, fatores que compõem a coluna vertebral de seu estilo.

Na colisão contra Rockhold, um adversário longilíneo, chutador contundente e de sólidobackground na luta agarrada, o carateca estava lento, receoso demais em ser atingido e comtiming de resposta todo embaralhado.

O buraco físico pareceu infectar pra valer a parte técnica.

Confuso

BaggyDelectableDunnart-1O duelo de canhotos começou com Lyoto menos paciente do que o normal, mudando a postura de nível algumas vezes e tentando conectar socos retos característicos.

O melhor lampejo técnico veio quando acertou um direto de esquerda, angulou para a direita (escapando do cruzado em contragolpe do oponente) e colocou rápido soco de direita.

Ali, Lyoto Machida foi Lyoto Machida pela primeira e única vez no combate.

Em outras análises, comentei sobre uma das grandes armas de Rockhold em pé era a capacidade de contragolpear recuando, usando a grande envergadura e a inclinação do tronco e do passo diagonal para se desvencilhar do ataque, jogando simultaneamente um cruzado mais aberto de direita (o da frente da posição de luta) por cima do golpe adversário.

WelloffNewCuttlefishRecursos do tipo têm grande eficiência contra investidas bruscas misturadas a golpes retos (como jabs e diretos).

Contra Machida, novamente foi a marca registrada providencial do norte-americano para desenhar o monólogo da vitória.

Após ser atingido e ter de exibir vasto repertório defensivo para se defender das investidas de Rockhold no solo, o brasileiro recebeu forte cotovelada na parte de trás da cabeça (golpe polêmico?), levantou sedado e com o olhar vidrado.

O revés no segundo assalto parecia questão de tempo. O brasileiro voltou com o botão de sobrevivência ligado e nada mais, disparando chutes e socos a esmo, até ser finalizado.

Adendo (mais que) merecido

041715-12-UFC-Swanson-Holloway-OB-PI.vadapt.620.high.0Se esperávamos uma show de movimentação de Machida, quem roubou a cena neste quesito foi Max Holloway.

No combate contra Cub Swanson, o usou e abusou das trocas de bases para criar ângulos inusitados de ataque e embananar o adversário.

A ambidestria é um conjunto de habilidades que será o diferencial intenso a ser explorado pelas as novas gerações.

Foi uma daquelas atuações necessárias para maturar de verdade o estilo de um lutador.

Holloway colocou em prática boas variações de passos laterais e semi-diagonais, tanto em destro como canhoto, utilizando a envergadura superior para marcar com jabs, cruzados ou mesmo chutes giratórios em cada investida.

No momento mais bonito, encurtou mudando de base e desferiu dois hooks (ganchos) certeiros na linha de cintura.

O recurso foi tão bem utilizado que Swanson foi atingido sistematicamente e não encontrava espaço para contragolpes isolados, e acabou o combate severamente lesionado.

[Leitura de luta] A sina de Crocop sem as ‘Crocopadas’

Vingança é um prato que se come frio, certo? Nesse caso, gelado.

Quem aí curtiu a revanche entre Mirko Cro Cop e Gabriel Napão Gonzaga no UFC Polônia?

Errei meu palpite aqui no Sexto Round sobre quem venceria, mas até que me dei bem ao cravar que seria um desafio morno e fora de época.

No fim das contas, claro que o que vale é a vitória e o troco dado pelo croata após ser boçalmente nocauteado pelo brasileiro no longínquo UFC 70.

Mas dói na alma ver um ícone do K-1 e do Pride se apresentar tecnicamente tão desfigurado e confiante apenas no lastro de treino.

Mas isso pode render assunto para outro artigo. A seguir meu ponto de vista sobre fatos e feitos do main event de mais um evento em território europeu.

Ontem e hoje

PerkyIllustriousAfricanporcupineCro Cop é um lutador canhoto e pouco paciente para usar táticas mais avançadas que podem amenizar tudo que fica desajeitado quando se enfrenta um oponente destro.

Desde a época do K-1, seu jeitão de lutar é sempre direto ao ponto: mais plantado, semsetups ou malícias dinâmicas mirabolantes.

Basicamente, é calcado na filosofia do ‘one shot kill‘ (ou ‘morte com um tiro só’, em português).

Isso se traduz em sequências curtas, com menos volume e força total em cada golpe.

Na mais famosa, o ‘sniper’ croata cerca o adversário alguns instantes, planta os pés no chão e solta um chutaço alto com a perna esquerda.

São as famosas ‘Crocopadas’.

Um dos grandes problemas para atletas de estilo semelhante está na ação do tempo e tudo mais que pesa nos ombros conforme a idade avança.

Fatores como potência, velocidade e absorção de golpes são essenciais para desenvolver o pacote de habilidades completo.

Longe do auge e cada vez menos confiante nas marcas registradas clássicas, Cro Cop parece desconfortável em ação, sempre caçando o equilíbrio entre força e precisão.

ScratchyWigglyEyasMas vamos para a luta. Em pé, Napão repetiu um dos cacoetes das últimas apresentações.

Conforme fechava o cerco, postava os pés virados para dentro e angulando como se fosse arriscar um chute giratório a qualquer momento.

A intenção era apenas uma finta para disparar pesados overhands de direita.

Mesmo movendo-se de forma arriscada para a esquerda, ou seja, de encontro ao lado de onde vêm os golpes de direita (os mais poderosos de Gonzaga), Cro Cop se desvencilhou dos ataques com uma manobra usada desde os áureos tempos: ao perceber a entrada no raio de ação, ele esticou o braço direito e projetou o corpo para trás, criando distância valiosa para escapar e, se possível, criar espaço para um contragolpe imediato.

Quase sem trabalhar armadilhas para encurtar e fazer valer o grappling, Napão dominou as primeiras parciais.

Ele aproveitou a falta de mobilidade de Cro Cop para puxar ao solo sistematicamente e moldar ações a seu modo.

Montou algumas vezes e soube usar os módicos 116kg para neutralizar o croata, mas perdeu chances de executar um ground and pound mais visceral pela insistência em alternar vantagens com misturas entre montada e meia-guarda.

Aí também é interessante citar o bom trabalho e a frieza para ‘sair de baixo’ de Cro Cop, um dos grandes pesadelos de nove entre dez strikers que se aventuram nas artes marciais mistas.

Como o infight se tornou predominante com o passar do tempo, um clinch ditou o caminho para o fim.

WaterloggedForthrightGharialPressionando Cro Cop contra a grade, Napão parou um instante de ‘pesar’ – ou seja, impor pressão peito com peito, além de colar cabeça com cabeça e prender os braços do adversário, como manda a cartilha mais básica dos clinches no MMA.

O milésimo de segundo em que o brasileiro abriu espaço foi suficiente para o adversário soltar o pulso esquerdo e mandar uma forte cotovelada na têmpora. Começava aí a virada de jogo.

A cotovelada é a forma mais devastadora de criar dano em curta distância.

A mecânica do golpe exige projeção de ombro e quadril, mas a possibilidade de criar algo contundente mesmo sem estar com a base de luta estabilizada transforma golpes do tipo no recurso mais direto para amenizar sufocos quando o lutador está com o oponente bufando pesado e travando contra as grades. Foi um momento de grande tato.

Conclusão

Depois de tantos anos acompanhando combates nas mais diversas modalidades, uma coisa que me chama atenção quando analiso algum lutador recai sempre em alguns detalhes da expressão corporal.

Cro Cop faz cara de mal e se porta como manda o figurino do UFC, mas o semblante, as reações dentro do octógono e o nível de habilidades já são de ex-combatente.

Ele deveria ter pendurado as luvas quando a curva descendente da carreira começou a pesar, mas não o fez.

Voltou ao K-1 em 2012 e venceu o contemporâneo Ray Sefo em evento realizado na Croácia.

Mas também não parou. Agora, vindo de triunfo, um novo precedente está aberto. Pensa bem, Cro Cop.

[Leitura de luta] Lamas, a nova vítima de Chad ‘Porradão’ Mendes

A síntese wrestling/boxe ainda é denominador comum para muitos lutadores de MMA. Pode não colaborar para tornar o estilo mais vistoso e geralmente esbarra na mesmice, mas a eficiência dos que sabem usar o mix de modalidades com propriedade é algo inegável.

Chad Mendes é um deles. Oriundo da greco-romana, o peso pena unidimensional de outros tempos soube agregar habilidades e tem se tornado o power puncher mais devastador da atualidade entre os pesos pena do UFC. No Fight Night Fairfax, precisou de pouco mais de dois minutos para despachar o sempre bem preparado Ricardo Lamas com um calhamaço de golpes no ground and pound após desmontar o adversário com um preciso soco de encontro.

Mesmo com a luta abreviada pela via rápida, não há motivo para não analisar fatos e feitos, certo? Vamos nessa!

Trombada

LnT7RQkOs golpes de encontro sempre estão na manga dos strikers experientes.

Normalmente, o cacoete mais direto é usar a ‘trombada’ nos momentos em que acontece a retomada de distância após alguma troca de golpes mais intensa.

A potência é duplicada pela colisão e o peso todo do corpo empregado no soco, com o leve deslocamento da posição para ajudar no ângulo de ataque.

Variações são muitas. Lyoto Machida usa o guiaku tzuki clássico do caratê em linha reta com maestria.

Fora do MMA existem milhares de casos no boxe. Mas um dos exemplos clássicos que sempre me vêm à cabeça é o socão com passada que definiu o combate entre Ray Sefo e Jerome Le Banner no K-1.

Quem lembra? Um dos grandes motes que reforçam a sensação de renovação de estilo para Chad Mendes estão nos fundamentos de postura e movimentação.

O norte-americano usa passos curtos e alguns chutes isolados quando está distante dos oponentes.

3 uppercutCom postura ereta e guarda com os punhos voltados para fora (jeitão apelidado de‘mummy stance’, ou posição da múmia pelos gringos), ele controla distâncias movendo constantemente o ombro e ‘ciscando’ com o punho esquerdo (da frente da posição de luta) para criar pequenas fintas e manter o adversário sempre preocupado com alguma coisa.

De repente, se lança ao ataque de forma explosiva, criando uma barragem ofensiva de timing/contrapé bastante peculiar.

O melhor momento de Ricardo Lamas no desafio em Fairfax surgiu quando usou uma finta clássica do wrestling/boxe, semelhante à utilizada por Mendes no último combate contra Aldo.

Ele abaixou a posição e simulou um toque na coxa para imediatamente subir com um forte uppercut. A manobra bagunçou o reflexo do adversário e o acertou de raspão.

Em seguida, veio o lance que criou o começo do fim.

SafeWeeklyBergerpicard1 – Mendes fechou o cerco contra as grades, ameaçando atacar com o punho da frente.

2 – Lamas armou a defesa do golpe (que na verdade era apenas uma finta) e arriscou um cruzado de direita.

3 – Mendes fez a passada, angulou para a direita e o acertou de encontro com um mistão overhand/cruzado que explodiu entre a testa e a parte de cima do crânio. Lamas desabou.

Lamas não foi imprudente ao abaixar demais a cabeça no momento em que o soco explodiu em sua cabeça.

Nos golpes de encontro, você provavelmente perderá o adversário de vista por um milésimo de segundo, e o reflexo mais básico é tentar se encolher o máximo possível.

O problema é que uma pancada muito forte nessa região desnorteia pesado.

É semelhante a ser golpeado com força na região do ouvido, o que não ‘desliga’ como a ponta do queixo, mas danifica o senso de equilíbrio instantaneamente.

A partir daí, Lamas ligou o ‘zumbi mode’ e acabou derrotado.

[Leitura de luta] Demian e a suavidade dominante

Meus amigos, a edição mais propensa a narizes torcidos de um UFC na Cidade Maravilhosa até agora não deve ser lembrada daqui alguns meses, mas até que cumpriu tabela de forma satisfatória.

Para o contento geral da nação grappler, tivemos um festival de finalizações, além de uma lição de dominância na arte suave promovida por Demiam Maia, que faturou a vitória em cinco rounds após neutralizar e moldar Ryan LaFlare de forma monstruosa no chão.

O que vocês conferem a seguir é a minha visão livre sobre chaves, passagens de guarda, imobilizações.

Não sou propriamente o cara mais indicado a isso, mas como estamos em plena era do MMA moderno – e sou viciado em toda e qualquer ciência de luta -, é preciso ‘jogar nas onze’, certo? Vamos lá.

Na mesma dimensão

SnappyWiltedBlowfishNo MMA moderno, Demian Maia é um tipo de ‘último dos moicanos’ entre os lutadores de essência unidimensional que ainda obtém sucesso dentro das oito paredes.

Seu jiu-jitsu é tão vasto que o possibilita controlar ações usando os recursos do ground and pound de forma reduzida.

O padrão em pé de Maia é elaborado para abrir brechas para o grappling e facilitar ostakedowns. Óbvio.

Mas se entre os médios o lutador fez um esforço monumental para ser um striker mais lapidado – e muitas vezes pagou o preço disso via descaracterização técnica -, na divisão até 77kg o paulista contenta-se em ser funcional, com movimentação simples, jogo ofensivo voltado da média para a curta distância, trocas de níveis constantes, muitos jabs fintados e diretos ou cruzados de esquerda ocasionais.

Mesmo sob a visão mais simplista exigida nas adaptações para o MMA, o jiu-jitsu é uma modalidade ‘chata’ nos detalhes.

Um bom repertório calcado nas variações do básico é essencial, e as lições no mundo sem pano e das luvas de quatro onças (que modificam pegadas e encaixes) é o clichê de sempre: a pura expertize economiza esforço e cria vantagens substanciosas.

FatherlyDimpledBangeltigerExemplos disso apareciam quando o brasileiro cravava a meia-guarda e esperava a reação deslocar o quadril (ou fazia o ‘camarão’, como se diz o jargão) para reestabilizar rapidamente a posição e usar a perna esquerda do adversário como ponte para progredir até a montada.

Nos primeiros três assaltos, Maia silenciou o adversário tecnicamente com variações do recurso descrito acima.

Ele só relutou nas tentativas de finalizações, com tentativas tímidas de kimurakatagatame.

No geral, esperava mais do norte-americano. LaFlare tem como principal setup mandar um cruzadão de esquerda para em seguida atacar com single legs.

Mas com o timing totalmente embaralhado, cometeu erros que facilitaram – e muito – o trabalho de Maia de colocá-lo na horizontal.

Diversas vezes ele tentou envolver o pescoço do adversário de qualquer forma durante as investidas, desestabilizando a postura e anulando qualquer chance de criar espaço para evitar o giro de clinch do paulista, que alcançava o solo com a meia-guarda já engatilhada.

Rapidão

CircularUnripeCardinalKevin Souza precisou de pouco tempo para descolar um nocautão clássico contra o japonês Katsunori Kikuno, um misto de carateca paradão e porralouca que tem ignorado o fundamento guarda e dado muita sopa para o azar.

Com vasto handicap de envergadura, o brasileiro abusou da sagacidade.

Encurralou o oponente mudando de níveis, primeiro ciscou para a esquerda e depois soltou um diretaço de direita angulando para a esquerda.

Tão óbvio e tão eficiente.

[Leitura de luta] Quanto vale (acabar com) o show?

Não foi uma surra bíblica, mas teve um climão mais maquiavélico, se é que vocês me entendem.

Sim, temos um novo campeão dos leves! Surpreendente? Sem dúvida. E cá entre nós, meus camaradas: que lavada.

Tudo bem que Rafael dos Anjos entrou credenciado para o combate contra Anthony Pettis noUFC 185. Mas nem o sujeito mais otimista poderia prever um monólogo tático tão acentuado sobre um dos campeões mais talentoso da atualidade.

Nesta que foi a empreitada mais cascuda da carreira, o ‘conjunto movido à dedicação’ novamente foi o combustível que permitiu o brasileiro manusear completamente a dinâmica do combate durante 25 minutos.

Vamos dar uma olhada mais de perto.

Cartas na mesa

EarnestLightIsopodRafael dos Anjos não segue nenhuma fórmula fora do comum, mas seu estilo tem apresentado poucas rebarbas.

Ele é totalmente incisivo no começo dos rounds, sem fugir de qualquer troca de golpes de igual para igual. Da metade para frente – ou mesmo antes, quando fareja alguma brecha – modifica a dinâmica dos golpes e visa setups(preparações) para o grappling.

A noção de isometria é pesada, mas ao mesmo tempo parece natural.

Personalizada com o misto de instinto e funcionalidade já característico dos atletas de ponta da Kings MMA, a tática parece simplista, mas surte o efeito desejado apenas se os fundamentos e transições de striking/grappling estiverem perfeitamente balanceados.

Dos Anjos não é um lutador repleto de marcas registradas ou diferenciais. Então nada vai funcionar na prática se um dos setores estiver ‘mais ou menos’.

Famoso pela versatilidade, Pettis mais uma vez recuou quase o tempo até ficar com as costas perto da grade do octógono (como havia feito no combate contra Gilbert Melendez), aceitando a pressão e tentando contragolpear apenas com cruzados de direita.

SevereBogusAfricanrockpythonAos poucos, excesso de confiança e falta de inspiração se confundiam.

Usada em outros combates como recurso para golpes acrobáticos, as grades do octógono desta vez foram o começo do fim para o norte-americano. No final da primeira etapa, o Showtime já bufava pesado.

O pacotão de striking que o brasileiro trouxe para o desafio estava bem definido.

O primeiro passo foi o mais simples: avançar, aguardar o recuo – e a possível iniciativa do oponente – para despejar sequências de até cinco golpes.

A partir daí, aproveitar as saídas laterais do norte-americano para acertá-lo no contrapé.

Canhoto, Dos Anjos usou fortes chutes médios de esquerda como boas-vindas no começo do combate, aproveitando a movimentação insistente do adversário para a direita, ou seja, de encontro a seus golpes mais fortes.

Quando Pettis resolveu circular para o outro lado (direito), foi atingido com rápidos jabs e combos hook/cruzado de direita.

Aliás, o primeiro soco conectado pelo brasileiro foi crucial para ditar a dominância no restante da luta.

Dos Anjos mandou forte cruzado de esquerda no supercilho do norte-americano. A parte de cima do olho inchou, metade da visão periférica ficou prejudicada e a confiança de Pettis – longe do auge naquela noite – começou a minguar.

Agressão prudente

Pettis se mostra letal quando domina ações da média para a longa distância. Isso se traduz em rápidos socos e fintas seguidos de chutes potentes disparados nos mais diversos formatos.

Falha mais visível de movimentação em combates recentes, o carioca recuou bem menos desta vez.

Após a maioria dos ataques, Dos Anjos dava apenas um leve passo para trás se atacado, mas prontamente se postava e seguia o cerco ao oponente, aliviando as chances de ser atingido pelo chutes que Pettis tanto gosta de mandar quando os adversários retrocedem demais.

O norte-americano foi desleixado e ineficaz quando pressionado. E viu o caldo entornar conforme o tempo passava.

Conclusão

A lição principal que ficará por algum tempo é que qualquer estilo de luta, por mais intimidante que possa parecer, é passível de falhas a serem exploradas.

Durante 25 minutos, Dos Anjos desbancou Pettis da condição de gênio e o transformou em um lutador normal. Agora, entra para a história como o primeiro brasileiro a ser campeão em uma das divisões mais povoadas e complexas do UFC. O carioca pode não ser o detentor de cinturão mais perfeito e carismático da organização.

Mas sabe cada vez mais tirar proveito do caráter multidisciplinar da modalidade para atestar os atributos com uma mistura técnica e tática forjada a sangue, suor e treino duro.

Desta vez, valeu muito mais que confiar apenas no ‘berço’.