[Leitura de luta] Ronda procura, Ronda destrói

Não há dúvida que o climão do Rio de Janeiro inspira os lutadores dentro do octógono. O UFC 190 contou com grandes momentos e mais uma exibição de gala de Ronda Rousey.

A campeã peso galo afastou a previsibilidade, repaginou a dinâmica visceral de jogo e nocauteou a brasileira Bethe Correia em menos de um minuto.

Performances e técnicas devidamente desconstruídas, pra já. Ou como se diz em terras cariocas: já é!

34s

dont-cry-2Na entrevista pós-luta, Ronda afirmou que desta vez o plano era remexer a tática, com iniciativa maior de golpes da média para a curta distância até fazer com que a adversária caçasse o clinch e caísse noinfight pesado, principal armadilha da campeã.

Ela realmente se soltou mais nos primeiros instantes, mas o instinto de prender a cabeça da oponente com o braço esquerdo – seja para fazer um headlock, seguir com o dirty boxing e consequentemente desenhar alguma queda de quadril – mais uma vez esteve presente.

Com Bethe de costas na grade, Ronda variou a altura dos socos em alta velocidade, com destaque para as bombas em formas de hook/cruzado de esquerda, até cravar o clinch na posição canhota e desferir forte joelhada no plexo da brasiliera, que estatelou os olhos, acusou o golpe e começou a sair para a esquerda.

A norte-americana então fechou o ângulo, tocando com mais cruzados de esquerda até conseguir espaço perfeito para desferir o direto de direita derradeiro.

Brutal.

Bom revival

GivingCavernousAmbushbugE não é que o prato que muitos esperavam morno veio fumegante. Maurício Shogun e Rogério Minotourotravaram batalha campal e tática de primeira. Claro que o tira-teima no Rio não superou o primeiro encontro bombástico no Pride, em 2005.

Mas a impressão de ‘nada mal’ permaneceu até o resultado final.

Da mesma forma que há uma década, o que tornou este canhoto x destro tão franco foi a opção de ambos em não ‘ganhar’ o pé da frente (posicioná-lo por fora do pé do adversário) para criar um ângulo mais adequado de ataques e defesas.

Tanto Shogun quanto Minotouro apostaram em investidas diretas no raio de ação, o que expõe muito mais os lutadores a serem atingidos e amplia a imprevisibilidade geral.

Em melhor forma física e com tempo de resposta anos-luz mais afiado do que nas últimas apresentações, Shogun tomou o centro do octógono para pressionar o adversário para colocar alguma pedrada no momento em que recuasse.

ad.jpg-00E a marca registrada mais forte foram os chutes médios de direita, usados durante os três assaltos. Por causa da posição espelhada (destro x canhoto), golpes do tipo ganham em contundência, já que uma canelada bem dada atinge a área plexo/costelas de forma inteiriça.

O choque constante das mãos da frente também anulou boa parte das tentativas de jabs e fez o combate ganhar timing especial.

Shogun tomou a maioria das iniciativas no‘hand fighting’, tocando o punho de Minotouro quase o tempo todo para deslizar algum soco de carga bruta. Destaque para os onipresentes cruzadões de esquerda.

Blitz de Rogério

Mesmo com o tronco parado demais nos momentos ofensivos Minotouro descontou na boa movimentação evasiva e se mostrou defensivamente mais seguro quando a coisa esquentava, dosando melhor a pressão ofensiva com os bons golpes retos característicos.

No melhor lance, saiu do raio de ação em diagonal e mandou um direto de esquerda que atingiu a têmpora do adversário e o fez sapatear pelo octógono. Acuado, Shogun mostrou contragolpes calibrados usando a malícia técnica do pendula/golpeia sucessivamente.

Curioso mesmo é ver como os camps com Rafael Cordeiro transformam o brio e a expressão corporal do lutador paranaense.

Shogun atua como se quisesse impressionar o mestre o tempo todo, injeção de ânimo pura. Alguém ainda tem dúvida de que a Kings MMA tem de ser lar fixo para o curitibano?

Outras menções

Stefan Struve: A torre holandesa deu mostras de que vai usar melhor a envergadura monstruosa daqui para frente, consequência dos treinos com Henri Hoft.

A receita simples de jabs, chutes frontais e low kicks foi suficiente para anular um Rodrigo Minotauro ainda puro coração, mas em condições técnicas/físicas totalmente discutíveis.

Claudia Gadelha: O estilo Nova União impregnou na brasileira pra valer contra Jessica Aguilar. Mãos rápidas com poder de nocaute, tempo de resposta justo, quedas nos momentos certos, chão alinhado quando preciso. O tira-teima com a campeã das palhas promete.

Demian Maia: O senso de isometria mais natural e perfeito do esporte, disparado. Uma verdadeira masterclass de arte suave adaptada ao MMA contra Neil Magny.

[Leitura de luta] O novo show de TJ Dillashaw, o mestre dos ângulos

Se na primeira luta parecia que Renan Barão havia se armado de uma faca para enfrentar umTJ Dillashaw portando um fuzil, a revanche no UFC on Fox 16 foi ligeiramente mais equiparada.

Mas a meada tática confusa do brasileiro e o desfecho bombástico no quarto assalto deixou um climão de ‘mais do mesmo’ que prorrogou por mais algum tempo a condição de melhor do mundo para o peso galo norte-americano.

> Siga o Blog no Twitter:@cascagrossablog
CURTA o Casca-Grossa no Facebook

No período pré-luta, Barão parecia mais consciente dos perigos que o oponente traria. Mas no geral, faltou provar que havia tomado nota de cada erro cometido no primeiro desafio e se esmerado em corrigi-los.

Da mesma forma que no compromisso travado há mais de um ano, o norte-americano pareceu estar sempre um ou dois passos à frente tecnicamente, esbanjando vasto repertório de fintas e inteligência de luta.

Vamos ao que interessa.

Volume no talo

tumblr_ns3f6zPNxq1uymb4eo2_400Um dos melhores caminhos para confrontar um adversário com volume de golpes e criatividade tão acentuados como Dillashaw é apostar na potência como principal medida de contenção, ou traduzindo para o jargão ‘lutadorístico’ mais direto, ‘bater pesado e mais isolado para o cara ficar intimidado sempre que tentar se soltar’.

Com isso na cabeça, Barão teve relativo sucesso ofensivo em alguns momentos, sobretudo nas duas primeiras parciais. Faltou dosar melhor a explosão dos ataques, distribuindo-os em uma tática geral mais pontual e menos desgastante.

Há muita responsabilidade sobre as costas em um combate desse porte, não é fácil manter o foco do que foi treinado no meio de tanta adrenalina. Mas querer definir logo primeira parcial contra um dos caras mais dinâmicos do esporte foi um grande tiro no pé.

No final da primeira etapa, Barão já começava acusar o cansaço pela intensidade desmedida usada logo de cara. Aí foi se frustrando conforme os assaltos passavam e viu Dillashaw ampliar vantagens a cada parcial com

TastyKaleidoscopicJapanesebeetleÉ impressionante ver como o campeão desenha e redesenha possibilidades o tempo todo com o jogo repleto de fatores elusivos, condicionando adversários ao erro com fintas, ângulos, passadas e trocas constantes de base.

A ambidestria personalizada foi igualmente essencial para confundir as ações do adversário. Desta vez, Dillashaw priorizou atuar como canhoto, mas repaginou a dinâmica de costume nesta posição com muito mais ataques do que contra-ataques.

Os jabs com a direita foram as boas-vindas que burlaram o timing de resposta e incomodaram Barão pra valer. Mas outras variações nos combos mais marcantes do norte-americano mostraram tato e perícia acima da média.

Detalhes interessantes:

1 – O campeão se aproximava de Barão com as mãos baixas, para o adversário ficar tentado a aplicar algum golpe.
2- Ao primeiro reflexo contrário, Dillashaw se antecipava, disparando um golpe reto (como um direto de esquerda ou chute baixo) que acertava o alvo e já engatilhava a sequência da ação.
3 – Ao ser atingido, Barão esticava o braço esquerdo ou tentava responder com algum soco; Dillashaw então seguia o movimento, angulando por fora (para a direita) ao mesmo tempo em que deixava um cruzado de direita por cima do ataque.
4 – (Variação) Se Barão recuasse demais ao invés de ficar parado após o primeiro golpe conectado, Dillashaw trocava a base para destro quase simultaneamente, para em seguida esquivar dentro do raio de ação e seguir com golpes retos.

Desgaste

tumblr_ns3f6zPNxq1uymb4eo5_400O jogo de isometria do campeão quando o combate descambou para as grades foi outro fator que acelerou a drenagem de energia do potiguar.

Nesse tipo de situação, o campeão posicionava a cabeça contra o peito e fazia uma alavanca com a força das pernas/lombar para se debruçar sobre Barão e forçá-lo a gastar força de tração muscular o tempo todo para não ser levado ao solo ou golpeado.

No quarto round, um Barão já exaurido teve raça para suportar castigo severo.

A definição veio com uma sequência avassaladora de mais de 30 socos (na minha contagem, pelo menos 23 acertaram). E Dillashaw segue o reinado até 61kg.

Sem piscar

Edson Barboza x Paul Felder foi outro lutão ao melhor estilo lá e cá. Em desafios parelhos entre strikers de elite como esse, a média tentativa/aproveitamento – subjetiva muitas vezes para os menos iniciados -, funciona como definidor de resultado.

O brasileiro se impôs pra valer da média para a longa distância, evitando o fogo cruzado e garantindo vantagens ao alcançar mais vezes o alvo com golpes em diferentes níveis.

O americano – descendente de irlandeses- foi páreo duro o tempo todo, mas parou mais vezes na guarda do adversário ou desperdiçou chances no vazio, além de parecer mais preocupado em impressionar – ou devolver na mesma moeda os golpes plásticos característicos do brasileiro – do que propriamente ser eficiente.

Os potentes chutes de esquerda (com a perna da frente da posição de luta) novamente foram a base de ataque mais intensa no jogo do carioca.

Ele usou pelo menos três variações do golpe, atirando médios ou altos após rápidos steps, ou o alto em contragolpe a um jab ou direto.

6ia1s0_jpgMais!

No festival de golpes giratórios que permeou a luta, Barboza tentou duas vezes acertar as pernas do adversário com ‘spinning low kicks’, golpe pouco ortodoxo, imortalizado no K-1 pelo carateca suíçoAndy Hug e raramente usado no MMA.

Pena que as patadas do carioca ou passaram longe ou quase racharam a coquilha do oponente no meio.

[Leitura de luta] Leites e os problemas da evolução

O fato de o MMA ser um esporte híbrido o coloca na condição de fascinante com frJab de Bisping entrandoequência. Um striker de origem que se destaca como grappler (e vice-versa) arruma sempre um lugarzinho na memória dos fãs casuais e especialistas.

Na prática, essa condição também caminha ao lado dos problemas causados em equilibrar a máxima reinvenção/descaracterização.

Thales Leites travou um desafio parelho contra Michael Bisping no main event doUFC Escócia. Carente de marcas registradas relevantes, o aspecto tático pendeu como principal termômetro pra definir triunfo e derrota. Famoso às do jiu-jitsu da Nova União, o brasileiro mais uma vez mostrou méritos confiáveis em pé, mas faltou, digamos, ‘amalgamar’ habilidades para quebrar o timing do britânico nos momentos certos e evitar ser engolido pela fórmula movimentação/precisão do oponente.

Li em algum lugar que essa luta pode ser ‘chamada de interessante, mas não propriamente empolgante’, e acho que é bem por aí. Vamos para mais uma leitura livre sobre fatos e destaques técnicos.

Confiável

Não é novidade que Bisping aposta pesado em estratégias longas como caminho mais viável para amenizar a falta de poder de nocaute. Além do preparo físico (mais que) em dia, não é segredo que para uma receita deste tipo surtir o resultado esperado é preciso:

1 – Impor o ritmo e desgastar o adversário inteligentemente, forçando-o a o perseguir pelo octógono.
2 – Criar gordura ofensiva com jabs e outros recursos dinâmicos, como chutes na parte interna das pernas ou frontais.
3 – Quando os dois setores acima começarem a fazer efeito, ter percepção suficiente para ser mais incisivo em momentos oportunos.

Aos poucos, esse ‘vai não foi’ causa um tipo de osmose que passa confiança ao adversário. E a meada estratégica vai por água abaixo.Uma das falhas clássicas do europeu está justamente em demorar demais para soltar algum golpe definidor durante as ações, ou seja, os disparados por braços ou pernas que vêm do lado mais forte da postura de luta (no caso, o direito).

O passo mais direto para brecar um cara dominante no volume de jogo é focar em golpes potentes e mais isolados, além de apostar na antecipação para intimidar e evitar ser ‘engolido’ pelas iniciativas contrárias.

Leites conseguiu enquadrar Bisping em diversos momentos aproveitando essas ‘panes’, mas a inabilidade em ‘ancorar’ a posição ao aplicar socos mais curtos nas blitzes facilitou as defesas e escapes laterais do britânico.
Thales não perde um dos cacoetes mais comuns dosgrapplers de origem. Ele toma o centro do octógono e o adversário na tentativa de visualizar a melhor brecha para um possível bote para agarrar e tentar levar o combate ao solo.

Nas últimas apresentações do brasileiro, foi vísivel que a maior confiança em golpear facilitou o jogo declinches.

Fora uma tentativa quase bem sucedida na primeira parcial, quando deitou o combate e pegou as costas – mas não evitou que o adversário levantasse -, contra Bisping isso ficou pelo caminho conforme os rounds passavam e também em virtude dos méritos do inglês na mudança do desenho do combate.

De acuado, passou a acuar e cercar contra as grades, atestando o volume de jogo pra valer até o final.

Ponderações

Há alguns anos e ainda como peso médio, Demian Maia se esforçou como nunca para virar um ‘trocador’ (não gosto muito dessa palavra) de primeira linha, fato que também acabou embananando seu estilo geral e o levou a revalorizar conceitos dentro do próprio conceito de origem – no caso, o mesmo jiu-jitsu – para voltar a ter atuações sólidas.

É preciso tomar cuidado com as armadilhas da evolução. Ganhar confiança em um setor não acarreta em, necessariamente, esquecer de outro. Não dá para crucificar Leites por qualquer suposta falha de estratégia.

São coisas de momento, de tato de luta e de administrar situações dentro do octógono e com os nervos à flor da pele. Mas o brasileiro deixou a sexta vitória consecutiva escapar, muito provavelmente por não apostar nos detalhes do que faz de melhor quando era o melhor caminho a ser tomado.

Fica a lição.

Encaixes de McGregor x Mendes

Adversário mudado, tipo de chumbo trocado idem. José Aldo saiu e Chad Mendes entrou pela janela na disputa principal do UFC 189 contra Conor McGregor.

Táticas específicas de acordo com cada oponente geralmente começam a ser traçadas no último mês de preparo. Focado em uma estratégia para encarar o brasileiro, o irlandês foi obrigado a modificar às pressas alguns detalhes do que pretende colocar em ação no octógono dia 11.

Com o turbilhão de possibilidades técnicas remexido, lá vai meu ponto de vista livre sobre o que espero do desafio.

Esquerda, volver!

O desenho espelhado canhoto x destro aliado às características no striking de ambos deve criar uma batalha palmo a palmo pela dominância no flanco esquerdo.

Isso se traduz basicamente nos diretos de esquerda do irlandês versus os cruzados de esquerda do norte-americano.

Como convém em situações do tipo, quem for mais astuto e conseguir ‘ganhar’ mais o pé da frente (da postura de luta) – ou seja posicioná-lo por fora do pé do adversário – ameniza a neutralização de ângulos e se mantém mais confortável para aplicar melhores ataques e escapes.

BoilingFavoriteGonolekSe levarmos em conta a mecânica dos movimentos, a teoria certamente afirmará que um golpe reto (direto) tem a capacidade de alcançar um alvo mais rápido do que um golpe com o braço curvado (ou seja, como o cruzado).

Mas o grande lance está no formato e no caminho pelo qual cada habilidade é executada. Caímos então nos bons, velhos set ups de preparação.

A versatilidade nos chutes em gancho, giratórios e com salto pode chamar mais atenção, mas o conjunto de habilidades do europeu visa quase sempre deixá-lo em condições de soltar os socos de esquerda, a marca registrada mais forte no boxe.

Ele gosta muito de usar os diretos de esquerda em contragolpe recuando ou por cima dos diretos de direita do adversário após deslocamento curto em diagonal, manobra chamada por muitos de ‘mola’ ou ‘pistão’.

Chad-Mendes-Knockdowns-Jose-Aldo-UFC-179Há alguns anos, Mendes era apenas um golpeador funcional. Mas o trabalho diferenciado de drills (combinações) e sparring do treinador Duane Ludwig na Team Alpha Male fez ‘cair a ficha’.

O norte-americano agregou habilidades ao poder de wrestling e tornou-se um striker confiante, com velocidade monstruosa de respostas e grande poder de nocaute.

Contragolpes com a mão da frente são tradicionais e sempre traiçoeiros pela simplicidade e possibilidade menor de telegrafar movimentos.

Os overhands de direita do norte-americano são os golpes de carga bruta mais perigosos, mas cruzados de esquerda têm se mostrados letais quando usados no timing certo após cobrir-se (bloqueio usando os antebraços sobre o rosto) e visualizar brechas imediatas.

Isso pode ser efetivo se usado com inteligência para pegar McGregor de encontro quando este angula e golpeia com o direto.

Caçada

Outro fato a ser levado em conta recai em aspectos óbvios. McGregor estará muito mais suscetível a ser quedado do que seria na disputa contra Aldo.

FaroffZealousChuckwallaMendes não teve tempo hábil de fazer um camp completo, assim a estratégia básica pode realmente pender para o que ‘originalmente faz de melhor’ – no caso, o wrestling – em momentos de emergência.

É algo instintivo e personalizado em cada lutador, sempre conectado à memória muscular e lastro de treino.

Mendes é um dínamo nas entradas de quedas, sobretudo nos double legs, mas também desenha bons ‘fakes’ (fintas) a partir disso.

PartialEnergeticCrustaceanA técnica mais comum é quase senso comumentre os atletas da Team Alpha Male: a mudança de nível para o infight com um leve toque na perna do adversário como finta para condicioná-lo a pensar que será agarrado, seguido de um violento soco, geralmente emuppercut.

A postura alongada de McGregor e a proximidade de uma perna com a outra no destro x canhoto também pode parecer um convite aberto aos takedowns.

Por outro lado viabiliza ao europeu baixar o centro de gravidade de forma mais instantânea, o que pode evitar arremessos indesejados ao solo se estiver com o timing defensivo em dia.

Além de uma diferença significativa de envergadura, o irlandês se movimenta de forma muito mais espontânea e repleta de passos amplos, conseguindo assim mais imprevisibilidade nas esquivas e saídas do raio de ação.

Conclusão

Claro que após tanta promoção e blablablá, mal podia esperar para ver Aldo em ação, mas McGregor x Mendes também tem potencial para grandes momentos.

O empecilho do norte-americano está no tempo escasso de preparo, o do irlandês no fato de que até agora não encarou nenhum oponente com estilo de striking/grappling tão bem amalgamado quanto o de Mendes, além de se submeter a ajustes táticos de última hora.

McGregor é um golpeador criativo e competente, mas se esforça em ser o canalha folclórico tradicional no mundo das lutas, o cara que todos amam odiar.

Alheio a qualquer clichê, sábado ele terá a grande chance para colocar todos os pingos nos ‘is’. Quem aposta?

[Leitura de luta] Dragão novamente abatido

Sem pujança nem capacidade de definir o combate com um ou dois golpes precisos, Lyoto Machida novamente esteve distante do lutador diferenciado que fez história quando entrou no octógono para encarar Yoel Romero no main event do UFC em Orlando.

Com uma cirurgia recente no punho esquerdo sem tempo hábil de recuperação como agravante, o brasileiro foi ousado para aceitar um desafio de risco apenas dois meses após ser finalizado por Luke Rockhold.

Mas a lição de superação que muitos esperavam logo se transformou em outra noite a ser esquecida pelo carateca, que acabou nocauteado no terceiro assalto e agora forçado a ficar um bom tempo no estaleiro por causa das sequelas adquiridas com a cara amassada por socos e cotoveladas. Vamos aos fatos:

Pouca roupagem

Machida_Ortiz_kneeMachida começou ciscando e apostando em fintas seguidas de esboços de movimentação lateral. Semelhante ao que apresentou contra Rockhold, mais uma vez pareceu ‘retilíneo’ demais.

O grande sucesso nas (muitas) atuações contra wrestlers em outros tempos foi a utilização brilhante de variações adaptadas do tai sabaki, um estilo de movimentação de origem no caratê, que consiste em golpear em pleno deslocamento e terminar os ataques sem deixar o quadril paralelo ao dos adversários, diminuindo assim as chances de ser agarrado e levado ao solo.

Outros dois fatores também colaboraram indiretamente para limar os famosos handicapsevasivos do carateca: o octógono ser 40% menor (o UFC tem mudado as dimensões do cage de acordo com o tamanho das arenas), além de Romero ser canhoto.

Isso mesmo. Canhotos provavelmente treinam e enfrentam 70% de destros e 30% de ‘esquerdinhas’ durante a carreira. No fim das contas, é muito mais desconfortável – e falo isso por experiência própria – um canhoto ter pela frente outro com a mesma postura.

Machida é conhecido pela movimentação solta e multilateral. Mas desta vez penou para criar bons ângulos de ataque. O desenho de bases encaixadas eliminou o choque constante dos punhos da frente entre os oponentes (como acontece no desenho canhoto x destro).

Romero aterrissando o punho esquerdo

Já que ‘cutucar’ o punho do adversário frequentemente não surtia bom efeito para visualizar brechas ou facilitar escapes quando preciso, ele inicialmente apostou em chutes soltos com a perna direita (a da frente da posição de luta) para controlar melhor as distâncias.

Há alguns bons lampejos, mas ainda considero trabalho com a perna da frente subutilizado no MMA. Imprescindível na tática de strikers versáteis e clássicos, esse tipo de técnica funciona basicamente como fator-surpresa repleto de dinâmica.

O problema é que a tendência dessas habilidades é tornar o atleta previsível no decorrer do combate se não forem seguidas de algum golpe de carga em momentos oportunos.

Ou seja, pode ser usada uma ou duas vezes para atrair atenção e condicionar a defesa adversária, mas na terceira, por exemplo, é indicado um complemento forte para tornar o ataque mais intimidador e restartar o timing.

Machida hesitou demais nesse sentido, talvez por causa das consequências da cirurgia no punho, e nas poucas boas chances que conseguiu, limitando-se a usar o recurso de forma isolada.

Quedou, ferrou

QuarrelsomeNeedyCrayfishMesmo um tanto distante de ser exemplo de mostrar estratégias polidas, Yoel Romero foi sábio em cadenciar os momentos de explosão a luta toda.

Ele aproveitou o espaço reduzido para cercar o carateca e postou-se como um boneco na frente de Machida para obrigá-lo a sair do elemento confortável dos contragolpes e assim forçá-lo a tomar iniciativas.

Ao contrário do Dragão, que se embananou um pouco para angular e atacar, o Soldier of God não teve tanto problema em desenvolver o jogo mais incisivo e direto ao ponto, acertando bons golpes retos no oponente.

No primeiro takedown que conseguiu, o cubano mandou o brasileiro ao solo com uma mistura de varredura e arremesso nocauteando-o instantaneamente com uma avalanche de socos e cotoveladas na meia-guarda.

Outras menções

tumblr_nqnuumM9x11u2ragso1_500Tiago Marreta usou o manjado – mas sempre eficiente – ‘olha aqui, chuta ali’ para despachar Steve Bosse rapidinho.

O brasileiro mandou primeiro uma patada na costela, depois olhou novamente para o tronco e soltou a perna na altura da cabeça. Fintas do tipo dependem de expressão corporal pura e por isso sempre legais de serem vistas.

Lorenz Larkin teve culhão contra Santiago Ponzinibbio. O norte-americano plantou uma tática ousada quando se tem pela frente um golpeador visceral como o argentino.

Além de moer as pernas do hermano com low kicks precisos e pontuais, deixou-se encurralar nas grades esperando o golpe de carga mais previsível do adversário – no caso os swingões de direita -, para trabalhar os contragolpes em cima disso e dos recuos acentuados que Ponzinibbio geralmente faz depois das ofensivas, até conseguir a vitória na via rápida.

[Leitura de luta] Peso palha, chumbo grosso

Você também achou que duas lutadoras de 52kg dentro do octógono não seria propriamente algo que seguraria um main event digno de UFC, certo? Errado, meu amigo.

Joanna Jedrzejczyk incorporou o papel de ‘carniceira’ e ministrou, na prática, um verdadeiroworkshop de contundência contra Jessica Penne no Fight Night Berlim.

Com a vitória e o cinturão garantidos após o ‘piau’ que durou pouco mais de três rounds, a polonesa deu novos indícios de que pode ser mais uma campeã dominante em uma divisão feminina da organização.

Analisemos, pois.

Dominância

2nuhph0Muitas características do kickboxing holandês pontuam o jogo de Joanna: velocidade de resposta absurda e traduzida nos típicos ‘dutch rushes’(combos dinâmicos de socos e chutes), além da capacidade transformar a luta em um ‘toma lá, dá cá’ de primeira.

Ela carrega também um dos cacoetes mais nobres dos strikers experientes: a de mixar ataques eficientes em alturas diversas, o que torna o conjunto de habilidades muito mais traiçoeiro.

O primeiro assalto foi a única parcial distinta do que viria pela frente. A polonesa cadenciou a luta, caçando a melhor distância para desenvolver o jogo de striking.

2j5gfugJessica mostrou boa movimentação nas entradas e saídas do raio de ação e tentou a todo custo colocar o combate na horizontal. Conseguiu os melhores momentos nos clinches, de onde aplicou dura queda de quadril a poucos segundos do intervalo.

Na metade do segundo assalto caiu a ficha da campeã, que passou a dominar o ritmo da média para a longa distância e colocar pressão constante. Uma forte cotovelada no nariz da oponente foi o início de uma receita dolorosa.

Os socos retos constantes no plexo tiveram papel tático importante para brecar ímpetos e cansar a oponente. Joanna também soltou mais low kicks, uma arma essencial nos tempos como kickboxer lapidada nos anos de treino com o mítico ex-campeão do K-1 Ernesto Hoost(#inveja), mas até então usada de forma mais tímida em suas atuações no MMA.

12161blTécnicas adaptadas do ‘hand fighting’ também foram desenvolvidas com maestria pela campeã.

Quando percebia alguma investida mais direta ou telegrafada de Jessica, ao invés de se encolher e aceitar o possível clinch, a campeã o antevia, deslizando rapidamente para trás com os braços esticados para deter os bíceps ou empurrar a cabeça (caso abaixasse demais para tentar a queda) da adversária.

Aqui adaptadas para o MMA, técnicas de ‘brecar braços’ são comuns na cartilha do infight no muay thai tradicional.

Quando Joanna frustrava o timing adversário na ação, imediatamente caía dentro com socos curtos, combos velozes ou cotoveladas.

Conclusão

Juro que não é preconceito. Confesso que torcia um pouco o nariz sempre que olhava os cards que tinham algum desafio previsto nesta categoria.

Mas Joanna conquistou minha atenção após o ‘passeio’ de pés, punhos joelhos e cotovelos em solo alemão, onde tirou uma ex-campeã do Invicta pra nada.

A polonesa mostrou ser uma ‘badass’ de primeira linha, com atitude e estilo de campeã ímpares. Seu jogo de striking é daqueles que fazem você pagar (pra valer) se cometer algum descuido ou vacilo.

Ainda é preciso dar aquela amalgamada com a parte de grappling, óbvio, mas se continuar nessa toada, vai ser difícil perder o trono tão cedo em uma divisão ainda em construção no Ultimate.

Pode apostar.

[Leitura de luta] Mayweather, Pacquiao e todo pano pra manga

Com tanto bafafá e blábláblá envolvidos, é claro que o combate entre Floyd Mayweather Jr. eManny Pacquiao rende quilos e mais quilos de polêmica que não vão parar tão cedo.

Os requintes megalomaníacos que alimentaram o evento se traduziram em um resultado contestado por muitos.

Tudo bem que houve momentos mornos e abaixo do esperado, mas foi curioso ver que muita gente, mesmo supostamente abalizada, não captou qualquer insight de um duelo todo traçado no basicão do ataque e contra-ataque.

Como aqui a intenção é mais focada em destrinchar técnicas interessantes, segue meu ponto de vista sobre a tal ‘luta do século’.

Retroceder nunca?

RealisticWavyIriomotecatNão houve lá mudanças tão bruscas no estilo de ambos. Mas o desenho ‘espelhado’ – e invevitavelmente desajeitado – destro x canhoto dentro das características de ambos exigiu bons ajustes táticos e técnicos.

Mesmo lapidado por anos de treinos, Pacquiao ainda carrega nos punhos uma crueza natural instigante e que enche os olhos de forma mais direta.

Mayweather carrega a sina da vantagem subjetiva, via de regra entre os melhores contragolpeadores do esporte.

Muito se colocou em xeque o fato de o norte-americano ‘andar para trás’. Mas é a marca registrada mais forte de seu jeito de lutar.

Mesmo estando à mercê de margens interpretativas nem sempre confiáveis, nos esportes de combate existem diferenças entre fugir e recuar.

Se o primeiro termo configura puro antijogo, o segundo escancara o precedente de que é possível manter-se ativo e criar eficiência durante os recuos.

A receita defensiva de Mayweather é baseada no ‘shoulder roll’ ou ‘philly shell’, jeitão de lutar que demanda personalização intensa de fatores como reflexo e tempo de resposta.

É uma postura técnica em que o braço da frente (da postura de luta) é colocado sobre as costelas e cria-se um ‘escudo’ ao redor do queixo com a outra luva e o ombro.

O posicionamento lateral do tronco e as pernas mais abertas facilitam pêndulos, esquivas e respostas imediatas. O rosto relativamente descoberto funciona como isca.

Além dos pesados, precisos e multiangulados diretos de esquerda como fonte direta mais confiável (um senso comum entre canhotos), o que chama atenção em Pacquiao é o tempo preciso com que costura ataques usando o jogo de pernas.

Como manda o figurino contra destros, o que vale é posicionar o pé da frente (da postura de luta) por fora do pé da frente do oponente para que os ataques sejam melhores angulados.

OrnateFastAmericankestrelApós alcançar essa posição, ele solta uma sequência na qual o último golpe já é colocado acrescido de uma curta movimentação lateral, preparando naturalmente o corpo para o próximo combo, e assim sucessivamente até que resolva parar de atacar.

Contra Mayweather, ficou claro que quebrar o timing dos ‘shoulder rolls’ era um ponto-chave.

Assim que encurralava o adversário contra as cordas, Pacquiao esperava o adversário pendular para soltar uma saraivada de socos que geralmente começavam na média altura na tentativa de acertá-lo desguarnecido em plena manobra defensiva.

tumblr_nnrbyixlC81qzaoamo1_400Ao passar alguns momentos de sufoco com isso, Mayweather limitou-se algumas vezes a lacrar as luvas na frente do rosto para bloquear a investida e não dar sopa ao azar.

Em outras, usou rápidos ziguezagues para descalibrar o início dos ataques do filipino, respondendo com rápidos cruzados de esquerda e escapando lateralmente com grande habilidade.

Mas o melhor momento de Pacquiao veio no quarto assalto, quando defendeu um jab com a mão direita e explodiu em contragolpe com ótimo direto de esquerda.

Se o filipino aos poucos ia desperdiçando ataques importantes, que ora atingiam a guarda, ora eram evitados com esquivas, grande parte da gordura ofensiva do norte-americano – imprescindível para tecer o resultado final – começou a ser garantida com longos e potentes com jabs angulados debaixo para cima (chamados de up jabs), que variavam entre o rosto e o plexo do adversário, e surtiram efeito nas vezes em que o filipino ignorou ângulos entrou no raio de ação em linha reta, com jabs ou cruzados de direita, outra característica marcante em seu estilo.

Conclusões

Boxe não é uma ciência exata e como muitos esportes baseia-se em médias e denominadores da equação tentativa/acerto/eficiência.

A vitória de Mayweather foi clara, mesmo que a tal margem interpretativa de muita gente tenha beirado a alienação de torcer pelo mocinho ou pelo bandido.

Boxe não se resume a nocautes. Abra a cabeça. Sempre vai haver muita coisa interessante guardada em um duelo estilístico de alto calibre.