[Leitura de luta] Jones faz o mínimo; Johnson o máximo

Jon Jones fez tecnicamente o mínimo e manteve o máximo de cautela para vencer Ovince St.Preux na luta principal do UFC 197, que marcou o retorno do ex-campeão dos meio-pesados após toda balbúrdia pessoal e profissional nos últimos tempos.

Mas se o evento principal causou alguns bocejos aos mais imediatistas, as outras promessas do card fizeram jus às expectativas.

Na disputa de título dos moscas, Demetrious Johnson detonou Henry Cejudo e frustrou ainda mais as esperanças de haver algum adversário que possa fazer frente à seu poderio técnico em curto prazo. Já Barboza x Pettis foi mais cérebro do que pernas.

Seguro

ezgif-1028602381Ovince St.Preux é um lutador de físico avantajado, que atua plantadão e varia bastante de postura. Aposta em golpes isolados, e em muitos deles ainda se desequilibra em virtude do peso corporal excessivo empregado em cada ataque.

Como de costume, Jones adotou a ambidestria como padrão de luta, tomando iniciativas quando destro e atuando mais como contragolpeador nos momentos de canhoto.

A estratégia para desgastar o adversário foi básica: angariar vantagens sem se expor em demasia, por meio de recursos que facilitam a manutenção de distância e aceleram o cansaço alheio, como pisões laterais e oblíquos nas pernas, além de chutes laterais e circulares no plexo.

Seja para criar uma barreira defensiva com um dos braços esticados, incomodar com under eover hooks nos clinches ou desenhar golpes inesperados com os cotovelos, o alcance de Jon Jones segue como um dos mitos mais intensos a serem superados no MMA moderno.

ezgif-2197650193Mesmo em noite menos inspirada e contra um oponente com envergadura também avantajada (2,01m), Bonesdominou com folga as ações nas três distâncias e tirou proveito de cada uma à sua maneira.

O grande ‘fator-sono’ foi justamente a opção de Jones se prender demais nas medidas de segurança para cadenciar o combate de acordo com o ritmo, mais lento, de St.Preux.

Sem tempo hábil para se preparar adequadamente, o haitiano/norte-americano já demonstrava cansaço no segundo assalto. Mesmo assim, conseguiu lampejos de reação, acertando o ex-campeão com alguns socos.

Jones sedimentou as vantagens com quedas pontuais nos assaltos finais e distribuiu alguns chutes de habilidade até garantir o resultado final por pontos. E que venha logo a revanche contra Daniel Cormier.

Intacto

Henry Cejudo pode ter credenciais de sobra no wrestling, mas faltou feeling para lidar com a malícia técnica dos thai clinches impostos por Demetrious Johnson.

O desafiante veio com a intenção clara de apostar nos chutes baixos para amenizar a velocidade frenética do adversário e teve relativo sucesso com isso nos instantes iniciais, e ainda conseguiu uma queda. Mas o campeão logo apertou o cerco e puxou para os clinchesusando a pegada combinada, conhecida em muitas escolas como 50/50.

LinearThriftyAfricanbushviperNela, ambos ficam em situação igual, com uma das mãos atrás da cabeça e a outra pousada sobre um dos braços, A partir daí começa a ‘esgrima’, que visa conseguir posições de dominância.

Johnson então variou ataques no corpo e cabeça para condicionar e confundir o oponente. Inicialmente, mandou joelhadas curtas com a direita nas costelas.

Quando Cejudo começou a se encolher e cedeu o mínimo de espaço, o campeão rapidamente deslocou a mão que estava sobre o bíceps para o pescoço, fazendo o ‘colar’ e executando um golpe com o joelho esquerdo no rosto simultâneo ao puxão da cabeça para baixo.

O desafiante sentiu, recuou e acabou atingido mais vezes até o nocaute técnico ser decretado. Brutal!

Lá e cá

Quem pensou que Edson Barboza x Anthony Pettis seria um festival de pernadas espetaculares acabou frustrado, mas apenas em parte. O combate esteve longe de ser ruim.

SevereConsciousGreatdaneMas as táticas de ambos visivelmente foram montadas de formas similares, com um esperando as tentativas de chutes do outro para aproveitar o timing e entrar com socos, pegando o adversário supostamente desequilibrado ou desguarnecido.

A intenção mútua modificou o senso que seria mais comum, deixando a luta muito mais tensa e presa aos detalhes.

Para lidar melhor com a movimentação multiangulada do adversário – Pettis avança e ataca com eficiência em ambos os lados – o brasileiro confiou nos cruzados de esquerda de forma metódica.

tumblr_o654lpWOab1u2ragso1_500Barboza variou o fundamento do boxe de duas maneiras: como golpe final para fechar uma sequência de dois socos retos, ou em contragolpe por cima dos cruzados e diretos de direita de Pettis.

Nas duas formas, o aproveitamento foi mais que satisfatório e fez a diferença.

Outro fundamento explorado pelo carioca foram os chutes na parte interna da perna. Barboza foi sistemático nas patadas baixas, após bloquear algum combo ou mesmo quando Pettis recuava.

No final, a coxa do Showtime parecia um carpaccio, e este cravou a terceira derrota consecutiva na organização.

tumblr_o6552vSWMp1u2ragso1_500Pedalada

O momento ‘vale o GIF’ da vez ficou por conta do mexicano Yair Rodriguez, que mais uma vez abusou da versatilidade e mandou um voleio na cara de Andre Fili.

Nocaute por ‘double kick’ para o habilidoso chicano, que carrega uma mistura especial de displicência e coragem sempre interessante de ser vista nos esportes de combate.

[Leitura de luta] A nova vítima de Glover ‘mão de pilão’

Mesmo com baixas importantes no card, o UFC on Fox 19 foi satisfatório no em assinaturas técnicas e teve combates interessantes em mais um final de semana recheado de eventos pelo mundo.

No encontro estilístico mais esperado da jornada, Glover Teixeira precisou de pouco mais de dois minutos para esparramar Rashad Evans na lona do octógono. Assim, garantiu o terceiro triunfo consecutivo e se reafirmou-se como um dos contenders mais duros entre os meio-pesados.

Como de costume, aquela olhada mais de perto nos destaques vem a seguir.

Letal

Na ponta do lápis, a principal expectativa era saber como o poder visceral de golpes de Glover se confrontaria com as manhas técnicas de Rashad. Como esperado, o norte-americano escaneou bastante opções e ângulos antes de cada ataque, usando e abusando de jabs, fintas e mudanças de nível (altura) para se tornar mais imprevisível.

Mas novamente, um velho cacoete atrapalhou. Mesmo com todo ‘calo’ de octógono, Rashad ainda fica atabalhoado quando o oponente propõe alguma blitz ou exerce pressão mais severa. Aí, começa a recuar de forma displicente e desequilibrada.

Tal falha no fundamento básico de movimentação já deve ter sido percebida e treinada para ser sanada por Henri Hooft e os demais profissionais que cuidam de seu strking.

giphyMas os famigerados ‘brancos técnicos’ ainda perseguem o norte-americano em momentos de grande pressão psicológica e técnica. O fato é predominante desde que foi horrivelmente nocauteado por Lyoto Machida, em 2009.

Um dos lutadores mais instintivos do esporte, Glover se impôs e logo fechou o cerco para aproveitar a inabilidade de Rashad com as costas contra as grades e testar as saídas do raio de ação do adversário. Na primeira chance, aproveitou uma escapada para a esquerda para aplicar um chute alto.

Muito se fala na potência boçal no punho direito do brasileiro, mas o cruzado de esquerda é seu golpe mais frequente e perigoso, sobretudo quando jogado após um direto. Trata-se de uma receita básica do pugilismo e que pode atrapalhar até os mais experientes.

Para os destros, os cruzados de esquerda são muito funcionais quando usados em combos pela possibilidade de ampliar alternativas de timing-surpresa. São golpes de muita velocidade e pouco telegrafados.

LinedFemaleHamadryadO norte-americano foi bem orientado e tevefeeling técnico para perceber isso. Tanto que o padrão de movimentação foi desenhado para ‘ganhar’ constantemente a esquerda de Glover, ou seja, ir de encontro ao golpes que vinham do lado direito, supostamente o mais forte.

Uma tentativa ousada, mas que não surtiu efeito.

Ao fechar o cerco mais uma vez, Rashad percorreu a grade inclinando demais o tronco. Ao tentar golpear sem uma base estável, acabou atingido por um direto, seguido de um cruzado de esquerda na ponta do queixo.

No momento em que tentou se levantar, ainda foi pego por um uppercut de direita. Fatal.

Fluido

giphy (1)Se nos bastidores Cub Swanson parecia um tanto desanimado para o desafio da vez, na prática desenvolveu jogo dinâmico e cheio de personalidade contra Hacran Dias.

Caracterizado por ser pontual, de combos enxutos e intenção de aproveitar as reações do adversário, esse estilo tem sido cada vez mais frequente nos atletas da equipe Jackson/Winkeljohn, e demanda alto grau de confiança.

Sanson já apostava em atuar desta maneira há algum tempo. Mas até então, ia melhor quando priorizava fundamentos mais básicos.

ImpressionableWeightyKawalaNo compromisso da vez, a maturidade técnica foi mais que satisfatória.

Houve espaço para alguns trejeitos à laDominick Cruz, com trocas de base constantes, jogadas de ombro acrescidas de passadas com socos, além de diretos longos aplicados no tórax e uppercuts imprevisíveis.

Os low kicks aplicados na panturrilha – outra assinatura do atleta – usados como golpe inicial para desequilibrar o oponente, também estiveram presentes, criando volume ofensivo peculiar e não dando chances para o brasileiro, perdido taticamente desde o começo.

Clássico

Beneil Dariush acabou derrotado no combate contra Michael Chiesa por finalização. Mas o iraniano mostrou uma variação de aplicação dos low kicks muito tradicional no kickboxing e muay thai, chamada por muitos treinadores de ‘corredor’.

Usada para ‘matar’ espaço de forma ativa frente a oponentes que recuam demais, consiste em jogar alguns golpes com os punhos, geralmente retos, acrescidos de passos, para em seguida disparar o chute na perna, deslocando a posição do corpo levemente para a diagonal, acertando com a canela e projetando do corpo para redobrar impulso e contundência.

[Leitura de luta] Júnior Cigano: o respeito voltou?

Após turbulências e diversas sobrancelhas levantadas nas atuações recentes, Júnior “Cigano” dos Santos brecou, por ora, as desconfianças e despachou Ben Rothwell por pontos no main event do Fight Night Croácia.

Com atuação coesa e consciente, o atleta catarinense mostrou evolução técnica dentro do próprio estilo e renovou o fôlego para empreitadas mais cascudas que podem vir pela frente em breve.

Coerente

giphyCigano adotou tática longa e escolheu de forma consciência os melhores golpes a serem usados para retardar o oponente durante cinco assaltos.

Ele ainda demonstrou certas ‘panes’ ao ser encurralado contra as grades – a defasagem técnica mais persistente – mas a falta de pujança e controle do adversário em tais situações evitaram maiores problemas nesse sentido.

Maior fisicamente, com handicap na envergadura e com potência de golpes visceral até a tampa, Rothwell tem o cacoete de lutar com os braços esticados praticamente o tempo todo, mantendo-os assim inclusive após os momentos em que golpeia no vazio.

Além da capacidade de criar um ‘medidor de distância’, esse tipo de postura também desenha uma barreira segura para atrapalhar as investidas contrárias, mas ao mesmo tempo cria aberturas perigosas na guarda.

Em momentos mais incisivos, Cigano teve feeling para desenvolver timing específico para lidar com isso.

giphy (1)Ele atacava o adversário de forma leve, esquivava, pendulava ou angulava o mínimo para não ser tocado e disparava algum golpe de carga. Um ‘beabá’ básico de três tempos do boxe usado de forma bem pensada em diversas ocasiões.

Marcas registradas intensas no estilo do brasileiro, os jabs e diretos no plexo tiveram papel fundamental e foram as técnicas mais frequentes do combate.

Desde o primeiro assalto, Cigano usou o recurso de forma metódica para aproveitar as brechas deixadas por Rothwell e criar alternativas ofensivas, com destaque para os overhands ou cruzados de esquerda que finalizavam o combo.

giphySocos retos na boca do estômago são técnicas seminais nas artes marciais em pé. De simples execução e por também serem eficazes para deter investidas, carregam a característica de ataque/defesa implícita.

Além de minar a resistência gradativamente, a natureza de mudança de nível (altura) também abre brechas e cria setups (preparos) que facilitam os ataques seguintes.

Quando usados dessa maneira, os golpes com os punhos ganham em solidez, são potencializados pela força acentuada e ‘seca’ da rotação do quadril proveniente da base ancorada ao solo conforme o lutador se abaixa para executar a manobra.

giphyA contrapartida fica por conta do risco dobrado no momento da execução, em virtude de o atleta ter de encurtar muito a distância e aproximar demais a cabeça, expondo aos contragolpes.

Conforme Rothwell reduziu a marcha ao ser atingido sucessivamente no tronco, Cigano variou mais nos golpes de carga bruta.

E aí os chutes também apareceram, com destaques para frontais e laterais que atingiram pesado o alvo e desnortearam o norte-americano.

Conclusão

Se a luta for de risco, atue com segurança. Parece óbvio, mas este é o senso comum que muitos atletas do UFC têm de adotar em situação de corda no pescoço. É o eterno dilema show x resultado.

O combate contra o norte-americano esteve longe de ser uma das atuações de gala que marcaram a trajetória de Cigano pela organização em outros tempos. Mas o fator ‘convincente’ deu o ar da graça e o recolocou no páreo para possíveis empreitadas mais cascudas.

Rothwell fez frente nos primeiros minutos, mas logo acionou o modo de sobrevivência e assistiu de (muito) perto o monólogo técnico e tático executado pelo outro lado. Seguro, Cigano colocou em prática um plano de ação condizente com as características do adversário.

Ele lutou menos afoito na ofensiva e mais prudente defensivamente. Era isso, justamente, o que se esperava do catarinense nos desafios importantes em que acabou dominado e severamente derrotado de anos atrás.

Mas como em todo esporte, no MMA o que vale é o momento. E a impressão deixada contra Ben Rothwell foi bastante satisfatória buscar novos – e altos – voos entre os pesados.

[Leitura de luta] Uriah Hall conseguirá aposentar o Spider?

Uriah Hall Spinning Head Kicks Adam Cella TUF 17
Após assombrar o TUF 17 com nocautes cinematográficos e receber o apelido de ‘Homem Ambulância’ em virtude disso, o jamaicano chegou a ser considerado um dos possíveis sucessores doSpider, mas as atuações irregulares que vieram a seguir esfriaram consideravelmente boa parte das ambições.

Com diversos ‘pontos a provar’ em ambos os lados, o desafio tem boas chances de não decepcionar até os mais exigentes. A seguir, a primeira olhada livre sobre detalhes e possibilidades.

Um só

O poder de definir com um único golpe é fator inerente aqui. A variação de chutes com grande poder de explosão muscular é o carro-chefe de Hall. A defasagem principal reside justamente em ter um QI de luta volúvel e que já o deixou na mão em momentos cruciais de desafios importantes.

dancedodgingTecnicamente mais comedido na fase atual, Anderson Silva segue um dos caras mais inventivos da historia do esporte, com capacidade instantânea de ler movimentos e trejeitos dos adversários e capitalizar em cima de erros mínimos.

A expectativa deve recair em apreciarmos uma batalha tática e mental (quase) na mesma medida, com predominância em pé e assinaturas técnicas intensas nas formas peculiares de controlar distâncias.

Hall tem movimentação solta de quadril e pernas, mas mantém o tronco praticamente reto o tempo todo, sem esquivar ou ‘ciscar’ com frequência.

Essa postura é usada por bons chutadores para ocultar intenções nesse sentido, mas por ser estática demais, pode transformá-lo em um alvo muito mais fácil de ser alcançado contra um adversário tão eficiente na média tentativa/acerto quanto o Spider.

Anderson explora como poucos os movimentos de rotação de ombros e cintura para potencializar socos ou amenizar os possíveis danos de ataques contrários.

24968151O ‘hand fighting’ – tocar a guarda do oponente com uma ou as duas mãos sucessivamente para buscar aberturas e alternativas ofensivas -, é o grande termômetro do estilo para controlar o alcance, potencializado pela versatilidade ímpar e físico longilíneo.

O fato de Hall raramente descambar para as trocas mais francas de golpes e pouco desenvolverclinches poderá criar uma distância mais confortável da média para a longa e facilitar as coisas para o brasileiro nesse sentido.

Se a medida cautelar mais direta contra lutadores que gostam de giratórios é fechar o cerco ou antever o golpe pelo tipo de postura ou rotação do quadril, o jamaicano tem colocado em prática com frequência uma técnica comum entre os atletas de taekwondo, que consiste em aplicar um giratório 180 graus com o adversário mais próximo ou pegá-lo de encontro no momento em que se aproxima.

hallEste tipo de manobra requer precisão acentuada no ‘coice’. O chute tem de ser executado de forma ascendente, com o salto mais ‘para cima’, criando assim o espaço ideal até que o calcanhar (ou a sola do pé) acerte o alvo.

Foi assim que iniciou o nocaute mais importante da carreira, contra Gegard Mousasi, no Fight Night Japão do ano passado.

A técnica pode ser providencial para surpreender caso o Spider chame a luta para o infight e fique com as costas contra as grades, como gosta de fazer para intimidar oponentes.

Conclusão

No último artigo que escrevi sobre Anderson Silva, propus que um dos segredos para a longevidade dentro das oito paredes seria vê-lo menos espalhafatoso e mais condizente com as condições físicas e técnicas de um lutador de 40 anos.

Claro que tudo tem de ser feito com bom senso para que se preserve a parte efetiva das malícias técnicas que o eternizaram um dos lutadores mais perigosos do mundo. Ao rever a atuação contra Bisping para escrever deste texto, o fato foi sintomático e prova viva de que isso se faz necessário.

Pra quem gosta de colisões de estilos, a luta contra Uriah Hall conta com curiosidades interessantes. No MMA, Anderson nunca enfrentou um kicker tão letal quanto o jamaicano, e terá de se esmerar para amenizar a vantagem considerável em atleticismo do adversário.

Quando está em um dia bom, o jamaicano exerce o dom do imprevisível com suas pernadas. Ele também gosta de responder chutes com chutes, criando timing e cadências diferenciadas com isso.

[Leitura de luta] Os ‘chutes pra que te quero’ de Pettis x Barboza

Dos muitos combates bombásticos programados para a temporada 2016 do UFC, Anthony Pettis x Edson Barboza salta aos olhos como um dos encontros técnicos mais interessantes. O desafio acontece na edição 197, em Las Vegas (EUA), dia 23/4. Para a felicidade geral da nação striker, teremos frente a frente dois dos chutadores mais implacáveis do esporte.

O objetivo deste artigo é abordar diferenças e semelhanças na arte das pernadas, o que configura o maior atrativo do encontro. Vamos nessa!

Precedentes

Como toda ação em um combate de MMA é passível de chegar ao grappling, é necessário ter cautela redobrada na aplicação dos chutes, sobretudo da média para a longa distância, a situação mais traiçoeira e passível de erros na modalidade.

Na prática, isso se desenvolve por meio de adaptações e detalhes de encaixe dos golpes, ângulo de ataques e setups (ações de preparo ou fintas).

Se há poucos anos era incomum apreciar habilidades mais apuradas no fundamento, atletas como Pettis e Barboza são linha de frente no grupo dos que quebram paradigmas e provam que patadas bem treinadas fazem muita diferença no mundo moderno das artes marciais mistas.

Anthony Pettis vs Gilbert Melendez (1)De forma abrangente, o estilo de chutar de ambos é um híbrido entre o taekwondo e o muay thai. Trazem a velocidade e elasticidade típicas da arte marcial coreana, agregada à contundência inerente do estilo tailandês.

O que chama atenção em Pettis logo de cara é que boa parte do padrão de movimentação é curto, ou seja, ele avança ou recua a partir de pequenos passos, sem deslocar quadril e joelhos em demasia para esconder mais as intenções de chutar, tornando-as menos telegrafadas.

Mesmo sem apostar em sequências de golpes extensas, Showtime conta com boas alternativas de socos como setups, angulando de forma simultânea aos ataques para, além de facilitar a entrada dos chutes, forçar bloqueios e coberturas (com os dois antebraços na frente do rosto) dos adversários, condicionando-os a se defender em um nível (altura) em particular, enquanto acerta algum golpe onde estiver desguarnecido.

tumblr_mh9kwusm9u1qhiqbvo1_400Esse conjunto de habilidades compõe a grande virtude no striking do norte-americano, que chuta de forma ‘seca’, ganhando potência mediante a explosão muscular das pernas e quadril apenas no momento em que o golpe atinge o alvo.

É como se fosse a famosa ‘chicotada’ típica do taekwondo, mas com intensidade reforçada devido ao uso de parte da canela para auxiliar no impacto.

Barboza desenvolve movimentação mais retilínea e tem um conjunto mais enxuto de setups. Os ‘bons e velhos’ jab/low kick, ou jab/direto/chute com a perna da frente (da postura de luta) comstep (rápida troca de base que engatilha o golpe) são constantes para afastar oponentes e criar espaço para o chute entrar.

1-2Trata-se de uma das receitas mais clássicas do kickboxing.

Os low kicks do carioca são outra assinatura ao melhor estilo ‘pedrada pura’. O curioso é que algumas vezes ele os aplica sem virar muito o pé de apoio (pivô) e em um ângulo mais reto, com intenção de ampliar velocidade e contundência.

Isso pode sacrificar técnica por potência de forma peculiar, mas é efetivo.

Barboza varia os chutes nas pernas executando-os após defender alguma sequência de socos – aproveitando algum desequilíbrio ou vacilo que o adversário tenha para se recompor do ataque -, ou mesmo de forma direta.

Chamativos

pettisninjaaa2_medium_mediumUma das grandes virtudes dos bons chutadores é poder usar e abusar de manobras personalizadas.

Pettis desponta nesse sentido como um dos caras mais inventivos do esporte.

Ele é o criador do ‘showtime kick’, pernada na qual escala a grade do cage para aplicar o golpe.

Edson Barboza Spinning Heel Kicks Terry Etim - UFC 142 (Multiple Angles)O handstand kick – chute com uma das mãos apoiada no solo e imortalizada no muay thai pela lenda Saenchai – é igualmente perigoso.

Menos mirabolante, a principal carta na manga de Barboza são os giratórios, como o antológico que transformou Terry Etim em estátua no UFC 142, em 2012.

A técnica de preparo mais usada pelo carioca nesse sentido é pressentir o ataque oposto, recuar meio passo e a partir daí aplicar o chute, ação que exige alto nível de feeling e velocidade de resposta.

Na mão

5A sina e ambição principal na vida de dez entre dez strikers é conseguir equiparar socos, chutes, joelhadas ou cotoveladas no mesmo grau de perícia.

No caso em questão, os golpes de punho desempenham papel dinâmico e mais secundário em ambos os lados. Por encurtar a distância com frequência para aplicar low kicks, o brasileiro usa bons jabs como ferramenta de contenção.

Um de seus principais cacoetes defensivos é disparar um cruzado ou overhand de direita sempre que pressionado. Pettis projeta socos de forma mais alongada, com preferência para golpes retos.

Conclusão

Não dá pra não se empolgar com tantas credenciais em pé envolvidas neste combate.

No chão, Pettis teoricamente leva boa vantagem sobre o brasileiro, mas seria uma judiação crer que o combate na horizontal seria o objetivo principal entre dois caras que não gostam de ser encurralados e são naturalmente dominantes em técnicas plasticamente letais.

Luta boa? Com certeza. Uma das melhores do ano? Tomara que sim

[Leitura de luta] Bem-vindo de volta ao planeta Terra, McGregor

Não há como negar que Conor McGregor é um cara corajoso. No UFC 196, ele colocou pra jogo a reputação crescente na organização em um combate duas categorias acima que atua, aceitou substituição de adversário duas semanas antes do compromisso sem se importar com peso, envergadura e outros handicaps desfavoráveis. Merece respeito.

O problema é que nos esportes de luta ousadia e soberba carregam semelhanças que caminham lado a lado, e o preço a ser pago caso as coisas não funcionem da maneira esperada pode ser alto.

Com três dias de camp, Nate Diaz acabou com a sequência de triunfos do irlandês e jogou um balde de água fria em seus planos mirabolantes de ‘abraçar o mundo’.

Um belo ‘tapa de Stockton’ sem luva de pelica.

Maior e menor

Como esperado, a base ofensiva de Diaz foi alongar bastante os golpes para dosar o ritmo, amenizar a velocidade do adversário e fazer valer o alcance superior.

Mas o domínio que o irlandês tem nas ações/reações em contragolpe pelo flanco esquerdo foi acentuado e diferencial durante os primeiros minutos.

giphyAs respostas para as iniciativas contrárias eram executadas por McGregor com diversas variações: após deslocamentos diagonais, esquivas, de forma simultânea ou em golpes de encontro.

De forma geral, o padrão de movimentação do europeu foi muito mais linear do que o costume.

Ele também teve bons momentos nesse sentido ao trabalhar por dentro do raio de ação, uma medida arriscada e que expõe mais, mas que figura como boa saída quando você é o cara menor em questão e não deve ficar dando mole na longa distância.

À exemplo do combate contra Marcus Brimage (último canhoto que havia enfrentado, na estreia pelo UFC), McGregor pendulou constantemente e mostrou bom faro para cair dentro comuppercuts e cruzados.

giphy (1)Mesmo liderando no volume, o poder de fogo do irlandês não surtiu o efeito desejado. A distorção da transferência de peso em cada movimento contribuiu para isso. Ele tinha de deslocar o centro de gravidade em demasia para alcançar o longilíneo adversário, e isso consequentemente afrouxou os melhores ataques.

Sem uma base ancorada para golpear, se desequilibrava quase o tempo todo nas manobras mais intensas. Trata-se de mecânica corporal pura.

Pense: você tem muito mais força ao jogar o braço de baixo para cima do que o contrário, certo?

Diaz manteve o estilo comedido, suportou o castigo inicial e passou a dominar a distância no segundo assalto, aplicando jabs e esperando o momento certo para ser incisivo.

Duas sequências básicas um/dois explodiram no queixo do irlandês e deram início à finalização que aconteceria pouco depois.

bloggif_56ddc4e35fcb4Conclusão: duas divisões de peso acima da que seu organismo está habituado há pelo menos três anos e sem contar com o ‘fator alcance’ como vantagem, McGregor se descaracterizou tecnicamente e ligou o modo de sobrevivência desde o começo contra Diaz.

Ele colocou potência excessiva em praticamente todas as ações de ataque, um dos instintos mais primais quando se tem pela frente um cara maior.

Isso se potencializou ainda mais pelo sucesso inicial do europeu em tentativa/acerto e o rosto cheio de sangue do oponente após ser atingido algumas vezes. Mas o senso de urgência pesou contra em poucos minutos e a distorção tática foi inevitável, traduzida em falta de dinâmica, cansaço e consequente derrota.

Mudou, de novo

No choque estilístico mais acentuado da noite, Miesha Tate foi cérebro puro para arrancar o cinturão Holly Holm.

giphy (2)Esta começou impondo o jogo característico baseado no poder dos diretos de esquerda e repleto de setups de socos que terminavam com chutes laterais para atestar volume e se manter distante da oponente.

Miesha manteve-se ‘gelada’ para encontrar as melhores brechas. No segundo assalto, clinchou e levou ao solo, pegou as costas e conseguiu o mata-leão. Holly se livrou por não desistir do controle de pulso para amenizar a pressão.

Miesha esperou até o fim do último round para conseguir uma nova queda e tentar novo estrangulamento pelas costas.

Holly levantou e tentou capotar, que manteve os gancho com o pé direito bem atado dentro das perna da adversária para não se soltar. Ela acompanhou o embalo do movimento para atingir a lona do octógono com a posição de vantagem segura e faturar a vitória.

Jiu-jitsu neles, mais uma vez!

Coisa feia

bloggif_56ddc9111ba82Em Erick Silva x Nordine Taleb, tivemos mais uma lição de como responder a uma atitude cretina e sem esportividade.

Em dado momento, o brasileiro esticou o punho para cumprimentar o adversário e imediatamente transformou isso em um soco para tentar pegá-lo desprevenido.

Pouco depois, Taleb mandou a resposta com um direto em cheio na fronte, após contragolpear um chute frontal desferido com a guarda totalmente baixa.

Dos brasileiros

giphy (3)O momento “vale o GIF” da semana vai para Vitor Miranda, que enfrentou Marcelo Guimarães.

Após cotoveladas no clinch, abalou o adversário com um ‘brazilian kick’, uma variação do chute circular clássico na qual a perna faz um arco para ‘driblar’ a guarda do oponente se for o caso, e atingir com o peito do pé de cima para baixo.

Rara ainda no MMA, a técnica recebeu esse nome após ser difundida por brasileiros como Ademir da Costa, Glaube Feitosa e Francisco Filhoem competições de caratê kyokushin e no K-1.

[Leitura de luta] Spider teria vencido ‘se quisesse?’

Sim, meus amigos. No palpite para Anderson Silva x Michael Bisping lá no Sexto Round, sugeri que o inglês só teria chances concretas de vitória no UFC Fight Night Londres se tivesse uma noite taticamente brilhante e com margem de erros quase nula.

O resultado? O inglês fez a performance da vida e incinerou minha língua. Fato.

Claro que o destino do combate poderia ter sido outro caso Anderson não tivesse feito cena e continuado a golpear um semi-nocauteado oponente após a famigerada joelhada voadora no terceiro assalto – após vacilada absurda do britânico -, pouco antes do fim da etapa.

Mas isso é assunto de sobra para meus camaradas abordarem com a competência de sempre aqui no site. Vamos partir logo para a serventia da casa e analisar técnicas e táticas.

Calculado

No artigo ‘primeira impressões’ sobre desta luta, propus que o detalhe ‘quem avança/quem recua’ poderia ser um termômetro interessante e com peso suficiente para interferir no resultado, já que Bisping até então não passava impressão muito confiável quando pressionado e Anderson é um dos golpeadores mais letais do esporte, com média excelente em tentativa/acerto.

giphyMas O Conde provou ter evoluído como poucos nesse sentido. Minimizar as fugas apavoradas do raio de ação impondo-se de forma metódica.

A estratégia longa e dinâmica colocada em prática com frieza fez a diferença. Para amenizar as inúmeras artimanhas técnicas do jogo do adversário, redobrou a cautela: ‘ciscou’ e mapeou as melhores opções na maioria das vezes com passadas e fintas, antes de se mandar ao ataque.

O Spider manteve boa parte da versatilidade ímpar e os trejeitos chamativos de sempre. Mas ficou claro que o estilo de luta pós-fratura e ‘quarentão’ precisará cada vez mais de ajustes para manter um padrão satisfatório.

O corpo já deu mostras de ter entendido isso. A mente ainda não.

Nos momentos de iniciativa, Anderson abriu constantemente o caminho com jabs, pisões ou‘hand fighting’, mas não complementou as investidas com golpes de potência. Foi hesitante demais.

giphy (1)O padrão de contragolpeador do brasileiro depende de timing e precisão aliado às esquivas e movimentos evasivos.

Mas isso tem de estar bem alinhado com o senso de distância para funcionar direito, o que não aconteceu em boa parte da luta e configurou o fator mais sintomático para minar o padrão técnico do brasileiro, sobretudo nos dez minutos iniciais.

Um dos reflexos diretos disso aconteceu no knockdown aplicado pelo inglês no segundo assalto.

Anderson entrou no raio de ação e tentou um contragolpe em cruzado de direita com o punho da frente (da posição de luta), mas esticou muito o braço e abaixou demais a postura, desequilibrando-se e imediatamente recebendo os dois socos que o mandaram à lona.

De perto

giphyO famigerado ‘vem pra grade’ com a guarda baixa e os pés paralelos que o Spider usa para intimidar e frustrar oponentes foi presente.

Mas desta vez, boa parte dos destaques estiveram na contrapartida. Bisping praticamente não arredou o pé no in fighting e capitalizou os momentos para angariar vantagens.

Como Anderson costuma esticar os braços defensivamente para manter o adversário à distância e usar o ‘dirty boxing’ nessas ocasiões, o inglês se mostrou bem treinado para variar a altura dos ataques o tempo todo e aplicar contragolpes por cima do braço do adversário, sempre que tocado ou ameaçado.

WeakImpressionableChameleonSe o brasileiro colocasse muito o braço direito à frente, a resposta vinha com um cruzado de esquerda.

E vice-versa.

Aí também entraram chutes por dentro da perna e pisões, recursos usados diversas vezes pelo britânico como habilidades mais confiáveis para quebrar a postura e confundir o tempo de ‘caça aos contra-ataques’ constante nas intenções de Anderson. Simples e efetivo.

Assinaturas

AdoredDismalFrogmouthO grau elevado de versatilidade do Spider sempre rende momentos de criatividade técnica interessantes.

Desta vez, manobras novas se misturaram com velhas marcas registradas.

Destaque para as tentativas de cotoveladas reversas e o antológico chute frontal alto que explodiu no rosto de Bisping no quinto assalto e quase muda o rumo do combate à la UFC 126.

giphyO Spider também usou um chute circular reverso, como havia feito em outras oportunidades.

É um golpe eficiente e MMA e mais executado como finta, raríssimo no MMA e usado com mais frequência nas competições de taekwondo ITF (uma vertente alternativa da arte marcial coreana).

EmbellishedGentleCondorOs clássicos socos reversos também apareceram. Executados com as costas da mão e parte integrante fundamental na maioria dos estilos de caratê e kung fu, funcionam como variação para o jab ou como contragolpes por serem velozes e de simples execução.

O Spider usou o recurso em duas oportunidades.

Na melhor, desenhou uma finta como se fosse agarrar a perna de Bissing e imediatamente modificou a intenção aplicando o soco.

Conclusão

Enquanto muita gente preferiu cravar que Anderson ‘não venceu porque não quis’ (uma baita cascata), prefiro enaltecer a performance de um Bisping que sempre tirou nota 7 e que ficou bem perto de conquistar um 10 com louvor.

Anderson veio bem preparado fisicamente para o combate, isso é inegável. Ainda não se sabe se terá ânimo para mais empreitadas.

Dou crédito e gostaria de vê-lo em ação pelo menos mais uma ou duas vezes. O que ele precisa é de uma equipe técnica inteligente e que entenda que tem nas mãos um lutador veterano com a necessidade de adaptar e extrair o que ainda há de melhor tecnicamente.

Esse negócio de ‘tudo bem, ele sempre lutou assim’ já passou do prazo de validade. E faz tempo.